12/08/2026
“Vocês estão discutindo o problema ou tentando dizer, através dele, algo que ainda não conseguiram falar?”
Uma conversa começa por algo aparentemente pequeno e, em poucos minutos, vocês já estão discutindo coisas que aconteceram há meses — ou há anos.
Um sente que nunca é ouvido.
O outro sente que tudo o que faz é criticado.
Um insiste para que o outro fale. O outro se fecha.
Quanto mais um procura uma resposta, mais o outro se distancia.
E, depois de tantas discussões, pode surgir a sensação de que vocês já não sabem exatamente o que estão tentando resolver.
Na clínica psicanalítica de casal, o conflito não é compreendido apenas pelo conteúdo da discussão. Interessa também aquilo que se repete na relação: os lugares que cada um ocupa, as expectativas que são depositadas no outro e os sentimentos que, muitas vezes sem perceber, um acaba despertando no outro.
É possível que vocês estejam discutindo sobre dinheiro, filhos, s**o, família, ciúmes ou divisão das tarefas — mas que, por baixo de tudo isso, exista uma experiência muito mais difícil de nomear: “eu não me sinto importante para você”, “eu não consigo confiar em você”, “tenho medo de ser abandonado”, “sinto que nunca sou suficiente”.
É nesse ponto que a contribuição de Bion se torna especialmente interessante. Nem toda experiência emocional consegue ser imediatamente pensada e transformada em palavras. Algumas são vividas primeiro como angústia, irritação, silêncio ou necessidade de atacar e se defender. No vínculo, aquilo que não pôde ser pensado pode acabar sendo atuado.
Por isso, na terapia de casal, não se trata simplesmente de descobrir quem está certo.
Trata-se de compreender o que acontece entre vocês quando algo não pode mais ser pensado sozinho.
Porque, às vezes, o casal não está apenas brigando pelo que aconteceu.
Está tentando, através da briga, comunicar algo que ainda não conseguiu dizer.
E talvez seja justamente isso que precise ser escutado.
A abordagem da identif**ação projetiva é uma das referências psicanalíticas utilizadas para compreender esses movimentos no vínculo conjugal, inclusive a forma como sentimentos e posições podem circular entre os parceiros.