04/09/2026
Alguns filmes permanecem com a gente porque conseguem abordar temas difíceis sem recorrer ao drama.
*A Partida* (*Okuribito*), vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2009, é um deles.
À primeira vista, parece um filme sobre a morte. Mas, conforme a história avança, f**a claro que ele fala principalmente sobre a forma como nos relacionamos com ela.
O protagonista começa a trabalhar preparando pessoas para o último adeus. Um trabalho frequentemente visto com estranhamento, mas que o filme retrata com uma delicadeza rara. Em vez de transformar a morte em espetáculo, mostra o cuidado. Em vez do medo, mostra o respeito.
Na geriatria, essa discussão aparece com frequência. Durante muito tempo, a medicina foi construída em torno da ideia de combater a morte. Naturalmente, isso levou a avanços extraordinários. Mas também nos fez, por vezes, adiar conversas importantes, como se falar sobre a finitude signif**asse desistir do paciente.
Hoje, as evidências apontam para outra direção. Conversar precocemente sobre valores, objetivos e preferências de cuidado não reduz a esperança nem aumenta o sofrimento. Ao contrário, permite que as decisões estejam mais alinhadas com aquilo que a própria pessoa considera importante, além de reduzir intervenções que muitas vezes prolongam o processo, mas não necessariamente a qualidade de vida.
Talvez por isso *A Partida* dialogue tanto com a geriatria e os cuidados paliativos. O filme lembra que dignidade não depende apenas daquilo que a medicina é capaz de oferecer. Ela também está na forma como cada pessoa é reconhecida em sua história, em seus vínculos e em suas escolhas.
Existe uma pergunta que gosto de fazer aos pacientes mais velhos: “O que mais importa para você daqui para frente?”. As respostas quase nunca envolvem viver o maior número possível de anos. Geralmente falam sobre permanecer independente, estar perto da família, continuar fazendo aquilo que dá sentido aos dias ou simplesmente evitar sofrimento desnecessário.
*A Partida* é um filme sobre despedidas. Mas, sobretudo, é um filme que nos lembra da importância de conversar sobre aquilo que, cedo ou tarde, fará parte da história de todos nós.