Dr. Marco Túlio Franco- Médico Reumatologista

Dr. Marco Túlio Franco- Médico Reumatologista DR MARCO TÚLIO FRANCO CRM 994
REUMATOLOGIA e DOR RQE 204
ATENDIMENTO ADULTOS E CRIANÇAS. INSTITUTO DE ORTOPEDIA MACAPÁ +55 (96) 3242-2666 Cel 99105-9263

SOL FORTE, RAIOS ULTRAVIOLETA, DOENÇAS DE PELE E O LÚPUS ERITEMATOSO SISTÊMICODurante recente viagem aos Andes peruanos,...
19/04/2026

SOL FORTE, RAIOS ULTRAVIOLETA, DOENÇAS DE PELE E O LÚPUS ERITEMATOSO SISTÊMICO

Durante recente viagem aos Andes peruanos, uma sensação era clara: o sol parecia mais intenso, mais próximo, mais “agressivo” à pele, apesar da temperatura amena. Essa percepção tem explicação científ**a e impacto importante na saúde das pessoas, principalmente naquelas com predisposição para algumas doenças.



No Amapá, vivemos em um estado banhado pelo rio Amazonas e estamos ao nível do mar, na linha do Equador. Essa latitude favorece a incidência de raios solares, em especial os ultravioleta, durante todo o ano. Na Cordilheira dos Andes peruanos nasce o nosso rio Amazonas, a partir do degelo da neve. Logo, trago ao leitor da coluna essa comparação entre dois lugares distantes do nosso continente, mas com ligações geográf**as e de saúde.



Nos Andes, dois fatores se combinam:

• Altitude elevada (frequentemente acima de 2.500–4.000 metros)

• Proximidade com a linha do Equador



Essa combinação resulta em níveis extremos de radiação ultravioleta (UV), muitas vezes com Índice UV acima de 11 — considerado risco extremo.



Mas há um ponto importante: o Amapá compartilha um dos principais fatores de risco — a latitude equatorial. Ou seja, mesmo ao nível do mar, a radiação UV na Amazônia é naturalmente elevada durante todo o ano.



COMPARAÇÃO ENTRE REGIÕES



• Andes peruanos: altitude elevada + proximidade do Equador → UV extremo

• Amapá: baixa altitude + linha do Equador → UV constantemente alto

• Sul do Brasil (ex: Santa Catarina): maior distância do Equador → menor intensidade média de UV



Moradores do Norte do Brasil vivem sob exposição solar mais intensa do que grande parte do país.



O QUE É RADIAÇÃO UV?



A radiação ultravioleta é uma energia emitida pelo sol ou por fontes artificiais (lâmpadas fluorescentes/halógenas e câmaras de bronzeamento), que atinge a pele. A radiação solar atinge as pessoas:

• Diretamente

• De forma dispersa no céu (mesmo com nuvens)

• Refletida na água, areia, concreto e até neve



TIPOS DE RADIAÇÃO UV



• UVA: penetra profundamente, causa envelhecimento e aumenta o risco de câncer

• UVB: causa queimaduras solares, está diretamente ligada ao câncer de pele e também tem papel em doenças imunológicas — é uma das radiações mais relevantes do ponto de vista clínico

• UVC: bloqueada pela atmosfera



DOENÇAS AGRAVADAS PELO SOL



Lúpus eritematoso sistêmico:

Pode desencadear lesões na pele, surtos inflamatórios e acometimento de órgãos como rins e cérebro. A radiação ultravioleta piora a doença, e não é raro o diagnóstico ou a ativação após férias em praias, balneários e também após viagens a grandes altitudes.



Melasma:

Manchas escuras que pioram com exposição solar crônica. Existe predisposição genética associada a fatores hormonais e à radiação solar.



Rosácea:

Vermelhidão e inflamação facial desencadeadas pelo calor e pela radiação. É mais comum em adultos entre 30 e 60 anos, principalmente em indivíduos de pele clara, sendo a exposição solar um dos principais fatores de piora.



Herpes labial:

Reativação viral associada ao sol.



Ceratose actínica:

Lesão pré-cancerosa causada por dano solar acumulado ao longo dos anos. Ocorre principalmente em indivíduos acima de 50 anos, de pele clara, com exposição solar crônica, como trabalhadores rurais e populações ribeirinhas.



CÂNCER DE PELE



A radiação UV é a principal causa de:

• Carcinoma basocelular

• Carcinoma espinocelular

• Melanoma



O risco é cumulativo ao longo da vida.



ÍNDICE UV



0–2: baixo

3–5: moderado

6–7: alto

8–10: muito alto

11+: extremo



No Amapá, no Norte e Nordeste do Brasil, assim como nos Andes, frequentemente encontramos níveis altos ou extremos.



PROTEÇÃO SOLAR: COMO FAZER CORRETAMENTE



Protetor solar:

• FPS mínimo de 30 (ideal 50 em regiões equatoriais)

• Deve ser “amplo espectro” (protege contra UVA e UVB)

• Reaplicar a cada 2 horas ou após suor/água

• Aplicar 20 minutos antes da exposição



Quantidade correta:

• Rosto: uma colher de chá

• Corpo: cerca de 30 ml (um copo pequeno)



Tipos de protetor:

• Creme: ideal para pele seca

• Gel: indicado para pele oleosa

• Spray: prático, mas exige cuidado na aplicação uniforme

• Bastão: útil, mas às vezes não oferece proteção uniforme — deve ser usado como complemento



Protetor solar na maquiagem:

• Base com FPS ajuda, mas não substitui o protetor tradicional

• Pode ser usado como complemento ao longo do dia



Protetor para praia:

• Preferir resistente à água

• Reaplicação obrigatória após banho



ROUPAS E ACESSÓRIOS



Roupas:

• Tecidos mais fechados protegem melhor; em pacientes com lúpus, recomenda-se durante o dia o uso de roupas de manga longa e gola alta

• Roupas com proteção UV são ideais



Chapéus, bonés e sombrinhas:

• Preferir aba larga para proteção da face e orelhas

• Sombrinhas são interessantes durante o dia, especialmente para pacientes com sensibilidade solar ou diagnóstico prévio dessas doenças



Óculos escuros:

• Devem ter proteção contra 99–100% dos raios UV

• Protegem contra catarata, lesões oculares e ajudam a aumentar a proteção da face



MAIS DO QUE ESTÉTICA



Proteção solar não é apenas estética:

• Reduz o risco de câncer de pele

• Evita a exacerbação de doenças autoimunes

• Previne o envelhecimento precoce



SUPLEMENTAÇÃO DE VITAMINA D



Pacientes que realizam proteção solar adequada muitas vezes precisam suplementar vitamina D. No entanto, o uso de doses elevadas por tempo prolongado pode ser arriscado. Por isso, é importante que o paciente converse com seu médico a respeito.



A minha experiência nos Andes reforça uma verdade importante:

quanto maior a exposição ao sol — seja por altitude ou localização geográf**a — maior o impacto na saúde.



No Amapá, vivemos sob alta radiação UV durante todo o ano. Muitos pacientes vivem em áreas ribeirinhas, onde a radiação se reflete na água, aumentando a exposição. Infelizmente, na maioria dos estados brasileiros não há dispensação de protetor solar para pacientes com essas doenças citadas na matéria.



No caso do lúpus sistêmico, pacientes de baixa renda muitas vezes não utilizam protetor solar, o que pode causar lesões, por vezes irreversíveis, e impedir a remissão da doença.



Proteger-se do sol não é vaidade.

É uma medida de saúde.

https://agazetadoamapa.com.br/colunista/como-prevenir-o-infarto-e-o-avc/
01/03/2026

https://agazetadoamapa.com.br/colunista/como-prevenir-o-infarto-e-o-avc/

Pacientes com doenças reumáticas inflamatórias têm risco cardiovascular maior — e o tratamento correto reduz esse perigo As doenças cardiovasculares — como o infarto do miocárdio e o acidente vascular encefálico (AVC) — continuam entre as principais causas de morte no Brasil e no mundo....

01/03/2026
Depressão e fibromialgia: compreender para tratar, acolher para prevenirPor Dr. Marco Túlio Muniz FrancoReumatologista –...
04/01/2026

Depressão e fibromialgia: compreender para tratar, acolher para prevenir

Por Dr. Marco Túlio Muniz Franco
Reumatologista – CRM-AP 994 | RQE 204
Colunista da Gazeta do Amapá

DEPRESSÃO: UMA DOENÇA MÉDICA QUE EXIGE CUIDADO CONTÍNUO

A depressão é uma doença crônica, complexa e potencialmente grave, que compromete o humor, o pensamento, o comportamento e até funções físicas básicas.
Não se trata de fraqueza, falta de fé ou ausência de força de vontade. É uma condição médica real, com base biológica, psicológica e social.

Entre as principais causas da depressão estão a predisposição genética, alterações neuroquímicas cerebrais, estresse crônico, traumas emocionais, doenças físicas persistentes e o isolamento social.
Os sintomas variam desde quadros leves até formas graves, com importante prejuízo da funcionalidade, do convívio social e da qualidade de vida.

TRATAMENTO DA DEPRESSÃO: PSIQUIATRA, PSICOTERAPIA E ATIVIDADE FÍSICA

O tratamento da depressão deve ser individualizado. Quadros leves podem ser inicialmente conduzidos pelo médico generalista, com acompanhamento próximo.
Já os casos moderados e graves exigem avaliação e seguimento especializado com psiquiatra, responsável pela indicação adequada de antidepressivos, ajuste de doses e monitoramento do risco de suicídio.

Por se tratar de uma doença crônica, o tratamento pode ser prolongado nos casos mais severos ou recorrentes. A interrupção precoce da medicação é uma das principais causas de recaída.

A psicoterapia é parte essencial do tratamento, especialmente a terapia cognitivo-comportamental, ajudando o paciente a compreender padrões de pensamento negativos, desenvolver estratégias de enfrentamento e fortalecer o autocuidado.

A atividade física regular também desempenha papel fundamental no tratamento da depressão. Exercícios aeróbicos e de fortalecimento muscular demonstram benefícios comprovados na redução dos sintomas depressivos, melhora do sono, aumento da autoestima e regulação do humor, funcionando como importante aliada ao tratamento medicamentoso.

PREVENÇÃO DO SUICÍDIO: FALAR, ACOLHER E CUIDAR

A depressão não tratada é um dos principais fatores de risco para o suicídio. Falar sobre o tema não estimula o ato, mas salva vidas.
Sinais de alerta como isolamento social progressivo, desesperança intensa, abandono do autocuidado e falas recorrentes sobre morte devem ser valorizados.

A busca precoce por ajuda médica, o acompanhamento contínuo e o apoio da família são fundamentais para a prevenção.

O PAPEL DA FAMÍLIA NO TRATAMENTO

A depressão não afeta apenas o indivíduo, mas todo o núcleo familiar. A participação da família é decisiva para o sucesso do tratamento, oferecendo apoio emocional, escuta sem julgamentos, incentivo à adesão terapêutica e vigilância de sinais de agravamento.

Famílias informadas compreendem que recaídas podem ocorrer e que o tratamento exige tempo, paciência e continuidade.

FIBROMIALGIA: DOENÇA CRÔNICA E MULTIFATORIAL

A fibromialgia é uma síndrome dolorosa crônica, caracterizada por dor difusa no corpo, fadiga intensa, sono não reparador e alterações cognitivas.
É uma condição multifatorial, envolvendo alterações na modulação central da dor, distúrbios do sono, fatores emocionais e, em alguns casos, mecanismos imunológicos associados.

Pela experiência clínica e pela natureza da doença, a fibromialgia é diagnosticada e tratada pelo reumatologista, que avalia diagnósticos diferenciais, doenças autoimunes associadas e coordena o plano terapêutico.

TRATAMENTO MULTIDISCIPLINAR DA FIBROMIALGIA: EXERCÍCIO É O PILAR

O tratamento da fibromialgia deve ser multidisciplinar e multiprofissional, envolvendo:
- reumatologista (coordenação do cuidado)
- psiquiatra, quando há depressão ou ansiedade associadas
- psicólogo
- fisioterapeuta
- educador físico

Diferentemente de outras doenças, na fibromialgia a atividade física não é apenas benéf**a, mas obrigatória para a melhora clínica sustentada a longo prazo.
Exercícios aeróbicos, alongamentos e fortalecimento muscular, quando realizados de forma regular e orientada, reduzem a dor, melhoram o sono, aumentam a funcionalidade e diminuem a dependência de medicamentos.

Medicamentos podem auxiliar no controle da dor e dos sintomas associados, mas sem exercício físico não há controle adequado da doença.

CONCLUSÃO: CUIDAR DA MENTE É CUIDAR DO CORPO

Depressão e fibromialgia compartilham desafios comuns: cronicidade, estigma e sofrimento silencioso.
O tratamento ef**az depende de diagnóstico precoce, abordagem especializada, participação ativa da família, prática regular de atividade física e trabalho integrado entre diferentes profissionais de saúde.

Quanto mais cedo o cuidado começa, maior é a chance de controle dos sintomas e de recuperação da qualidade de vida. Jornal A Gazeta

A importância da perda de peso no controle das doenças reumáticasA obesidade é um dos fatores que mais agravam as doença...
08/12/2025

A importância da perda de peso no controle das doenças reumáticas

A obesidade é um dos fatores que mais agravam as doenças reumáticas. Ela aumenta a inflamação do corpo, sobrecarrega as articulações, reduz a qualidade do sono e favorece problemas metabólicos, como o diabetes tipo 2. Em pessoas com doenças reumáticas, esses elementos se somam e dificultam o controle da dor e a resposta ao tratamento.

Obesidade, inflamação e doenças reumáticas
O excesso de tecido adiposo produz substâncias inflamatórias que intensif**am doenças como:
• artrite reumatoide,
• lúpus,
• espondilite anquilosante,
• artrite psoriásica.
Ao mesmo tempo, o peso elevado sobrecarrega e desgasta as articulações, piorando:
• artrose de joelhos,
• artrose de quadris,
• artrose e dor na coluna.
Em muitos casos, perder peso signif**a controlar melhor a doença reumática, reduzindo dor, rigidez e inflamação.

Fibromialgia e obesidade: impacto direto na dor e no bem-estar
A fibromialgia tem uma relação particularmente forte com o excesso de peso. A obesidade:
• piora a qualidade do sono,
• intensif**a a fadiga,
• aumenta a sensibilidade à dor,
• dificulta o exercício físico,
• reduz o bem-estar emocional.
Pacientes com fibromialgia que conseguem perder peso relatam melhora signif**ativa na dor, na disposição e no sono, tornando o tratamento mais ef**az. Em muitos casos, a redução de peso é um divisor de águas no controle da doença.

Obesidade, diabetes e dor: uma combinação perigosa
A obesidade é uma das principais causas de diabetes tipo 2.
E o diabetes, por sua vez, traz manifestações dolorosas que muitas vezes se confundem com queixas reumatológicas.

Polineuropatia diabética
Pacientes com diabetes e obesidade podem desenvolver:
• queimação,
• formigamento,
• dormência,
• câimbras,
• dor em queimação nos pés e pernas.
Com perda de peso e controle glicêmico, os sintomas tendem a melhorar signif**ativamente, podendo até regredir nos quadros mais leves.

Síndrome do túnel do carpo
Muito comum em diabéticos e obesos, causa:
• formigamento,
• dormência,
• perda de força nas mãos.
A perda de peso e o controle da glicemia frequentemente resultam em melhora importante — e até remissão dos sintomas.

Exercício supervisionado: parte do tratamento
A combinação de emagrecimento com atividade física orientada é uma das estratégias mais ef**azes em reumatologia. Ela melhora:
• dor,
• força muscular,
• flexibilidade,
• mobilidade,
• humor,
• sono,
• e a inflamação sistêmica.
Em artrose de joelhos, quadris e coluna, perder peso tem impacto maior que qualquer tratamento medicamentoso de uso contínuo.

Menos corticoide, mais tratamento correto
O uso inadequado de corticoides — especialmente injetáveis aplicados por conta própria — piora o ganho de peso, eleva a glicemia, favorece infecções e causa efeitos graves a longo prazo.
Por isso, o reumatologista:
• prioriza tratamentos corretos com dr**as que modif**am o curso da doença, como DMARDs e imunobiológicos,
• evita corticoides quando possível,
• e orienta o paciente para estratégias seguras de emagrecimento.

Equipe multidisciplinar: emagrecer é parte do tratamento
O reumatologista frequentemente trabalha com:
• endocrinologistas,
• nutricionistas,
• psicólogos,
• educadores físicos,
• cirurgiões bariátricos.
O objetivo é claro: emagrecer para controlar melhor a doença reumática.

Medicações para emagrecer: por que às vezes o próprio reumatologista prescreve?
Pacientes reumáticos utilizam esquemas complexos — imunossupressores, imunobiológicos, analgésicos, corticoides — exigindo cuidado com interações medicamentosas.
Por isso, não é incomum que o próprio reumatologista prescreva:
• orlistat,
• sibutramina,
• medicamentos que reduzem ansiedade e compulsão alimentar,
• e as modernas canetas emagrecedoras (Ozempic, Mounjaro).
O objetivo é integrar o manejo reumatológico ao controle metabólico e ao processo de emagrecimento.

Conclusão
Perder peso não é apenas uma recomendação: é tratamento.
Reduz inflamação, melhora o diabetes, diminui neuropatias, alivia a sobrecarga articular, melhora o sono, reduz a dor na fibromialgia e aumenta a eficácia das medicações reumatológicas.
Para muitos pacientes, emagrecer é um dos passos mais importantes para controlar a doença reumática e recuperar qualidade de vida

Promoção da saúde, meio ambiente e desenvolvimento: por que o Amapá precisa aplicar a lei das sacolas plásticasPor Dr. M...
23/11/2025

Promoção da saúde, meio ambiente e desenvolvimento: por que o Amapá precisa aplicar a lei das sacolas plásticas
Por Dr. Marco Túlio Muniz Franco
Reumatologista – CRM-AP 994 | RQE 204
Colunista da Gazeta do Amapá

A promoção da saúde começa muito antes dos hospitais e postos de atendimento. Ela nasce no controle adequado do lixo, na organização urbana, na limpeza das ruas e na capacidade de uma cidade proteger o meio ambiente que a sustenta. Em Macapá — localizada na foz do majestoso Rio Amazonas, o maior sistema hidrográfico do planeta — essa responsabilidade ganha proporções ainda maiores.

A forma como lidamos com os resíduos sólidos, especialmente com o plástico descartável, é determinante para a saúde da população. Sacolas plásticas abandonadas em vias públicas entopem bueiros, criam pontos de acúmulo de água e transformam a cidade em terreno fértil para dengue, chikungunya e outras arboviroses. Além disso, ao alcançarem igarapés e canais, esses resíduos seguem para o Rio Amazonas e para o oceano, afetando diretamente a fauna e a flora — incluindo peixes, quelônios, aves e toda a biodiversidade que sustenta nossa cultura e nossa economia.

Várias capitais brasileiras, e inúmeras cidades na Europa, América do Norte e Japão, já adotaram políticas rígidas para reduzir ou proibir o uso de sacolas plásticas. Essas ações integram uma visão moderna de gestão ambiental urbana, que não é mero embelezamento: é política de saúde pública.

No Amapá, existe legislação aprovada, como a Lei Estadual nº 1.550/2011, posteriormente ajustada pela Lei nº 1.834/2014, determinando a redução e posterior proibição do uso de sacolas plásticas convencionais no comércio. Entretanto, apesar de votada, essa lei não foi regulamentada nem efetivamente aplicada. Continuamos, portanto, expostos ao impacto ambiental e sanitário desse material, que tem tempo de decomposição estimado em mais de 100 anos.

A foz do Amazonas, porém, exige outro tipo de cuidado. Toda a região depende do equilíbrio do rio para gerar vida, garantir pesca, movimentar a economia e preservar a identidade do povo amapaense. Controlar o lixo é proteger saúde. Controlar o plástico é proteger o Amazonas.

Oportunidade histórica: saneamento básico e os recursos da exploração de petróleo na foz

Independentemente do debate moral, técnico ou político, um fato é inegável: a eventual exploração do petróleo na foz do Amazonas tende a gerar grandes receitas ao Estado. Esses recursos podem — e devem — ser direcionados para resolver problemas fundamentais, como:

- tratamento de esgoto,

- abastecimento de água potável,

- urbanização de áreas vulneráveis,

- recuperação de canais e drenagens,

- gestão moderna de resíduos sólidos,

- e projetos de infraestrutura que elevem a qualidade de vida da população.

Se bem utilizados, esses investimentos representarão um avanço concreto na saúde dos amapaenses, reduzindo doenças infecciosas, melhorando indicadores ambientais e fortalecendo nosso desenvolvimento econômico.

Hora de agir: a lei sobre sacolas plásticas precisa sair do papel

Não basta aprovar leis. É preciso implementá-las. As legislações amapaenses que determinam a proibição ou substituição das sacolas plásticas foram criadas justamente para proteger o meio ambiente e a saúde das pessoas — mas, sem regulamentação, permanecem como letra morta.

É hora de colocá-las em vigor.

As prefeituras devem manter e ampliar seus esforços no manejo adequado do lixo, no saneamento básico e na limpeza urbana. Ao mesmo tempo, cabe ao Estado assegurar o cumprimento da legislação que proíbe o uso de sacolas plásticas. A união dessas duas esferas de governo, atuando de forma coordenada, é essencial para proteger o meio ambiente e promover mais saúde para toda a população.

Proibir o uso indiscriminado de sacolas plásticas é uma medida simples, barata e altamente ef**az para reduzir poluição, preservar o Rio Amazonas e promover saúde pública.

Enquanto aguardamos os novos caminhos econômicos que podem surgir com a exploração do petróleo, é indispensável que avancemos no básico: limpeza urbana, educação ambiental e respeito às leis que já existem.

Doença de Chagas e o Açaí no Amapá: o desafio invisível por trás de um alimento tradicionalPor Dr. Marco Túlio Muniz Fra...
16/11/2025

Doença de Chagas e o Açaí no Amapá: o desafio invisível por trás de um alimento tradicional

Por Dr. Marco Túlio Muniz Franco
Reumatologista – CRM-AP 994 | RQE 204

O açaí faz parte da identidade cultural e alimentar do povo amapaense. Está na mesa diariamente, movimenta a economia local e representa a principal cadeia extrativista do Estado. Mas, ao lado de sua importância, existe um risco ainda pouco reconhecido pela população: a possibilidade de transmissão oral da Doença de Chagas por meio da ingestão de açaí contaminado pelo Trypanosoma cruzi, o parasita causador da doença.

Nos últimos anos, o Amapá tem registrado casos confirmados de Doença de Chagas Aguda (DCA), quase sempre associados ao consumo de alimentos contaminados. Entre 2016 e 2021, estudos apontaram mais de 1.900 notif**ações e mais de 200 casos confirmados no estado, concentrados principalmente nos meses de maior produção de açaí. Em 2023, o Amapá foi o segundo estado brasileiro com maior número de casos notif**ados. Entretanto, há importante subnotif**ação, tanto pela dificuldade diagnóstica quanto pela semelhança dos sintomas com dengue, malária e outras infecções comuns da região.



Como ocorre a transmissão através do açaí?

A transmissão oral acontece quando o alimento — no caso, o açaí — é contaminado por fezes do barbeiro infectado ou por outros reservatórios que entram em contato com o fruto durante o transporte, armazenamento, manipulação ou moagem.

O risco aumenta principalmente quando:
• o processamento é artesanal;
• não há cuidados adequados de higiene e temperatura;
• o fruto é triturado sem higienização prévia;
• utensílios e ambientes têm contato com insetos silvestres.



Quadro clínico: Chagas Aguda pela via oral

A forma aguda tende a ser mais intensa e grave quando adquirida pela ingestão do parasita. Os sintomas surgem entre 5 e 20 dias após o consumo de alimento contaminado.

Manifestações gerais
• Febre prolongada e diária
• Mal-estar intenso
• Dor de cabeça
• Cansaço excessivo
• Inchaço no rosto e nas pernas
• Aumento do fígado e do baço
• Náuseas e perda de apetite

Manifestações cardíacas (frequentes e potencialmente graves)
A via oral costuma trazer maior quantidade de parasitas, aumentando o risco de danos ao coração —
como:
• inflamação cardíaca (miocardite);
• líquido ao redor do coração (derrame pericárdico);
• batimentos irregulares;
• insuficiência cardíaca;
• dor no peito.

É justamente nesse ponto que o reumatologista pode participar do diagnóstico. Febre prolongada, inflamação e alterações cardíacas também ocorrem em doenças autoimunes, como lúpus. Por isso, o reumatologista muitas vezes integra a investigação de febre de origem desconhecida acompanhada de sintomas cardíacos.



Exames mais utilizados

Na fase aguda, podem ocorrer:
• aumento de enzimas do fígado;
• alteração dos glóbulos brancos;
• exames de inflamação elevados;
• exames que indicam agressão ao músculo cardíaco alterados.

A confirmação geralmente ocorre pela visualização direta do parasita ao microscópio, de forma semelhante ao exame de gota espessa da malária.
Te**es específicos que detectam o material genético do parasita também podem ser usados.
Na fase crônica, utilizam-se principalmente exames de sangue para identif**ar anticorpos.



Tratamento e equipes envolvidas

O manejo deve ser integrado entre atenção básica, serviços de urgência e especialistas.

Médico da Atenção Primária à Saúde (APS)

É a principal porta de entrada para o diagnóstico precoce.
Compete ao profissional:
• suspeitar da doença em casos de febre prolongada, mal-estar, inchaço ou sintomas cardíacos recentes;
• solicitar exames básicos como hemograma, inflamação e função hepática;
• solicitar exame do coração quando necessário;
• notif**ar imediatamente casos suspeitos;
• encaminhar ao infectologista ou cardiologista frente a sinais de gravidade;
• iniciar o tratamento com benzonidazol quando o diagnóstico estiver confirmado e não houver acesso rápido ao especialista, realidade comum em áreas remotas do Amapá.

Serviços de Emergência e Pronto Atendimento

Essenciais para identif**ar casos graves.
O médico deve:
• suspeitar de Doença de Chagas em casos de insuficiência cardíaca ou arritmia de início recente sem causa aparente;
• investigar febre prolongada quando dengue e malária forem descartadas;
• realizar estabilização clínica, exames básicos e coleta para parasitologia;
• avaliar necessidade de internação.

Infectologista
• confirma o diagnóstico;
• prescreve e acompanha o uso do benzonidazol;
• monitora efeitos adversos e gravidade clínica.

Cardiologista

Fundamental em praticamente todos os casos agudos.
• avalia a função do coração;
• trata arritmias, inflamação cardíaca e insuficiência cardíaca;
• indica marcapasso quando necessário;
• acompanha o paciente no longo prazo.

Outras especialidades

Em casos crônicos avançados — raros no Amapá:
• megaesôfago → gastroenterologista
• megacólon → coloproctologista



Como reduzir o risco de contaminação pelo açaí?

A segurança depende de toda a cadeia produtiva: batedores, produtores, vigilância sanitária e consumidores.

Boas práticas na produção e venda
• Lavar o fruto antes da moagem
• Evitar contato com insetos durante armazenamento
• Manter utensílios e peneiras higienizados
• Evitar presença de vetores em casas de farinha e batedeiras
• Aplicar o choque térmico recomendado pela Embrapa (80 °C por 10 segundos)
• Comprar açaí de locais fiscalizados e certif**ados

Para melhorar a notif**ação dos casos
• Ampliar a divulgação para profissionais de saúde e população
• Realizar palestras e capacitações regionais
• Treinar equipes para reconhecer a forma aguda
• Estimular testagem em casos suspeitos, inclusive na fase crônica
• Criar protocolo estadual para investigação de surtos
• Integrar vigilância, hospitais e laboratórios
• Realizar campanhas durante a safra



Conclusão

A Doença de Chagas transmitida pela ingestão de açaí é um desafio silencioso, porém real, para a saúde pública do Amapá. Reconhecer precocemente seus sinais, fortalecer a vigilância sanitária e garantir boas práticas de preparo são medidas essenciais para proteger a população — sem comprometer a tradição e a importância econômica do nosso açaí.

A prevenção começa com informação, higiene e compromisso com a qualidade.

Quando a pele fala: os sinais do lúpus que o corpo revelaPor Dr. Marco Túlio Muniz FrancoReumatologista – CRM-AP 994 | R...
03/11/2025

Quando a pele fala: os sinais do lúpus que o corpo revela

Por Dr. Marco Túlio Muniz Franco
Reumatologista – CRM-AP 994 | RQE 204



Viver sob o sol do Amapá é um privilégio — mas também um desafio à saúde da pele. Nosso Estado está exatamente sobre a linha do Equador, região onde a radiação ultravioleta (UV) incide com maior intensidade durante todo o ano. Essa exposição solar constante, especialmente nos meses da estiagem (de agosto a novembro), quando o céu f**a limpo e o calor se intensif**a, pode causar lesões cutâneas e servir como gatilho para doenças autoimunes, como o lúpus.

Nos consultórios e hospitais do Amapá, é justamente nesse período de sol forte que cresce o número de pacientes com doença ativa. Vemos um aumento de internações por descompensação sistêmica, sobretudo por nefrite lúpica — inflamação nos rins provocada pelo lúpus —, e alguns casos chegam a exigir hemodiálise. O mesmo sol que alegra o dia pode, para quem tem lúpus, ser o inimigo invisível que reacende a inflamação do corpo.

A pele como espelho da doença
O lúpus é uma doença autoimune que pode se manifestar de várias formas — e, em muitos casos, é a pele quem dá o primeiro alerta. Manchas avermelhadas, sensibilidade exagerada ao sol e feridas no couro cabeludo ou no rosto são sinais de um desequilíbrio do sistema imunológico, que passa a atacar o próprio organismo.

Segundo estudo publicado nos Anais Brasileiros de Dermatologia (2023), cerca de 8 em cada 10 pessoas com lúpus sistêmico apresentam algum tipo de lesão cutânea durante a vida. Em até um quarto dos casos, essas alterações na pele são a primeira manifestação da doença, reforçando a importância do diagnóstico precoce.

Manchas que falam
As formas de lúpus que afetam a pele são diversas. A mais conhecida é a mancha avermelhada em forma de “borboleta”, que aparece sobre o nariz e as bochechas — o lúpus cutâneo agudo, geralmente ligado à fase mais ativa da doença sistêmica.

Há também o lúpus cutâneo subagudo, que provoca placas avermelhadas ou descamativas nas áreas expostas ao sol — pescoço, ombros e braços. Muitas vezes se confunde com alergias ou psoríase e pode ser desencadeado por medicamentos comuns, como alguns anti-hipertensivos e antifúngicos.

Já o lúpus cutâneo crônico, mais duradouro, costuma deixar cicatrizes e áreas sem cabelo. As feridas espessas e dolorosas no rosto, couro cabeludo e orelhas não são apenas marcas físicas — trazem impacto emocional e social profundo, especialmente em pacientes jovens.

Causas e gatilhos
O lúpus não é contagioso nem tem uma única causa. Ele resulta de uma combinação de fatores genéticos, hormonais e ambientais. No Amapá, o sol intenso e a radiação UV estão entre os principais desencadeadores das crises. Esses raios estimulam a liberação de substâncias inflamatórias na pele que podem ativar o sistema imunológico e causar tanto as lesões cutâneas quanto reações internas, atingindo órgãos como rins, pulmões e coração.

Outros fatores — como infecções, uso de certos medicamentos e o tabagismo — também podem agravar a doença. Mulheres jovens e de meia-idade continuam sendo as mais afetadas, mas o lúpus pode aparecer em qualquer faixa etária.

Diagnóstico e tratamento
O diagnóstico é feito por meio de avaliação clínica detalhada, exames laboratoriais e, muitas vezes, biópsia da pele. Identif**ar o tipo de lesão é essencial, já que cada forma de lúpus cutâneo tem comportamento e tratamento diferentes.

O manejo envolve fotoproteção rigorosa, medicações específ**as (como antimaláricos e imunomoduladores) e, em casos mais graves, tratamentos imunossupressores. O acompanhamento conjunto entre dermatologista e reumatologista é o caminho mais seguro para evitar complicações e preservar a qualidade de vida.

Cuidar da pele é cuidar do corpo todo
Mais do que um problema estético, as lesões do lúpus são mensagens biológicas de que algo no sistema imunológico está em alerta. Identif**ar essas mudanças e procurar atendimento médico logo no início pode evitar danos permanentes.

No nosso clima equatorial, a prevenção começa com atitudes simples: uso diário de protetor solar, chapéu, óculos escuros e roupas leves de manga longa — medidas que protegem não apenas a pele, mas também o organismo inteiro.

O sol do Amapá é belo, mas exige respeito. Quando a pele fala, o corpo pede atenção — e ouvir esses sinais é um gesto de cuidado e amor à própria vida.

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Macapá, AP

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