10/05/2026
Hoje, no Dia das Mães, gostaria de compartilhar com vocês alguns trechos do capítulo do livro do qual participei e que trata sobre o maternar:
“Há de se considerar que a maternidade, nos dias de hoje — mesmo após tantas mudanças sociais e históricas com relação ao papel e ao lugar da mulher na sociedade —, ainda está associada predominantemente a emoções boas, ao amor e a algo que guarda semelhança com o sagrado. Sobre isso, Badinter (1985), ao falar do suposto instinto materno, comenta que o tema permanece associado ao sagrado e que ‘continua difícil questionar o amor materno, e a mãe permanece, em nosso inconsciente coletivo, identif**ada a Maria, símbolo do indefectível amor oblativo’ (p. 10).”
Mas quais são as implicações disso na mente de uma mãe? Como se sente a mulher que não vive somente essa plenitude do sagrado? Que não experimenta a mágica instantânea resumida na frase “nasce um bebê, nasce uma mãe”? Se o bebê demora um tempo para perceber que nasceu, e a mãe? Será que não existe um tempo diferenciado e subjetivo para que cada mulher se dê conta de seu novo lugar e função?
Identifiquei-me com a fala de uma mãe de primeira viagem, citada no livro de Ferrari (2023): “Eu não fazia ideia de que tudo ia mudar. Não imaginava que eu ia deixar alguém para trás, que era eu mesma”. A experiência inaugural da maternidade nos coloca diante do paradoxo do encontro e da separação: “O parto vem de nascimento, mas é uma partida também. Vem alguém, eu pari alguém, mas eu também parti”.
Esses trechos condensam questões importantes sobre o maternar: a culpa pesada que muitas mulheres carregam por sentirem emoções contraditórias e o conflito identitário gerado pela inclusão da função materna em suas vidas.
Já vivi e vivo essas questões na pele; também já acompanhei, na clínica, muitas mulheres atravessadas por esses dilemas. Posso dizer que reconhecer e integrar todos os afetos — mesmo aqueles sentidos como uma heresia inconfessável — é parte fundamental do trabalho de construção do maternar: essa dança relacional, singular e tão humana.
Feliz Dia das Mães! Um salve às maternidades possíveis.
Abraço carinhoso,
❤️