28/08/2026
Em um encontro, minha analista me pediu que repetisse em voz alta uma frase sobre mim.
Era uma afirmação simples, mas havia nela algo que eu ainda não conseguia reconhecer inteiramente como meu. Talvez porque certas verdades, antes de serem ditas, precisem atravessar um longo caminho dentro de nós.
Eu a repeti.
Ela sorriu.
Por um instante, estranhei o sorriso e sorri de volta.
Só depois compreendi que talvez não fosse ela quem precisasse ouvir novamente.
Era eu.
Há coisas que permanecem adormecidas enquanto são apenas pensadas. Quando encontram a própria voz, porém, ganham corpo. Tornam-se mais próximas. Como se, ao serem pronunciadas por nós, deixassem de pertencer ao campo das possibilidades e começassem, enfim, a fazer parte da nossa história.
Talvez seja também essa uma das delicadezas da análise: alguém nos escuta dizer aquilo que ainda não aprendemos a escutar em nós mesmos.
E, às vezes, o sorriso do outro funciona como um pequeno espelho: devolve-nos aquilo que acabamos de revelar sem perceber.
Há palavras que precisam ser repetidas não para convencer o outro, mas para que o próprio sujeito possa se ouvir dizendo: isso também sou eu.
E talvez seja preciso aprender a não passar depressa demais por esses momentos.
Quando a própria voz anuncia algo que por tanto tempo não pôde ser reconhecido, há ali uma pequena celebração da vida psíquica.
É preciso ficar um pouco.
Escutar e reagir.
Feliz dia daqueles que se interessam por alma.