17/09/2026
A frase do psicanalista inglês Bion pode causar estranhamento. Afinal, como um analista poderia trabalhar sem se lembrar do paciente, sem desejar que ele melhore e sem procurar compreendê-lo?
Bion não propõe uma espécie de esquecimento literal. Ele alerta para o risco de escutarmos apenas aquilo que já esperamos encontrar. A memória pode aprisionar o paciente no que ele disse nas sessões anteriores. O desejo de curá-lo pode fazer com que o analista apresse processos que ainda precisam amadurecer. E a compreensão, quando chega cedo demais, pode transformar uma experiência viva em uma explicação pronta.
Escutar “sem memória, sem desejo” é tentar encontrar o paciente como se fosse a primeira vez. Permitir que ele seja diferente do que foi ontem. Não exigir que confirme nossas teorias, hipóteses ou expectativas. Há momentos em que o analista precisa suportar não saber quem está diante dele e talvez seja justamente nesse intervalo que algo verdadeiro possa aparecer.
A boa escuta não é vazia de conhecimento, mas livre o bastante para não obrigar a realidade a caber naquilo que já conhecemos. Como quem entra num quarto escuro e, em vez de acender imediatamente a luz, espera que os olhos se acostumem.
Na análise, compreender nem sempre é o primeiro passo. Às vezes, antes de compreender, é preciso permanecer.