31/07/2020
Retorno às aulas na pandemia: orientações básicas para cada faixa etária
Notícias Médicas
Dra. Sabrine Teixeira Grünewald, MSc
27 de julho de 2020
A American Academy of Pediatrics (AAP) publicou em seu website um guia com considerações sobre o retorno às aulas diante do cenário da pandemia de covid-19.
O objetivo do documento é "dar suporte à educação, saúde pública, lideranças locais e pediatras que colaboram com escolas, na criação de políticas para retorno às aulas que garantam a saúde global de crianças, adolescentes, membros da equipe e comunidades, e que sejam baseadas nas evidências disponíveis".
Os autores destacaram que o ambiente da escola vai muito além das funções de ensino acadêmico. Nele, também existem oportunidades para o desenvolvimento de habilidades emocionais e sociais, e é um ambiente de segurança, de nutrição confiável, de prática de atividades físicas, dentre outras. A escola tem um importante papel social e o retorno às aulas é desejado e ansiado, mas é necessário que ocorra com segurança.
A AAP defende que todas as considerações políticas devem começar com o objetivo de ter os estudantes fisicamente presentes na escola, visto que a importância do aprendizado presencial está bem documentada e que já existem evidências do impacto negativo do fechamento das escolas.
Por exemplo, o isolamento social torna difícil que as escolas identifiquem e abordem deficiências de aprendizado, assim como situações como abuso sexual de crianças e adolescentes, uso de dr**as ilícitas, depressão e ideação suicida.
Além disso, é preciso considerar que o SARS-CoV-2 (acrônimo do inglês, Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2) parece se comportar de forma diferente em crianças e adolescentes, e que, embora ainda existam muitas dúvidas sobre essas questões, essa população tem menos probabilidade de ser sintomática ou de apresentar doença grave.
Recomendações para cada faixa etária
Segundo os especialistas da AAP, para crianças em idade pré-escolar, o impacto do distanciamento social provavelmente seria pequeno devido às dificuldades em implementá-lo. Assim, o foco deveria ser em outras estratégias, como higiene das mãos, educação da equipe e familiares, utilização de espaços externos sempre que possível e organização das turmas de crianças em coortes. Os adultos que frequentam a escola devem praticar o distanciamento físico e utilizar cobertura facial, mas essas medidas não devem ser aplicadas às crianças em função da dificuldade de adesão.
Já para crianças no ensino fundamental, o uso de máscaras pode ser considerado quando os potenciais danos (por exemplo, o aumento da frequência do ato de levar a mão ao rosto) superarem os riscos. A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) também publicou uma nota sobre uso de máscaras em crianças e adolescentes que pode servir como guia para pais e profissionais.
Nas salas de aula, as mesas individuais devem ser posicionadas com no mínimo um metro de distância. Entretanto, os especialistas da AAP alertaram que, caso essa medida leve à necessidade de redução do tempo que cada criança está presente na escola, os danos podem superar os potenciais benefícios. De forma semelhante, também não há benefício em tentar reduzir a interação entre os estudantes.
Por fim, para as crianças cursando os últimos anos do ensino fundamental e para aquelas cursando o ensino médio, o distanciamento físico provavelmente seria mais efetivo, por ser mais fácil que as medidas sejam implementadas com sucesso. Recomenda-se que os estudantes e professores utilizem máscaras, que as mesas sejam afastadas a pelo menos um metro de distância, se possível, e que a aula de educação física seja realizada em espaços abertos.
Além disso, é importante evitar o contato entre estudantes de diferentes classes e minimizar a rotação de professores, o que seria possível com a reorganização das grades de disciplinas e horários.
Além da sala de aula
O guia da AAP também destaca que as medidas de prevenção não devem ser restritas às salas de aula. É preciso considerar o tempo que as crianças e adolescentes passam no transporte, no refeitório, nos corredores, no recreio nas áreas de lazer e praticando esportes.
Por exemplo, sugere-se que, sempre que possível, os estudantes evitem o transporte público, que os ônibus escolares tenham assentos marcados para promover o distanciamento e que um rastreamento dos sintomas seja feito pelo motorista ou monitor antes do embarque. Essas estratégias, entretanto, são de difícil execução, e podem não ser aplicáveis em países que, como o Brasil, não possuem um sistema de transporte escolar na maioria de seus municípios.
E, para a hora das refeições, no intervalo das aulas, pode-se considerar manter as crianças e adolescentes dentro da sala de aula ou criar turnos de acesso a refeitórios e cafeterias para cada turma, evitando aglomerações.
Mais uma vez, isso pode ser difícil de ser realizado em escolas com infraestrutura mais precária ou grande número de estudantes e turmas.
O guia também traz recomendações para a limpeza da escola, e comenta os desafios do ensino de crianças com necessidades especiais.
Saúde comportamental e emocional
"As escolas deveriam antecipar e estar preparadas para abordar uma ampla variedade de necessidades de saúde mental de crianças e membros da equipe quando reabrirem", escreveram.
O impacto emocional da pandemia, as preocupações financeiras e relacionadas com emprego, o isolamento social – todos esses aspectos demandam atenção cuidadosa e planejamento.
"As escolas precisam considerar o treinamento dos professores e de outros educadores sobre como falar com as crianças e apoiá-las, durante e após a pandemia de covid-19."
Eles destacam que os estudantes podem ter dificuldade com os aspectos sociais e emocionais ao transacionarem de volta para o contexto escolar, especialmente devido à falta de familiaridade com o ambiente modificado e com a nova experiência escolar. Isso pode ser particularmente problemático para estudantes com quadros pré-existentes de ansiedade, depressão ou mesmo para aqueles que encaram situações de pobreza, insegurança alimentar e desigualdade.
Além disso, os especialistas argumentaram que é importante que as escolas não antecipem ou tentem recuperar o tempo acadêmico perdido por meio da aceleração do currículo, em um momento em que estudantes e educadores possam ter dificuldades até mesmo para retornar ao basal.
O guia da AAP segue em atualização constante à medida que novas evidências se tornam disponíveis.