11/05/2026
Ser mãe é descobrir que o amor nunca foi inteiro.
É segurar nos braços um corpo pequeno
e perceber, tarde demais,
que ninguém nasce sabendo permanecer.
Lembro- me de vê-la dormir.
Como se o silêncio daquela respiração dissesse:
“agora você será falta para alguém.”
a maternidade não é a completude romântica que contam,
mas a experiência radical de tornar-se ausência possível.
A mãe é a primeira paisagem do mundo,
o primeiro espelho,
o primeiro som antes da linguagem.
Mas também é aquela que, um dia,
precisa deixar de ser tudo.
Porque amar um filho
é sobreviver ao instante
em que ele começa a olhar para fora de você.
Lacan diria que o sujeito nasce no desejo do outro.
E a mãe, muitas vezes,
carrega o perigo delicado de querer preencher com a criança
os quartos vazios de si mesma.
Mas o amor verdadeiro acontece justamente
quando ela suporta não possuir.
As vezes tentamos costurar o filho ao peito tentando impedir o mundo.
Outras, aprendemos, entre lágrimas silenciosas,
que crescer é uma forma lenta de separação.
Ser mãe é assistir à própria divisão.
Parte de si continua sendo mulher,
parte vira memória,
parte se transforma nessa criatura estranha
que acorda no meio da noite
só para verif**ar se o filho ainda respira.
E ninguém fala sobre o luto escondido nas pequenas coisas
a primeira vez que ele solta a mão,
a primeira porta fechada,
o primeiro segredo,
o primeiro “não precisa”.
A maternidade é feita de despedidas microscópicas.
E talvez seja esta a beleza da maternidade!
Amar alguém a ponto de deixá-lo existir fora de você
A mãe passa anos ensinando o filho a falar,
sem perceber
que o destino de toda linguagem
é afastar.
E ainda assim ela f**a.
Entre restos de brinquedos, roupas esquecidas, fotografias,
tentando compreender como aquele pequeno ser,
que um dia coube inteiro em seus braços,
agora carrega um universo que ela nunca conhecerá completamente.