12/07/2026
Desde que voltei da Índia, sigo tentando compreender o que Varanasi despertou em mim.
Talvez porque, muito antes de conhecê-la, quando eu ainda era adolescente, uma das primeiras histórias que li sobre a Índia falava das cremações às margens de um rio sagrado. Um rio onde as pessoas buscavam purificação, embora suas águas fossem poluídas. Aquela aparente contradição acendeu em mim uma curiosidade imensa. Parecia um lugar distante demais para um dia se tornar real.
E, no entanto, Varanasi virou meu mundo do avesso.
O trânsito incessante. O calor intenso. As buzinas sem intervalo. Motos, carros, riquixás, bicicletas, pessoas, cachorros e vacas compartilhando o mesmo espaço, como se todos soubessem exatamente onde pertenciam.
No início, eu via apenas o caos.
Até perceber que não era caos. Era uma ordem que não obedecia à minha ideia de ordem. E, quando essa compreensão me atravessou, um silêncio profundo se instalou sobre tudo o que eu via.
Atravessei a multidão guiada pelas buzinas. E, quando meus olhos encontraram Gangā pela primeira vez, compreendi que havia chegado a um lugar que eu já conhecia sem nunca ter estado ali.
Era como voltar para o colo da mãe depois de muito tempo longe. Tudo parecia diferente. Nada acontecia do meu jeito. Ainda assim, havia algo profundamente familiar, como uma lembrança antiga de amor e acolhimento que sempre esteve em mim.
Foi em Varanasi que tudo o que eu tinha aprendido no Yoga e no Vedanta deixou de ser ensinamento e se tornou experiência: o silêncio sustenta todas as coisas.
Foi quando todas as buzinas e a ilusão de caos deram lugar à oração.
O motor dos barcos, o estalar da madeira nas cremações, o fluxo constante das àguas de Gangā, as crianças mergulhando e brincando em suas águas, os sinos dos templos... Tudo parecia nascer da mesma fonte.
Foi ali que senti, pela primeira vez, a presença viva daquelas águas sagradas e das incontáveis orações que elas carregam.
Há experiências que não ficam apenas na memória porque passam a fazer parte de quem somos.
Varanasi é uma delas.