09/11/2025
Ela estava ali, sentada na sala de espera, uma das mãos na barriga, como quem segura o próprio mundo. O rosto misturava cansaço e esperança. Essa esperança silenciosa que só as mulheres prestes a parir conhecem.
Nos olhos, um leve inchaço; nos dedos, o aperto do relógio que já não cabia mais. O tempo parecia brincar de demorar, mas o corpo, esse mensageiro da vida, já vinha sussurrando sinais de alerta.
Do outro lado da mesa, o médico observava em silêncio. À sua frente, uma mulher serena, mas cujos números no aparelho de pressão contavam uma história diferente. A pressão arterial vinha subindo nos últimos dias…Lenta, teimosa, perigosa…
Foi então que ele falou, com calma, sobre a indução do parto. Explicou que induzir não é forçar; é antes, ajudar o corpo a lembrar o que já sabe fazer, só que no momento certo, antes que a pressão transforme o risco em urgência. Às vezes, a saúde da mãe e do bebê pede pressa. É pressa para cuidar.
Enquanto ela ouvia, ele detalhava o processo. Falou sobre a ocitocina, o hormônio que provoca as contrações, sobre o amadurecimento do colo do útero, sobre o rompimento da bolsa ou o uso do balão que ajuda o colo a se abrir. Tudo seria feito com respeito, delicadeza e escuta. Ao final, ele sorriu e disse: “Cada parto é um enredo diferente.”
Ela passou a mão na barriga, como se pedisse licença ao bebê. Era bonito de ver… O corpo e a mente travando uma conversa silenciosa, enquanto a medicina apenas acompanhava, consciente de que o controle absoluto é uma ilusão. Porque o parto, mesmo o induzido, é sempre um mistério, e todo mistério pede respeito.
O médico sabia que o desfecho ainda podia variar. Às vezes, o corpo responde rápido; outras vezes, demora. Há casos em que o bebê prefere outro caminho e a cesariana se torna o final mais seguro. Mas ele fez questão de lembrar: “Isso não é sofrer. É também nascer.”
Ela respirou fundo. O bebê se mexeu, como quem entende. A barriga parecia ouvir. O médico atento apenas pensou… Há partos que o relógio marca, mas há outros que só o coração, e às vezes a pressão, sabem quando começar.
Dr. José Freire
Ginecologista e Obstetra
Montes Claros MG