17/07/2026
EPSI INDICA ✌️
O Filho de Mil Homens (2026), de Daniel Rezende, adaptação da obra de Valter Hugo Mãe, é um filme profundo e comovente.
Suas personagens evocam histórias que ouvimos, testemunhamos e vivemos. São vidas atravessadas por violências, exclusões e silenciamentos. A narrativa ganha força com as atuações de Rodrigo Santoro, Johnny Massaro e Rebeca Jamir.
Em uma pequena comunidade, acompanhamos sujeitos marcados por segredos e desmentidos. As casas de pedra parecem materializar subjetividades endurecidas. As fofocas e os julgamentos funcionam como um superego coletivo que aprisiona os sujeitos na vergonha e no desvio. A vigilância sobre os corpos, os afetos e a sexualidade produz culpa, solidão e desamparo.
Os sons do mar, da madeira queimando e da colher tocando o pote de geleia contrastam com o silêncio doloroso que também fala. Um silêncio tecido pelos traumas, pelas rígidas normas de gênero, pela heterossexualidade compulsória e pelo desmentido da violência.
O filme nos convoca a perguntar: quantos silêncios pode uma pessoa suportar? O que acontece quando uma dor não encontra reconhecimento? Sua força, porém, está em não permanecer na denúncia. Há uma aposta na potência transformadora do encontro. O grito lançado ao mar rompe o silêncio imposto, expulsa a violência introjetada e anuncia a possibilidade de uma nova existência.
No encontro entre Crisóstomo, Camilo, Isaura e Antonino, a linguagem da ternura inaugura outra forma de viver, onde o sofrimento encontre palavras, o isolamento se converta em vínculo e o desamparo, em pertencimento. Aos poucos, cada personagem encontra um lugar possível para existir.
Em tempos de relações apressadas e marcadas pela violência, o filme celebra a delicadeza, o tempo da escuta e a construção dos laços. Uma travessia pelo desamparo, pela rigidez moral e pelo silêncio imposto. A família ultrapassa o destino biológico, e é no encontro com o outro que uma nova família pode ser gestada.
“Dentro dele era um sem-fim. O pouco que tinha lhe servia de felicidade. Cada impedimento era um pequeno atraso, nunca uma desistência.”
Bom filme!