05/09/2024
Perder um paciente é sempre doloroso, especialmente quando há anos de história compartilhada. Esta é a reflexão sobre a perda de uma mulher que foi minha paciente por muito tempo, e cuja ausência ainda ressoa, mesmo depois de termos seguido caminhos diferentes.
Há anos, eu não a via. A notícia de sua morte chegou até mim por minha secretária e por um colega psiquiatra que a estava acompanhando. Fiquei em choque. Lembrei das nossas longas conversas, dos anos que estivemos juntas. Suas lutas, angústias e dor eram profundas. Recordo de como ela chegava ao consultório, quase invisível, como se não quisesse ser notada, temendo incomodar, como se preferisse não estar ali. E agora, ela realmente não estava mais. Tinha partido para sempre.
Sua morte não parecia ser um suicídio óbvio, mas soube que ela havia recusado o tratamento, alegando falta de recursos financeiros, apesar de meu colega ter se oferecido para atendê-la gratuitamente. Que tristeza...
Revisei seu prontuário e relembrei que caminhamos juntas por 13 anos. Nosso atendimento foi interrompido em 2019, quando me mudei para os EUA. Antes de partir, encaminhei-a a um colega, que passou a acompanhá-la desde então. Mesmo após meu retorno ao Brasil, ela continuou sob os cuidados dele.
Seu quadro era realmente muito grave. Ela sofria de um Transtorno de Personalidade Paranóide, sempre desconfiada de tudo e de todos, o que dificultava enormemente sua vida. Não aceitava ajuda para nada, mesmo com mais de 60 anos. Sua vida era marcada por uma profunda falta de qualidade: não aceitava o apoio dos irmãos, recusava ajuda em casa, não conseguia trabalhar. Não fazia exercícios físicos, praticamente não saía de casa. Não tinha amigos, nem uma rede de apoio, e tampouco encontrava um sentido para viver. Resistente a tudo o que era desconhecido, recusava exames de sangue, mudanças na medicação, qualquer forma de auxílio.