Sylvio Do Amaral Schreiner

Sylvio Do Amaral Schreiner Sylvio do Amaral Shreiner é psicanalista em Londrina. Atende em consultório e de modo online. Entr

O que todas as dependências compartilham é o fundamento: uma dificuldade de suportar a dor psíquica, que leva a pessoa a...
31/07/2026

O que todas as dependências compartilham é o fundamento: uma dificuldade de suportar a dor psíquica, que leva a pessoa a substituir os vínculos humanos reais por um objeto sempre disponível e previsível. Onde não se consegue pensar e sonhar o sofrimento, só há ação.

Mas o vício nas bets tem particularidades. Primeiro, ele não anestesia, mas excita. O dependente químico busca o torpor; o apostador busca continuar jogando, numa repetição que o faz sentir triunfo sobre a realidade.

Segundo, há um pensamento mágico próprio: a fantasia onipotente de que o acaso pode ser domado, de que a próxima aposta compensará todas as perdas anteriores, é o que faz de cada derrota um combustível.

Terceiro, a aposta digital aboliu o intervalo entre impulso e ato. Chega pelo celular, na cama, no trabalho, desenhada para banir justamente o espaço de espera em que a mente pensa antes de agir.
E, por fim, ela se disfarça de paixão legítima: o apostador não parece um dependente, parece um torcedor. A dependência se esconde dentro do amor ao futebol, o que retarda o reconhecimento do problema.

No fundo, o método difere, uma anestesia, a outra eletrifica, mas o empobrecimento da vida psíquica é o mesmo.

Estarei no próximo dia 12 na Academia Letras Londrina para falar sobre Felicidade. O evento é aberto ao público e todos ...
07/07/2026

Estarei no próximo dia 12 na Academia Letras Londrina para falar sobre Felicidade. O evento é aberto ao público e todos estão convidados!

Há algum tempo, o tenista Carlos Alcaraz disse algo raro em um mundo que transformou desempenho em religião: “Houve mome...
21/05/2026

Há algum tempo, o tenista Carlos Alcaraz disse algo raro em um mundo que transformou desempenho em religião: “Houve momentos em que não parei para descansar, e isso terminou mal. Acho que dar atenção à saúde mental é tão ou mais importante do que cuidar do corpo. Algumas pessoas ficam obcecadas com a estética corporal, mas, para mim, isso vale tanto quanto se preocupar com a cabeça”. A fala chama atenção justamente porque vem de alguém jovem, vencedor, admirado e aparentemente no auge da vitalidade. Ainda assim, ele reconhece algo que muitos tentam negar: uma vida externamente bem-sucedida pode estar internamente adoecida.

A mente vai ficando relegada a um segundo plano, como se fosse algo abstrato demais para merecer cuidado. Uma dor muscular costuma receber mais atenção do que uma tristeza persistente. Uma febre mobiliza repouso imediato; já uma angústia contínua costuma ser ignorada até se transformar em exaustão, irritabilidade ou adoecimento mais grave.
O sofrimento psíquico raramente surge de forma abrupta. Ele vai se instalando lentamente, quase silenciosamente. Pequenas concessões feitas contra si mesmo. Um cansaço constante que se normaliza. Uma vida que vai perdendo sentido, mas continua funcionando. Uma pessoa que sorri, produz, entrega resultados, comparece aos compromissos e, ao mesmo tempo, sente que desapareceu de si própria.
Talvez uma das formas mais perigosas de adoecimento seja justamente essa de continuar funcionando enquanto se perde o contato consigo mesmo. Há pessoas que só percebem o quanto estavam adoecidas quando o corpo finalmente entra em colapso, quando o sono desaparece, quando a ansiedade toma conta ou quando já não conseguem mais experimentar prazer em nada.

A vida baseada apenas em estímulos sensoriais e superficialidades produz uma espécie de desertificação interna. Tudo precisa ser imediato, intenso e visível, mas aquilo que realmente sustenta uma vida humana (vínculos, capacidade de pensar, de sonhar, de elaborar perdas, de suportar frustrações e de sentir genuinamente) exige tempo e profundidade. E isso não rende boas fotos nem vídeos.

Hoje iniciamos algo que, ao mesmo tempo, parece novo e muito antigo: Os Seminários Psicanalíticos de Londrina. Do qual t...
22/03/2026

Hoje iniciamos algo que, ao mesmo tempo, parece novo e muito antigo: Os Seminários Psicanalíticos de Londrina. Do qual tive o prazer e privilégio de ser coordenador da Contextualização Histórica da Psicanálise.

O primeiro encontro deste ciclo de seminários abriu espaço para revisitarmos a história da psicanálise — não como uma sequência de datas e nomes, mas como um campo vivo, nascido da escuta do sofrimento humano e da tentativa de compreendê-lo em sua profundidade. Voltar a esse início tem algo de fundamental: é como tocar a nascente de um rio que ainda segue correndo dentro de cada prática clínica.

O que se viu hoje não foi apenas uma exposição teórica, mas um movimento. Um grupo disposto a pensar, a questionar e, talvez, a se deixar afetar. A história da psicanálise, nesse sentido, não ficou no passado — ela se apresentou como algo que ainda nos interroga e nos movimenta.

Este seminário marca o começo de um percurso que seguirá pelos conceitos fundamentais da psicanálise. Conceitos que, longe de serem apenas definições, são ferramentas vivas, que se transformam à medida que entram em contato com cada um dos participantes.
Há algo de promissor quando um trabalho começa assim: não pela certeza, mas pela abertura.

Muitas vezes surge a fantasia de que a mente é um território que pode se desorganizar, trair o sujeito ou levá-lo a atos...
19/01/2026

Muitas vezes surge a fantasia de que a mente é um território que pode se desorganizar, trair o sujeito ou levá-lo a atos que ele jamais desejaria cometer. Assim, o pensamento intrusivo passa a ser vivido como sinal de falha moral, mau presságio ou ameaça de perda de controle.

A psicanálise propõe um olhar menos persecutório e mais humano. A mente não é um espaço higienizado, feito apenas de boas intenções, delicadeza e altruísmo. Ela é vasta, contraditória, atravessada por impulsos amorosos e destrutivos, por desejos de cuidado e por fantasias violentas, por ternura e por crueldade. Carregamos, em potência, muitas possibilidades de ser. Ter uma ideia não equivale a querer realizá-la; imaginar não é o mesmo que agir.

O pensamento intrusivo revela, sobretudo, a liberdade e o desamparo da imaginação. O aparelho psíquico produz imagens, associações e cenas sem pedir autorização à moral, à biografia ou ao currículo ético do sujeito. Ele trabalha com restos de experiências, fragmentos de lembranças, impulsos primitivos, curiosidades infantis, medos antigos. Nesse sentido, essas ideias não dizem quem somos, mas do que nossa mente é capaz de produzir.

Ninguém se livra definitivamente desse tipo de pensamento. A promessa de uma mente “limpa” é uma ilusão sedutora, mas impossível. O que pode mudar é a relação que estabelecemos com o que aparece dentro de nós. Quando o sujeito aprende a se conhecer, percebe que não é a soma de tudo o que imagina, mas o resultado das escolhas que faz, dos limites que constrói, dos valores que sustenta e dos vínculos que é capaz de cuidar.

Reconhecer a existência das próprias partes primitivas não nos torna mais perigosos; ao contrário, pode nos tornar mais responsáveis e menos ingênuos diante de nós mesmos. O verdadeiro risco não está em ter pensamentos estranhos, mas em acreditar que somos obrigados a obedecê-los ou em viver aterrorizados por eles.


A mente, sem espaço, perde a capacidade de sonhar, simbolizar e criar. Crescem, então, os sintomas de esvaziamento: ansi...
21/11/2025

A mente, sem espaço, perde a capacidade de sonhar, simbolizar e criar. Crescem, então, os sintomas de esvaziamento: ansiedade crônica, sensação de vazio, desamparo, intolerância e solidão. A psicanálise não oferece receitas nem promessas de felicidade, mas propõe algo radicalmente diferente. O convite para pensar, sentir e dar sentido à própria experiência.
Freud dizia que o objetivo do trabalho analítico é “onde isso estava, o eu deve advir”, ou seja, ampliar o campo da consciência, integrar o que era desconhecido. Esse movimento é sempre transformador, ainda que doloroso, porque implica atravessar as próprias contradições, reconhecer os impulsos, aceitar as faltas. O trabalho analítico é um exercício de liberdade. Conhecer-se não para eliminar o sofrimento, mas para compreendê-lo e transformá-lo em algo que possa ser vivido.

No tempo presente, em que o humano se vê tentado a delegar à máquina o que antes era espaço de pensamento, a psicanálise resiste como um exercício de humanidade. Ela não se opõe à tecnologia, mas recorda que nenhuma inovação substituirá o trabalho de se escutar e se conhecer. O inconsciente não pode ser digitalizado nem traduzido em algoritmos; ele exige presença, relação. Exige um outro que escute, sustente e ajude a construir sentido onde antes havia apenas ruído ou dor.

Por isso, a psicanálise continua sendo subversiva e incômoda. Ela devolve ao sujeito a responsabilidade sobre si, convida-o a ocupar o próprio lugar e a pensar com a própria mente. Num mundo que busca anestesiar o mal-estar, ela o recoloca como parte essencial da vida psíquica. Não como algo a ser eliminado, mas compreendido.

Há algo profundamente triste no sucesso quase hipnótico das séries e filmes sobre criminosos e serial killers. Não se tr...
18/11/2025

Há algo profundamente triste no sucesso quase hipnótico das séries e filmes sobre criminosos e serial killers. Não se trata apenas de entretenimento. É como se essas narrativas tocassem regiões subterrâneas da mente, onde fantasia e moralidade se encontram em conflito. A figura do criminoso impune, do assassino meticuloso ou do golpista que dribla todas as consequências captura o imaginário justamente por evocar aquilo que, em cada um de nós, permanece recalcado: o desejo de transgredir limites, desafiar a lei e escapar das responsabilidades que moldam a vida em sociedade.

A psicanálise nos ensina que a civilização é construída sobre renúncias. Cada sujeito, ao longo de seu desenvolvimento, precisa abrir mão de impulsos onipotentes que seriam destrutivos se vividos sem freio. Freud chamou isso de preço da vida em sociedade. Renunciamos à onipotência para podermos existir junto ao outro, o que nos permite criar laços, trabalhar, amar e produzir. No entanto, essas renúncias deixam restos, que vivem no inconsciente como fantasias de poder absoluto. As séries de criminosos tocam precisamente esses restos.

Quando o criminoso aparece envolto em glamour, quando a impunidade é apresentada como sinônimo de liberdade, cria-se uma distorção na percepção de valores. É como se o espectador fosse convidado a confundir destrutividade com poder, como se matar, manipular ou burlar representassem uma forma de grandeza.

O verdadeiro poder não está em destruir, mas em criar. O poder que sustenta o tecido social e possibilita a vida não nasce da transgressão impune, mas da capacidade de transformar impulsos em vínculos, palavras, obras e relações que ampliam o mundo interno e externo. A onipotência perversa, tão celebrada nas telas, seduz justamente porque evita o encontro com a realidade psíquica de que viver implica limites. E limites são dolorosos. Só que quem tenta viver sem limites, transgredindo, acaba sofrendo também e até mais, porque se despedaça por dentro. Não há como transgredir sem tem que se fragmentar internamente.

IA: ESTAMOS ABRINDO MÃO DE PENSAR? 🤖🧠O saber parece ter mudado de lugar. Já não buscamos tanto a experiência direta, a e...
11/11/2025

IA: ESTAMOS ABRINDO MÃO DE PENSAR? 🤖🧠

O saber parece ter mudado de lugar. Já não buscamos tanto a experiência direta, a escuta atenta, a reflexão autêntica — preferimos a resposta rápida, gerada por algum sistema que “sabe tudo”. As inteligências artificiais, cada vez mais sofisticadas, nos oferecem a ilusão de domínio e clareza. Mas talvez estejamos, sem perceber, renunciando à dúvida, à crítica e à sensibilidade. Elementos fundamentais da mente humana.

O perigo é sutil: quando deixamos de pensar por conta própria, passamos a repetir. Quando trocamos a experiência vivida pela confirmação virtual, nos distanciamos da verdade. E, nesse espaço vazio entre o que é sentido e o que é dito, as mentiras se tornam verdades.

Saber não é acumular dados, mas elaborar sentidos. Que conhecer implica suportar o não saber, o erro, a incerteza — e que é justamente aí que nascem a criatividade e a liberdade.

Ninguém pensa no nosso lugar. O pensamento é um ato profundamente humano e, como tal, exige presença, conflito e desejo.

Talvez a pergunta mais urgente de hoje seja: o que ainda nos pertence, quando abrimos mão de pensar?

O PODER DE UMA HISTÓRIA. 📚A leitura é, talvez, uma das experiências humanas mais próximas do que chamamos de intimidade ...
08/11/2025

O PODER DE UMA HISTÓRIA.

📚A leitura é, talvez, uma das experiências humanas mais próximas do que chamamos de intimidade psíquica. Quando abrimos um livro, algo em nós também se abre. Um espaço silencioso e vivo onde as palavras do autor encontram nossas próprias palavras ainda não ditas. A literatura tem esse poder misterioso de atravessar o tempo, as culturas e tocar o que é universalmente humano: nossos desejos, angústias, medos e esperanças. Ela fala, em última instância, daquilo que a psicanálise também procura compreender: o funcionamento da mente, os enigmas do amor, o sofrimento e a possibilidade de transformação.

Freud dizia que os poetas chegaram antes dos psicanalistas ao território da alma humana. De fato, qualquer conceito psicanalítico como recalque, desejo, culpa, narcisismo, amor, perda, pode ser encontrado nas páginas da literatura. Shakespeare, Dostoiévski, Machado de Assis, Clarice Lispector, Kafka, Virginia Woolf e tantos outros revelam, em suas narrativas, o drama psíquico de ser humano, com suas contradições e suas buscas. Ao ler, participamos desses dramas, e eles nos ajudam a pensar e a sentir de modo mais complexo.

Ler é um modo de se conhecer e também de se humanizar. Quando uma história nos toca, é porque ela fala do que somos e do que poderíamos ser. O prazer da leitura está em permitir que a mente se mova, que viaje por territórios psíquicos que antes estavam adormecidos. A literatura nos oferece esse dom raro de transformar o sofrimento em narrativa, o indizível em palavra, e o íntimo em arte. É por isso que, em cada página, encontramos um espelho e uma travessia e saímos diferentes do ponto de partida.

Tirinha:

Hoje estou na capa da  em uma reportagem sobre a redação da , em que o tema deste ano foi um texto meu sobre sonhos e a ...
30/10/2025

Hoje estou na capa da em uma reportagem sobre a redação da , em que o tema deste ano foi um texto meu sobre sonhos e a frustração de perseguir ideias alheios.Tive uma ótima conversa com a jornalista sobre o tema. Você pode conferir a reportagem completa no link em meus stories.

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