11/08/2021
https://www.institutokalima.com.br/transmissao/o-gato-preto-o-medo-e-o-infamiliar-um-des-encontro-entre-edgar-allan-poe-e-freud
Mas, me diga, do que você tem mais medo? O que te assusta mais no escuro da noite? Talvez essas perguntas possam te deixar meio incomodada, certo? Porém, pode ser que o que incomoda não seja a pergunta, mas a resposta. Então se a questão não está na questão, então fazê-la para o própria psicanálise. O que é a angústia? O que é o medo? Freud foi o primeiro a fazer a angústia entrar no léxico da psicopatologia. No século XIX não se desconhecia o medo , claro, como signo, mas foi Freud quem deu à angústia e ao medo, um estatuto novo, ao descrever em 1895 a neurose de angústia. Ele desenvolve pelo menos duas teorias da angústia, assim como um recorte desse abundante vocabulário do medo. A angústia tem no corpo a página em branco que usará para se (ins)escrever, como aparece na etimologia (do latim angustia que designa tanto um mal-estar psíquico, uma sensação de aperto na região epigástrica, de bolo na garganta, com palpitações, palidez, impressão de que as pernas vacilam, dificuldade para respirar, ou seja, a angústia afeta e o medo afetam todo o corpo. Se para Freud, a angústia é o "afeto principal", "fundamental", "aquele a cuja volta tudo se ordena", para os psicanalistas a angústia não é um reliquat, um ressurgimento de nossa animalidade, uma reação de nosso ser biológico que anseia em de preservar-se. Que é exatamente o que o termo fobia (do latim phobos: a fuga) dá a entender. Como consequência de sua alienação na linguagem, o homem faz de suas necessidades naturais, desejos; nos lembra Lacan. Talvez isso explique a escolha feita pelos tradutores franceses de Freud, de traduzir Angst por angoisse (angústia), uma vez que, em alemão, Angst recobre também o medo. E se a Angústia é um dos - senão o principal - agente motor da psicanálise, o Medo é o do escritor norte-americano Edgar Allan Poe, que acreditava que nada seria mais romântico que um poema sobre a morte. Uma dedicação póstuma - uma exaltação do medo. Considerado o criador do conto policial e um dos mais talentosos escritores do terror e do horror, seus poemas mergulham na tristeza e nas narrativas em temas de morte, que refletiam seus tormentos. Nada mais interessante, então, do que colocar esses dois autores (mais vivos que nunca, eu diria) para conversar! Então entre, fique a vontade, seja muito bem-vindo(a) ao nosso (des)encontro, mas lembre-se: cuidado, pois vamos olhar para aquilo que pode ser tão íntimo, mas tão íntimo em nós mesmos que até (a)parece (In)familiar… Como escreveu Poe no seu célebre poema “O Corvo”: “(...)E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais, E a minhalma dessa sombra que no chão há mais e mais, Libertar-se-á... nunca mais!” Você tem coragem?