04/11/2019
Psicologia Fast-Food
Temos assistido há alguns anos uma queda das narrativas complexas em nome de uma simplificação do pensamento. Isso obviamente é atravessado por elementos e interesses plurais, desde aqueles que se relacionam a um tensionamento do saber enquanto poder e de seus interesses de hierarquização a partir de língua majoritárias, inaudíveis, incompreensíveis de modo deliberado para causar distâncias e, por sua vez, relações de dominação.
A lembrar da “revolução” com a tradução da bíblia em épocas que as missas eram proferidas todas em latim e a forma como tal processo colocou a Igreja Católica no lugar do ordenamento do saber, do poder, da constituição de subjetividades.
Por outro lado, há uma simplificação que tem por objetivo tornar palatável pelo empobrecimento, pela despotencialização na perspectiva de uma idiotização das massas.
Tal movimento ganhou muita força com o advento das redes sociais que funcionam como um resumo interativo de relações sociais e contém em suas plataformas, espaços de exposição de pensamento. Porém, na lógica Contemporânea a estratégia de dispersão e contágio pelo aceleracionismo e pela necessidade gerar informação (aqui confrontar com conhecimento ou saber). As narrativas são despotencializadas para uma simplificação seja pelo resumo, seja pelo império da imagem (a la Sociedade do Espetáculo).
Nesse campo, é imprescindível citar a forma como a Psicologia tem se inserido nesse processo, sobretudo nos processos que envolvem o empreendedorismo Psi e as redes sociais. Essa união tem seguido numa perspectiva de reduzir a Psicologia, a Saúde Mental a uma dimensão plastificada, resumida e por sua vez despotencializada. Com intuito de “se aproximar” do modus operandi das redes sociais em que ninguém precisa pensar, ninguém tem tempo de ler, a Psicologia tem produzido informação que transforma o Sofrimento Psíquico em motes identificáveis em uma lista de sinais. De maneira acidamente ilustrativa, muitos post’s de psicólogas(os) nas redes sociais cumprem o desserviço ético (na perspectiva do código de ética e na categoria ético-política da profissão) de lançar conteúdos do tipo: Ansiedade, Sinal 1, sinal 2, sinal 3... Procure um psicólogo.
Nesta lógica mercadológica e corporativista, a Psicologia Gourmet é resumida numa perspectiva Fast-Foodeada onde há interesses deliberados que a Psicologia seja “vendida” em doses empobrecidas e facilmente comestíveis em postagens que em muitas vezes pouco ou nada se diferencia da Auto-Ajuda ou do Coach, dos quais a Psicologia diz veementemente ter diferenças.
Obedecendo à perspectiva neoliberal, esta Psicologia Fast-Foodeada cumpre o papel de despotencializar uma ciência com importante compromisso social para apresentar conteúdos mastigados para gerar consumidores como iscas que simplificam o sofrimento psíquico e o processo terapêutico em meros jargões de dispersão rápida.
É preciso refletir quais interesses atravessam tais perfis, tais postagens. Protegidos sob o argumento de tornar a Psicologia mais acessível e retirar de seu lugar inóspito para se aproximar do seu público. No entanto, tal estratégia se perde ao sair de um extremo e cair em outro, na tentativa de fugir dos pedestais, do inacessível se entregar ao chão do chiclete, do clichê, do senso comum, do Fast-Food. Afinal, o que importa na Psicologia é: