Sylvio Do Amaral Schreiner

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Sylvio Do Amaral Schreiner Sylvio do Amaral Shreiner é psicanalista em Londrina. Atende em consultório e de modo online. Entr

A frase do psicanalista inglês Bion pode causar estranhamento. Afinal, como um analista poderia trabalhar sem se lembrar...
17/09/2026

A frase do psicanalista inglês Bion pode causar estranhamento. Afinal, como um analista poderia trabalhar sem se lembrar do paciente, sem desejar que ele melhore e sem procurar compreendê-lo?

Bion não propõe uma espécie de esquecimento literal. Ele alerta para o risco de escutarmos apenas aquilo que já esperamos encontrar. A memória pode aprisionar o paciente no que ele disse nas sessões anteriores. O desejo de curá-lo pode fazer com que o analista apresse processos que ainda precisam amadurecer. E a compreensão, quando chega cedo demais, pode transformar uma experiência viva em uma explicação pronta.

Escutar “sem memória, sem desejo” é tentar encontrar o paciente como se fosse a primeira vez. Permitir que ele seja diferente do que foi ontem. Não exigir que confirme nossas teorias, hipóteses ou expectativas. Há momentos em que o analista precisa suportar não saber quem está diante dele e talvez seja justamente nesse intervalo que algo verdadeiro possa aparecer.
A boa escuta não é vazia de conhecimento, mas livre o bastante para não obrigar a realidade a caber naquilo que já conhecemos. Como quem entra num quarto escuro e, em vez de acender imediatamente a luz, espera que os olhos se acostumem.

Na análise, compreender nem sempre é o primeiro passo. Às vezes, antes de compreender, é preciso permanecer.

O suicídio não começa necessariamente no instante em que alguém atenta contra a própria vida. Quase sempre há uma histór...
03/09/2026

O suicídio não começa necessariamente no instante em que alguém atenta contra a própria vida. Quase sempre há uma história anterior, embora ela possa ter durado anos ou apenas algumas semanas. Algo vai se alterando na relação da pessoa consigo mesma e com o mundo. Ela se afasta, perde o interesse pelo que antes importava, deixa mensagens sem resposta. Às vezes, porém, nada disso é visível. Continua trabalhando, cuida dos filhos, conversa e até ri. A vida conserva sua aparência habitual enquanto, em algum lugar pouco acessível, vai deixando de fazer sentido.

Também existem suicídios que acontecem sem indícios reconhecíveis, às vezes num momento de intenso desespero. É importante dizer isso para que familiares e amigos não fiquem condenados à pergunta sobre o que deveriam ter percebido. Depois de uma tragédia, o passado parece se reorganizar e cada gesto adquire um significado que não possuía quando aconteceu. Quem permanece tende a reler conversas, silêncios e despedidas procurando o instante em que poderia ter feito alguma coisa. Nem sempre esse instante existiu de maneira tão clara.

Ainda assim, o suicídio não vem do nada. Há uma dor anterior que, por alguma razão, não encontrou palavras, escuta ou um lugar dentro da própria pessoa. Certos sofrimentos não chegam a se transformar em pensamento. São vividos como aperto, insônia, agitação, vazio, uma espécie de peso espalhado pelo corpo. A pessoa sabe que algo está intolerável, mas não consegue contar o que acontece nem imaginar como aquilo poderia mudar. Falta uma linguagem para a experiência e, sem ela, a dor permanece bruta.

Uma das contribuições mais importantes do Setembro Amarelo é lembrar que o suicídio não diz respeito somente ao ato final. Diz respeito também às pequenas rupturas que o antecedem, à vergonha de pedir ajuda, à sensação de ser um peso e às dores que sentimos. Quando alguém encontra uma presença capaz de reconhecer seu sofrimento sem julgá-lo ou diminuí-lo, algo começa a mudar. A dor ainda existe, mas já não ocupa tudo. Entre ela e o gesto definitivo, abre-se algum espaço. E, às vezes, é nesse pequeno espaço que a vida consegue recomeçar.

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Setembro Amarelo - 🎗💛

“Se não se parece com a vida, não é psicanálise.”Essa ideia, atribuída a Bion, serve como advertência contra uma psicaná...
30/08/2026

“Se não se parece com a vida, não é psicanálise.”
Essa ideia, atribuída a Bion, serve como advertência contra uma psicanálise que se fecha em sua própria linguagem. Quando a teoria se torna excessivamente abstrata, cheia de termos que apenas os iniciados compreendem, corre o risco de já não tocar aquilo que deveria ajudá-la a pensar: a experiência humana.
A vida não acontece em conceitos. Acontece na insônia de quem teme o dia seguinte, no ressentimento que permanece depois de uma conversa, no amor que não encontra resposta, no ciúme, na vergonha, na dificuldade de envelhecer, na alegria que assusta e no silêncio entre duas pessoas que já não sabem como se alcançar.

A teoria é necessária, mas não deve ocupar o lugar da vida. Ela serve para ampliar a escuta, não para empobrecê-la; para nos aproximar do sofrimento, não para mantê-lo a uma distância confortável. Uma interpretação pode ser tecnicamente elegante e, ainda assim, não dizer nada de verdadeiro sobre quem está diante de nós.

Talvez por isso Bion recorresse tanto à literatura. Os grandes escritores não precisam explicar o ser humano antes de mostrá-lo. Shakespeare, Dostoiévski, Proust ou Virginia Woolf nos fazem experimentar por dentro aquilo que os conceitos tentam nomear. A literatura conhece o medo, a ambição, a culpa, o desejo e a perda porque lhes dá corpo e voz.
A psicanálise permanece viva quando sua linguagem ainda consegue reconhecer uma pessoa real. Quando aquilo que se pensa no consultório pode ser encontrado numa família, numa paixão, num luto, numa amizade ou numa página de romance.
Se uma ideia sobre a mente não nos devolve à complexidade da vida, talvez seja apenas uma ideia.

Quando a análise parece voltar sempre ao mesmo assunto.Às vezes, uma pessoa passa muito tempo falando da mesma relação, ...
28/08/2026

Quando a análise parece voltar sempre ao mesmo assunto.

Às vezes, uma pessoa passa muito tempo falando da mesma relação, da mesma perda ou de uma angústia que não cede. Isso pode causar impaciência: “Por que continuo repetindo algo que já entendi?”
Compreender uma situação não significa necessariamente tê-la elaborado. Há experiências que precisam ser contadas muitas vezes porque ainda não encontraram um lugar dentro de nós. Embora a história pareça igual, algum detalhe muda: surge uma lembrança, aparece uma raiva antes escondida, uma certeza perde força.

A repetição também pode revelar que a pessoa está presa a uma maneira conhecida de sofrer. Ela retorna ao mesmo ponto não por falta de vontade, mas porque ainda não consegue imaginar outra saída. Em alguns casos, falar sempre do mesmo assunto pode até funcionar como proteção contra temas mais dolorosos que começam a se aproximar.

Cabe à dupla — paciente e analista — perceber se essa repetição está produzindo pequenos deslocamentos ou se o trabalho ficou paralisado.

Na análise, avançar nem sempre é deixar um assunto para trás. Muitas vezes, é voltar a ele até conseguir escutá-lo de outro modo.

Arte: André Dahmer

Basta observar uma discussão comum para perceber como isso acontece. Entre o que uma pessoa disse e aquilo que a outra e...
17/08/2026

Basta observar uma discussão comum para perceber como isso acontece. Entre o que uma pessoa disse e aquilo que a outra escutou, às vezes existe uma distância enorme. E esse espaço vazio raramente permanece vazio. Nós o preenchemos com desconfianças, medos, ressentimentos e histórias antigas.

Escutar dá mais trabalho do que parece. Enquanto o outro ainda fala, já estamos pensando no que responder. Uma palavra nos incomoda, um tom de voz parece arrogante, uma expressão do rosto soa como desprezo. A partir desse detalhe, montamos uma história inteira e quase todo o restante se perde. Em vez de tentar compreender o que está sendo dito, procuramos uma acusação escondida, uma falha no argumento ou alguma confirmação daquilo que já pensávamos sobre aquela pessoa.

É por isso que duas pessoas podem sair da mesma conversa contando episódios tão diferentes. Uma acredita que fez um comentário banal; a outra se sentiu diminuída. Uma tentou explicar por que precisava ficar sozinha; a outra entendeu que estava sendo rejeitada. Nenhuma delas precisa estar mentindo. Cada uma ouviu a conversa atravessada pela própria história.

Escutar melhor exige tempo. Às vezes, uma pergunta simples muda toda a conversa: “Foi isso mesmo que você quis dizer?” Em outras ocasiões, convém esperar a raiva diminuir antes de responder. Não porque a raiva seja ilegítima, mas porque, no calor do momento, ela costuma falar demais.

Isso também não significa aceitar ofensas. Existem palavras deliberadamente cruéis, desprezos inequívocos e situações que exigem firmeza. Mas uma resposta firme não precisa nascer de uma explosão. Quanto melhor compreendemos o que aconteceu, mais precisa pode ser nossa posição.
Ouvir por inteiro não garante concordância. Garante apenas, e isso já é muito, que tentaremos responder ao que o outro disse e não somente ao que nossas feridas escutaram.

Mais importante que a presença concreta do pai (afinal são muitas as crianças que não tem pai na certidão de nascimento)...
09/08/2026

Mais importante que a presença concreta do pai (afinal são muitas as crianças que não tem pai na certidão de nascimento) é a existência da função paterna: alguém que ofereça proteção, limites, reconhecimento e ajude a criança a se desenvolver e explorar o mundo. Essa função pode ser exercida pela mãe, por avós, padrastos, tios ou outras pessoas próximas. Quando o próprio pai consegue ocupar esse lugar com presença, afeto e responsabilidade, há uma coincidência muito favorável: a figura paterna e sua função se encontram na mesma pessoa.

O que todas as dependências compartilham é o fundamento: uma dificuldade de suportar a dor psíquica, que leva a pessoa a...
31/07/2026

O que todas as dependências compartilham é o fundamento: uma dificuldade de suportar a dor psíquica, que leva a pessoa a substituir os vínculos humanos reais por um objeto sempre disponível e previsível. Onde não se consegue pensar e sonhar o sofrimento, só há ação.

Mas o vício nas bets tem particularidades. Primeiro, ele não anestesia, mas excita. O dependente químico busca o torpor; o apostador busca continuar jogando, numa repetição que o faz sentir triunfo sobre a realidade.

Segundo, há um pensamento mágico próprio: a fantasia onipotente de que o acaso pode ser domado, de que a próxima aposta compensará todas as perdas anteriores, é o que faz de cada derrota um combustível.

Terceiro, a aposta digital aboliu o intervalo entre impulso e ato. Chega pelo celular, na cama, no trabalho, desenhada para banir justamente o espaço de espera em que a mente pensa antes de agir.
E, por fim, ela se disfarça de paixão legítima: o apostador não parece um dependente, parece um torcedor. A dependência se esconde dentro do amor ao futebol, o que retarda o reconhecimento do problema.

No fundo, o método difere, uma anestesia, a outra eletrifica, mas o empobrecimento da vida psíquica é o mesmo.

Estarei no próximo dia 12 na Academia Letras Londrina para falar sobre Felicidade. O evento é aberto ao público e todos ...
07/07/2026

Estarei no próximo dia 12 na Academia Letras Londrina para falar sobre Felicidade. O evento é aberto ao público e todos estão convidados!

Há algum tempo, o tenista Carlos Alcaraz disse algo raro em um mundo que transformou desempenho em religião: “Houve mome...
21/05/2026

Há algum tempo, o tenista Carlos Alcaraz disse algo raro em um mundo que transformou desempenho em religião: “Houve momentos em que não parei para descansar, e isso terminou mal. Acho que dar atenção à saúde mental é tão ou mais importante do que cuidar do corpo. Algumas pessoas ficam obcecadas com a estética corporal, mas, para mim, isso vale tanto quanto se preocupar com a cabeça”. A fala chama atenção justamente porque vem de alguém jovem, vencedor, admirado e aparentemente no auge da vitalidade. Ainda assim, ele reconhece algo que muitos tentam negar: uma vida externamente bem-sucedida pode estar internamente adoecida.

A mente vai ficando relegada a um segundo plano, como se fosse algo abstrato demais para merecer cuidado. Uma dor muscular costuma receber mais atenção do que uma tristeza persistente. Uma febre mobiliza repouso imediato; já uma angústia contínua costuma ser ignorada até se transformar em exaustão, irritabilidade ou adoecimento mais grave.
O sofrimento psíquico raramente surge de forma abrupta. Ele vai se instalando lentamente, quase silenciosamente. Pequenas concessões feitas contra si mesmo. Um cansaço constante que se normaliza. Uma vida que vai perdendo sentido, mas continua funcionando. Uma pessoa que sorri, produz, entrega resultados, comparece aos compromissos e, ao mesmo tempo, sente que desapareceu de si própria.
Talvez uma das formas mais perigosas de adoecimento seja justamente essa de continuar funcionando enquanto se perde o contato consigo mesmo. Há pessoas que só percebem o quanto estavam adoecidas quando o corpo finalmente entra em colapso, quando o sono desaparece, quando a ansiedade toma conta ou quando já não conseguem mais experimentar prazer em nada.

A vida baseada apenas em estímulos sensoriais e superficialidades produz uma espécie de desertificação interna. Tudo precisa ser imediato, intenso e visível, mas aquilo que realmente sustenta uma vida humana (vínculos, capacidade de pensar, de sonhar, de elaborar perdas, de suportar frustrações e de sentir genuinamente) exige tempo e profundidade. E isso não rende boas fotos nem vídeos.

Hoje iniciamos algo que, ao mesmo tempo, parece novo e muito antigo: Os Seminários Psicanalíticos de Londrina. Do qual t...
22/03/2026

Hoje iniciamos algo que, ao mesmo tempo, parece novo e muito antigo: Os Seminários Psicanalíticos de Londrina. Do qual tive o prazer e privilégio de ser coordenador da Contextualização Histórica da Psicanálise.

O primeiro encontro deste ciclo de seminários abriu espaço para revisitarmos a história da psicanálise — não como uma sequência de datas e nomes, mas como um campo vivo, nascido da escuta do sofrimento humano e da tentativa de compreendê-lo em sua profundidade. Voltar a esse início tem algo de fundamental: é como tocar a nascente de um rio que ainda segue correndo dentro de cada prática clínica.

O que se viu hoje não foi apenas uma exposição teórica, mas um movimento. Um grupo disposto a pensar, a questionar e, talvez, a se deixar afetar. A história da psicanálise, nesse sentido, não ficou no passado — ela se apresentou como algo que ainda nos interroga e nos movimenta.

Este seminário marca o começo de um percurso que seguirá pelos conceitos fundamentais da psicanálise. Conceitos que, longe de serem apenas definições, são ferramentas vivas, que se transformam à medida que entram em contato com cada um dos participantes.
Há algo de promissor quando um trabalho começa assim: não pela certeza, mas pela abertura.

Endereço

Rua Pará, 1531, Sala 401
Londrina, PR
86020-400

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