Marcio Rocha

Marcio Rocha Informações para nos contatar, mapa e direções, formulário para nos contatar, horário de funcionamento, serviços, classificações, fotos, vídeos e anúncios de Marcio Rocha, Serviço de saúde mental, Edifício Tower Office Center Rua Monsenhor Gonzalez nº 618/Sala 105, Manhuaçu.

Graduado em Psicologia, com especialização em Dependência Química na Universidade Federal de São João Del-Rei, UFSJ, Márcio também é Mestre em Psicanálise pela Universidad de Léon, UNILEON, Espanha.

27/08/2026 -    57 – Dia do PsicólogoHá mais de 30 anos, escolhi a Psicologia. Desde então, entre palavras, silêncios, e...
27/08/2026

27/08/2026 - 57 – Dia do Psicólogo

Há mais de 30 anos, escolhi a Psicologia. Desde então, entre palavras, silêncios, encontros e travessias, essa profissão também passou a fazer parte de quem sou.

Exercer a Psicologia, especialmente a partir da psicanálise, é sustentar um espaço que caminha na contramão da pressa do nosso tempo. Em um mundo que exige produtividade, respostas rápidas e soluções imediatas, a clínica convida à pausa. Ali, não é necessário compreender tudo depressa, dar um nome a cada sofrimento ou eliminar aquilo que incomoda. É possível falar, silenciar, escutar e permitir que algo do sujeito encontre tempo para aparecer.

Ser psicólogo é sustentar a coragem de não oferecer respostas prontas. É acolher o que se apresenta sem reduzir a pessoa a um diagnóstico, a uma expectativa ou a um ideal de funcionamento. É reconhecer que cada sofrimento possui uma história e que cada sujeito precisa construir, à sua maneira, um caminho possível diante daquilo que o atravessa.

Ao longo dessas três décadas, o mundo mudou, as formas de sofrimento se transformaram e eu também me transformei. A experiência, porém, não trouxe a sensação de ter todas as respostas. Ensinou-me, sobretudo, a escutar melhor, a respeitar o tempo do outro e a permanecer diante das perguntas que não podem ser respondidas com pressa.

Hoje, na clínica, na docência e na formação de novos profissionais, reconheço-me cada vez mais na Psicologia e na psicanálise. Reconheço-me nesse ofício que exige rigor e sensibilidade; que nos convoca a preservar a singularidade em um mundo que insiste em padronizar modos de viver, desejar e sofrer.
Neste 27 de agosto, celebro a profissão que escolhi há 30 anos e que, desde então, continua também me escolhendo, interrogando e transformando.

Parabéns a todas as psicólogas e a todos os psicólogos que fazem da escuta uma forma de presença e da clínica um ato cotidiano de resistência ética.

Feliz Dia da Psicóloga e do Psicólogo!

24/08/2026 —   56Quando falar se torna uma experiência de escutaRecentemente, ao trabalhar em sala de aula o início da c...
24/08/2026

24/08/2026 — 56
Quando falar se torna uma experiência de escuta

Recentemente, ao trabalhar em sala de aula o início da clínica psicanalítica, retomei uma expressão que atravessa sua história: a cura pela fala.

Bertha Pappenheim, conhecida como Anna O., chamou seu tratamento com Josef Breuer de talking cure e, com certo humor, de “limpeza da chaminé”. Ao narrar experiências e encontrar palavras para os afetos ligados a elas, alguns de seus sintomas se modif**avam ou desapareciam.

Essa experiência contribuiu para o método catártico. Supunha-se que afetos impedidos de encontrar expressão permaneciam ligados ao sintoma. Recordar a experiência e expressar o afeto poderia produzir sua descarga.

Freud, porém, foi além. Ao abandonar progressivamente a hipnose e a busca dirigida por uma lembrança específ**a, abriu espaço para a associação livre: falar sem selecionar previamente o que seria importante, adequado ou coerente.

É nesse ponto que a fala ganha outra dimensão. Falar em análise não é somente contar uma história, transmitir informações ou colocar para fora algo já pronto. Enquanto fala, o sujeito repete, esquece, interrompe frases, produz equívocos, contradiz-se e se surpreende com as próprias palavras.

Isso é recorrente na clínica e no cotidiano. Começamos uma frase acreditando saber o que queremos dizer, mas um lapso, uma palavra inesperada ou uma associação pode revelar outra direção.

A “cura pela fala”, portanto, não signif**a que toda fala cure ou que a análise seja apenas um lugar para desabafar. O decisivo também está no que acontece durante o ato de falar e na possibilidade de essa fala encontrar uma escuta.

Na análise, falar não é apenas contar o que aconteceu. É poder escutar o que acontece enquanto se fala.

13/08/2026 -   55 – 3º Encontro do Curso Nós na RedeEntre tantas discussões, uma questão atravessou nosso encontro: o qu...
13/08/2026

13/08/2026 - 55 – 3º Encontro do Curso Nós na Rede

Entre tantas discussões, uma questão atravessou nosso encontro: o que acontece quando deixamos de perguntar apenas “como fazer alguém parar de usar?” e começamos a perguntar “quem é esse sujeito e que lugar o uso da substância ocupa em sua história?”

É justamente nesse ponto que encontro um diálogo muito fecundo entre a Psicanálise e a Redução de Danos.

A Psicanálise nos ensina a desconfiar das respostas universais. Diante do sintoma, não pergunta apenas como eliminá-lo, mas procura escutar que função ele cumpre na economia psíquica daquele sujeito. Um mesmo comportamento pode ocupar lugares absolutamente distintos em diferentes histórias.

A Redução de Danos também parte do reconhecimento de que não existe uma única resposta válida para todos. A abstinência pode ser uma possibilidade, inclusive uma escolha do próprio sujeito, mas não pode funcionar como condição para que alguém seja reconhecido como digno de cuidado.

Em ambas encontramos algo precioso: a aposta na singularidade.

Isso não signif**a romantizar o sofrimento ou minimizar os prejuízos provocados pelo uso de substâncias. Signif**a reconhecer que retirar uma droga da vida de alguém não é necessariamente o mesmo que tratar aquilo que tornou seu uso necessário, possível ou insuportável.

Talvez seja esse um dos encontros mais potentes entre Psicanálise e Redução de Danos:
não perguntar primeiro o que precisamos retirar da vida do sujeito, mas o que precisamos escutar para que outras possibilidades possam ser construídas.

Porque cuidar não é normalizar uma existência.

É sustentar um espaço no qual cada sujeito possa encontrar modos menos devastadores e mais singulares de estar no mundo.

09/08/2026 -   54 – O pai ocupa um lugar em nossa história.Na Psicanálise, o pai não é apenas aquele que esteve mais ou ...
09/08/2026

09/08/2026 - 54 – O pai ocupa um lugar em nossa história.

Na Psicanálise, o pai não é apenas aquele que esteve mais ou menos presente, que acertou ou errou. Ele é também uma marca, um nome, uma voz, uma referência a partir da qual construímos parte de quem somos.

Ao longo da vida, cada um cria sua própria narrativa sobre o pai que teve. Há lembranças que aquecem, silêncios que interrogam, palavras que permanecem e outras que só o tempo nos permite compreender.

Amadurecer talvez seja poder olhar para esse pai não como um homem ideal, mas como um homem real: com sua humanidade, seus limites, seus gestos e sua própria história.

Uma análise não muda o passado, mas pode transformar o lugar que ele ocupa em nós. Não para absolver, condenar ou idealizar, mas para reconhecer nossa história e seguir adiante com mais liberdade.

Hoje, recordo meu pai assim: como parte fundamental da história que me constitui. Foi também por meio dele que a vida me alcançou — e há nisso uma herança que merece ser reconhecida.

Neste Dia dos Pais, f**a o convite para olharmos para aqueles que vieram antes de nós com a complexidade que toda história humana merece.

Ao meu pai, meu respeito, minha gratidão e meu amor.

07/08/2026 -   53 – Por que fazer uma análise?Há uma expectativa persistente: a de que, ao final, alguma coisa precise t...
07/08/2026

07/08/2026 - 53 – Por que fazer uma análise?

Há uma expectativa persistente: a de que, ao final, alguma coisa precise ter sido alcançada — mais equilíbrio, mais autonomia, menos sofrimento. Como se uma versão mais bem resolvida de nós mesmos estivesse em algum ponto, esperando para ser encontrada.

Mas talvez seja justamente essa ideia de chegada que precise ser interrogada.

Vivemos cercados por modelos de vida. Maneiras consideradas mais adequadas de amar, trabalhar, educar, envelhecer, administrar e até sofrer. Para quase toda dificuldade humana parece existir uma recomendação sobre o que deveríamos fazer — e, muitas vezes, sobre o que deveríamos ser.

Foi Freud quem introduziu uma perturbação decisiva nessa lógica: conhecer o que seria certo não basta para modif**ar aquilo que nos faz sofrer. Podemos compreender racionalmente uma situação e, ainda assim, repetir. Podemos saber que determinada escolha nos prejudica e continuar escolhendo-a.

É aí que a pergunta muda.

Em vez de “como alguém deveria viver?”, a Psicanálise perguntou: “o que há de singular na maneira como esse sujeito vive, deseja, sofre e repete?”

E é também aí que a análise se revela uma experiência insubstituível.

Há uma passagem importante aqui: do “o que devo ser?” para o “o que farei com isso que me acontece?” A passagem de uma lógica predominantemente moral — organizada por ideais universais — para uma ética da responsabilidade singular.

Responsabilidade, nesse sentido, não signif**a culpa. Signif**a poder reconhecer-se implicado na resposta que se produz diante daquilo que não escolhemos e que, muitas vezes, não podemos controlar.

A vida continuará produzindo encontros, perdas, desencontros e acontecimentos para os quais nenhuma análise poderá nos preparar completamente. Mas talvez seja justamente aí que possamos reconhecer um de seus efeitos mais importantes:
Não eliminar o imprevisível da existência, mas transformar nossa maneira de responder a ele.

03/08/2026 -   52 – Você nasceu duas vezes.A primeira vez foi biológica. A segunda foi narrativa.Antes de você ter memór...
04/08/2026

03/08/2026 - 52 – Você nasceu duas vezes.

A primeira vez foi biológica. A segunda foi narrativa.

Antes de você ter memória, alguém já havia contado sua história. Alguém disse: “ele é igual ao pai”, “ela tem o gênio da avó”, “é o preferido da mãe”. E você passou a habitar essas histórias sem saber que eram histórias.

Em 1909, Freud escreveu um texto curto, quase esquecido, chamado “O Romance Familiar dos Neuróticos”. Nele, ele observa algo extraordinário: toda criança, ao perceber que seus pais não são perfeitos, constrói uma versão alternativa da própria família.

Não por desonestidade.
Porque precisa responder a uma pergunta que não consegue formular: “por que meus pais me frustram?”

A criança não aceita a imperfeição dos pais como fato. Ela a transforma em ficção: “se meus pais não são extraordinários, talvez não sejam meus pais verdadeiros”.

Freud foi categórico: isso não é patológico. É constitutivo.
Ou seja — todo sujeito nasce duas vezes: biologicamente e narrativamente. Esse segundo nascimento ocorre através das histórias que se contam sobre sua origem. E que ele próprio passa a contar.

A implicação clínica é enorme.
Quando um paciente chega trazendo uma versão muito organizada da história de sua família — quem fez o quê, quem traiu quem, quem foi injustiçado —, a pergunta clínica não é “isso é verdade?”.
É: “o que essa versão sustenta?”

Toda narrativa familiar sustenta algo. Um lugar. Uma identidade. Uma queixa. Um silêncio.

A psicanálise não consiste em verif**ar a veracidade histórica do que o paciente conta. Consiste em escutar o que sua versão da história está tentando preservar — e o que ela está tentando esconder.
Incluindo de si mesmo.

📖 Freud, S. (1909). O Romance Familiar dos Neuróticos.

30/07/2026 -   51 – A coragem de escutar o singular Às vezes esquecemos que a Psicanálise nasceu para resistir ao que é ...
30/07/2026

30/07/2026 - 51 – A coragem de escutar o singular

Às vezes esquecemos que a Psicanálise nasceu para resistir ao que é igual.

Lacan escreveu sinthoma com “th” para marcar que há, em cada sujeito, algo que escapa às classif**ações. Existe um ponto que não se deixa capturar pelos diagnósticos, pelas categorias ou pelas semelhanças. É justamente aí que habita o singular.

Talvez por isso a clínica psicanalítica nos convide, antes de tudo, ao antidiagnóstico. Não porque o diagnóstico seja inútil, mas porque ele nunca pode anteceder o encontro. Como lembra Lacan em Outros Escritos: “Numa análise, tudo deve ser recolhido, recolhido como se nada se houvesse estabelecido fora dela.”

Essa é uma orientação ética: escutar cada sujeito como se fosse a primeira vez que alguém o ouvisse.
Cada sessão vale por si. Cada palavra pode inaugurar um caminho. Cada silêncio pode anunciar um acontecimento de corpo que nenhuma teoria poderia prever.

O sintoma tem um sentido. Um lapso, um ato falho, uma repetição insistente... tudo pode ser decifrado. Mas há um ponto em que o trabalho analítico não busca apenas produzir sentido. Ele procura tocar aquilo que faz cada existência absolutamente única, o modo singular como cada um encontrou para viver com seu gozo.

Ser singular é difícil.

Reconhecer a singularidade do outro talvez seja ainda mais.

E é justamente essa aposta que continua fazendo da Psicanálise uma experiência insubstituível: não encontrar o sujeito onde todos esperam encontrá-lo, mas permitir que ele apareça onde nunca foi confundido com ninguém.

27/07/2026 -   50 – Quando a vida nos obriga a reinventarHá momentos em que a análise não gira em torno daquilo que falt...
27/07/2026

27/07/2026 - 50 – Quando a vida nos obriga a reinventar

Há momentos em que a análise não gira em torno daquilo que falta, mas da forma como alguém decide atravessar o que falta.

Numa sessão recente, um paciente descrevia a angústia de ver ruir uma imagem que sempre sustentou sua relação com a vida: a de alguém que mantinha tudo sob controle. Pela primeira vez, as dívidas chegaram, os limites se esgotaram, as contas deixaram de fechar e uma decisão dolorosa precisou ser tomada: abrir mão de um patrimônio que, durante anos, representou segurança, projetos e a promessa de um futuro tranquilo.

Naturalmente, falamos da perda. Da dor de desfazer-se de algo que nunca foi apenas um bem material, mas um lugar onde tantos sonhos haviam sido depositados.

Mas, em determinado momento da sessão, algo chamou minha atenção.

Ele começou a contar que vinha reorganizando a rotina, revendo despesas, estudando mais, ocupando o tempo de outra maneira, criando novas possibilidades dentro do próprio trabalho. Não descrevia alguém paralisado pela angústia, mas alguém que, apesar dela, continuava em movimento.

Perguntei sobre essa nova relação com o tempo.

Talvez, quando certas garantias desaparecem, descubramos que ainda existe algo que não pode ser hipotecado: a capacidade de criar novas formas de existir.

Enquanto o relato parecia girar em torno das dívidas, outra coisa ia surgindo na sessão: a capacidade de reorganizar o cotidiano, de fazer diferente, de permanecer em movimento mesmo sem todas as garantias de antes. Talvez seja justamente aí que algo novo comece a se escrever.

Ao final da sessão, ele resumiu tudo em uma frase simples:
“Estou aprendendo a me reinventar.”

Talvez reinventar-se não seja esquecer o que foi perdido, mas descobrir que a vida continua produzindo possibilidades mesmo quando o roteiro imaginado deixa de existir.

24/07/2026 -   49 – O que a Psicanálise pergunta quando todos já têm uma resposta?O filme “Elize: Sombras de uma Mulher”...
25/07/2026

24/07/2026 - 49 – O que a Psicanálise pergunta quando todos já têm uma resposta?

O filme “Elize: Sombras de uma Mulher” é minha sugestão para o final de semana; e inevitavelmente ele desperta perguntas sobre culpa, violência e responsabilidade. Mas a Psicanálise talvez comece por uma pergunta diferente: o que acontece quando um sujeito deixa de conseguir colocar em palavras aquilo que o atravessa?

Isso não signif**a justif**ar um crime, tampouco reduzir a responsabilidade por um ato. Signif**a reconhecer que nenhum sujeito se resume ao pior momento de sua história.

Freud nos ensina que aquilo que não encontra elaboração pode retornar sob outras formas. Lacan acrescenta que, em certas situações, quando a palavra falha, o ato pode ocupar seu lugar. O crime, nessa perspectiva, não é explicado por uma única causa, mas compreendido como o ponto extremo de uma história marcada por traumas, repetições, humilhações, fantasias e impasses subjetivos.

A Psicanálise não procura descobrir “o monstro” escondido em alguém. Ela pergunta como um sujeito chegou ao ponto em que a violência se tornou possível.

Talvez essa seja sua contribuição mais importante: sem suspender a responsabilidade pelo ato, ela nos lembra que compreender é diferente de absolver. E que, por trás de todo ato humano, existe sempre uma história que merece ser escutada.

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