22/07/2026
A condição de doente talvez seja a experiência mais sofrida do Homem. Alguns acham que não, a morte é mais difícil, a rescisão de contrato com a vida. “Não tenho medo da morte, tenho medo de não viver.” Dói um pouco entregar o mundo nas mãos de desconhecidos.
Qual é a maior dor do Homem? Precisamos conhecer um pouco sobre o Homem e a sua humanização. Ao homem não basta apenas viver.
Transcendemos o cruel sacrifício do corpo. Criamos a cultura, dominamos o vento, os mares, e, o que mais impressiona, criamos algo totalmente novo, o tempo. Mudamos o jeito de se ver o universo. Somos parceiros da criação ainda em andamento.
O Homem é um ser do tempo, se ressignifica e se transforma. E é nesta condição que acontece a dor de ser. A doença rouba a humanização, se impõe como verdade, nos transforma num animal agonizante no anzol do tempo. A maior dor é se sentir um animal, reduzido a coisas, num mundo petrificado.
Isto acontece com todas as doenças, principalmente as doenças mentais, o dia em que a Terra parou. Nada mais acontece, tudo se paralisa diante da doença e da sua poderosa força gravitacional. “Você veio do pó e em pó há de te tornares”. As enfermidades tomam o lugar da nossa identidade.
Isto se chama cronicidade (de Chronos, do grego, o deus do tempo), a vida paralisada num tempo eterno. a alienação da condição de Homem. As doenças paralisam a vida, infantilizam a mente, criam estranhos num mundo estranho. O dia em que a Terra parou. Não morremos, mas não vivemos.
Nestes dias visitei no hospital uma pessoa muito amada, sofri com ele aquele momento, o corpo em sacrifício, o tempo paralisado. Acho que entendi alguma coisa. ?! As doenças põem em risco a nossa lucidez.
Clarisvaldo Rapeli.