21/05/2026
“O universo está vazio, é um monte de nada. Moramos num paraíso, e temos todas as condições para viver em paz.” Assim, o astronauta Victor Glover, da Ártemis II, descreve sua epifania diante da visão da Terra. A Terra é um lugar de encantamento e de vida.
No entanto, o universo não é vazio, mas sim silencioso. Habitamos um planeta barulhento e briguento, provavelmente o único lugar do universo no qual existe o som. Somos cantantes.
Por algum motivo o Homem aprendeu a usar o ar como meio de comunicação, nossos pensamentos íntimos podem ser transmitidos e entendidos por outros para além do Eu. Traduzimos o silêncio em palavras, falamos com os mistérios cósmicos.
A música aplaca a solidão, o desespero, os pesadelos. Aprendemos a cantar para as crianças e os bebês. “O boi da cara preta” transforma o pavor em contato humano. A música consegue falar de coisas que não conseguiríamos falar de outro modo. Com a música aprendemos que não estamos sozinhos, que temos alma, e que somos amados.
A fragilidade e o medo da morte dão lugar ao desejo de viver. Um dia o tratamento mental estará para além do reinado dos medicamentos, recuperando o encantamento do mundo pela pedagogia da voz humana.
A matéria deixa de ser expressão do sacrifício e crueldade para se transformar em afetos sonoros. Bebês sobreviventes, estamos encantados e prontos para a vida neste planeta milagroso, no meio de um monte de nada.
Clarisvaldo Rapeli.