24/05/2026
Desabafo.
Eu escolhi fazer uma medicina próxima. Daquelas em que o paciente tem contato direto com o médico. Em que existe escuta, presença, acompanhamento e vínculo.
E eu amo isso.
Amo entrar na casa das pessoas. Conhecer histórias. Cuidar além da doença.
Mas tem dias que dói.
Porque, aos poucos, o cuidado próximo começa a ser confundido com disponibilidade infinita.
O WhatsApp deixa de ter horário. Sábados e domingos desaparecem. Chegam mensagens de madrugada. Pedidos de exames, receitas, relatórios, encaixes e orientações “rapidinhas”.
E, às vezes, junto disso, chegam cobranças duras, respostas ríspidas e até ameaças.
Como se quem cuida não pudesse cansar.
E talvez o mais triste seja isso: parece que estamos perdendo o cuidado com quem oferece tempo, presença e escuta.
Eu não quero endurecer minha medicina. Não quero virar uma médica distante para conseguir sobreviver emocionalmente.
Mas também não posso me sufocar tentando sustentar sozinha uma ideia de cuidado sem limites.
Empatia não é disponibilidade infinita. Presença não é acesso irrestrito.
E o médico também é humano.
Será que é só comigo… ou outros colegas também têm sentido isso?