Dr. Jales Clemente

Dr. Jales Clemente Graduou-se em medicina na UFRN em 2009. Fez residência médica em Psiquiatria na UNIFESP.

02/05/2026
Dia do trabalhador
01/05/2026

Dia do trabalhador

Ultimamente, venho pensando nela a partir de algo bem concreto, da escuta clínica. Atendendo empresários, pessoas que vi...
28/04/2026

Ultimamente, venho pensando nela a partir de algo bem concreto, da escuta clínica. Atendendo empresários, pessoas que vivem de negociação, parceria, risco, eu comecei a perceber um padrão curioso. A frase não se sustenta tão bem na prática. Em muitos casos, acontece justamente o contrário.

Os negócios mais sólidos, mais duradouros e, curiosamente, mais “humanos”, são feitos entre pessoas que já têm algum nível de vínculo. Às vezes são amigos. Às vezes são conhecidos que, com o tempo, viram amigos. E isso não parece ser um desvio da regra, parece ser a própria regra, principalmente em contextos locais, cidades menores, redes sociais mais próximas, onde reputação e convivência têm peso real.

Do ponto de vista mais básico, isso faz sentido. Amizade não é só afeto. É também um sistema de cooperação. Ao longo da vida, a gente aprende quem é confiável, quem cumpre o que promete, quem aparece quando precisa. Isso cria algo que, no mundo dos negócios, é extremamente valioso, previsibilidade.

Quando você faz negócio com alguém que conhece, você não está lidando só com um contrato. Você está lidando com história, com reputação, com memória emocional. Isso reduz incerteza, aumenta confiança e, muitas vezes, facilita decisões que, em um ambiente totalmente impessoal, seriam mais difíceis.

Em cidades menores, isso f**a ainda mais evidente. A vida social e a vida econômica se misturam. Você encontra seu sócio no restaurante, seu cliente no aniversário, seu fornecedor na escola do filho. Não existe uma separação limpa entre “pessoal” e “profissional”. Existe uma rede única, onde tudo se atravessa.

E isso não é necessariamente ruim. Pelo contrário, muitas vezes torna as relações mais cuidadosas. Porque quando há vínculo, há algo a perder. Não é só dinheiro. É a relação.

Mas tem um outro lado, que também aparece com frequência.

Quando o negócio vai mal, quando há quebra de expectativa, quando alguém se sente prejudicado, o impacto não f**a restrito ao contrato. Ele transborda. A amizade também é afetada. Às vezes se rompe junto. Às vezes se desgasta lentamente. Às vezes nunca volta a ser como antes.

E isso costu

Talvez o desânimo mais legítimo provocado pelo altruísmo recíproco é que é uma designação imprópria. Enquanto na seleção...
29/03/2026

Talvez o desânimo mais legítimo provocado pelo altruísmo recíproco é que é uma designação imprópria. Enquanto na seleção de parentesco o “objetivo” de nossos genes é realmente ajudar outro organismo, no altruísmo recíproco o objetivo é deixar aquele organismo sob a impressão de que o ajudamos; a simples impressão é suficiente para suscitar a retribuição. Esse segundo objetivo sempre implicou o primeiro no computador de Axelrod, e na sociedade humana é o que em geral ocorre. Mas no caso oposto — quando somos capazes de parecer bonzinhos sem realmente sermos tão bonzinhos assim, ou lucrativamente maus sem sermos apanhados — não nos surpreendamos se uma parte feia da natureza humana vier à tona. Donde as traições secretas de todos os matizes, desde as quotidianas às shakespearianas. E donde a tendência geral que as pessoas revelam de polir suas reputações morais; a reputação é o objetivo do jogo para este animal “moral”. Donde a hipocrisia; o que parece fluir de duas forças naturais: a tendência a injuriar — a divulgar os pecados dos outros — e a tendência a disfarçar os próprios pecados.

Meu dia começou hoje do lado de lá do balcão. Fui ser atendido de urgência pelo .oftalmoNada grave. O famoso tersol. Ain...
17/03/2026

Meu dia começou hoje do lado de lá do balcão. Fui ser atendido de urgência pelo .oftalmo

Nada grave. O famoso tersol. Ainda das negativas que dei a minha cunhada

Por que medi a acuidade? Não era o momento ideal (o tersol atrapalha o exame de acuidade visual. Eu insisti e Renan aceitou para ver como seria meu desempenho.

Fui nota 10 em tudo. De prêmio, aumente meu grau para 2.5 (perto) e 1.0 (longe).

Resta agora escolher a ótica que vai me patrocinar.

Estudando um livro de habilidades sociais me deparei com um estudo de Donelson que descrevia uma crença cultural curiosa...
15/03/2026

Estudando um livro de habilidades sociais me deparei com um estudo de Donelson que descrevia uma crença cultural curiosa: a ideia de que a mulher “espera” casar, e que permanecer solteira seria sinal de frustração ou incompletude.
Quando vi a data do estudo, 1977, parei para pensar.
No consultório ainda escuto algo muito parecido.
Algumas pacientes chegam trazendo perguntas que parecem ecoar há décadas dentro de si:
“Por que você ainda não é casada?”
“Você não quer ter filhos?”
“Você não encontrou a pessoa certa?”
Essas perguntas vão sendo repetidas tantas vezes que, em algum momento, acabam sendo internalizadas. Então fui tentar entender o que a ciência atual diz sobre isso.
Por que hoje tanta gente mora sozinha?
Os padrões de relacionamento mudaram?
Isso é algo cultural?
Tem alguma base biológica?
Ou seria consequência de transtornos psiquiátricos?
A verdade é que não temos respostas simples. A sociedade mudou muito nas últimas décadas. Casamentos acontecem mais tarde, há mais autonomia individual, e as trajetórias de vida se tornaram mais diversas. Pesquisadores contemporâneos têm estudado esse fenômeno.
A psicóloga Bella DePaulo, por exemplo, descreve o preconceito cultural contra pessoas solteiras, algo que ela chamou de singlism. O sociólogo Eric Klinenberg mostrou como viver sozinho se tornou um fenômeno social crescente nas grandes cidades. Autores têm discutido como as mudanças geracionais transformaram os padrões de relacionamento.
Talvez a pergunta mais interessante não seja apenas por que alguém está solteiro. Talvez a pergunta seja outra:
De onde vem a ideia de que existe um único roteiro correto para a vida adulta?
Porque, quando olhamos para a realidade contemporânea, percebemos que as histórias de vida f**aram muito mais variadas do que os modelos culturais antigos imaginavam.

13/03/2026

Qual o momento ideal para desmamar os remédios psiquiátricos? Eles causam dependência?

10/03/2026

Novidades no tratamento do TDAH

09/03/2026

Reportagem realista da saúde mental de Natal.

Para celebrar o dia das mulheres, fui visitar hoje minha segunda sobrinha, Maria Eduarda.Se eu pudesse copiar alguma coi...
08/03/2026

Para celebrar o dia das mulheres, fui visitar hoje minha segunda sobrinha, Maria Eduarda.

Se eu pudesse copiar alguma coisa no prontuário dela, logo no primeiro dia de vida, eu colocaria uma lista simples: DIIREITOS HUMANOS BÁSICOS.

O direito:
- De manter sua dignidade e respeito, inclusive se outra pessoa se sente desconfortável, enquanto não viole os direitos dos outros.
- De ser tratada com respeito e dignidade.
- De negar pedidos sem ter que sentir-se culpada.
- De experimentar e expressar seus próprios sentimentos.
- De parar e pensar antes de agir.
- De mudar de opinião.
- De pedir o que quiser (sabendo que o outro pode dizer não).
- De fazer menos do que é humanamente capaz de fazer.
- De ser independente.
- De decidir o que fazer com seu próprio corpo, tempo e propriedade.
- De pedir informação.
- De cometer erros e ser responsável por eles.
- De sentir-se bem consigo mesma.
- De ter suas próprias necessidades, tão importantes quanto as dos demais.
- De pedir (não exigir) aos outros que correspondam às suas necessidades.
- De decidir se satisfaz as necessidades das outras pessoas.
- De comportar-se seguindo seus interesses, desde que não viole os direitos dos demais.
- De ter opiniões e expressá-las.
- De decidir se satisfaz as expectativas de outras pessoas.
- De conversar sobre problemas e esclarecê-los quando os direitos não estão claros.
- De obter aquilo pelo que paga.
- De escolher não se comportar da maneira mais adequada.
- De ter direitos e defendê-los.
- De ser ouvida e levada a sério.
- De estar só quando quiser.
- De fazer qualquer coisa enquanto não viole os direitos de outras pessoas.

Bem-vinda ao mundo, Maria Eduarda.
Você vai crescer cercada de amor, dignidade e respeito. Exatamente como qualquer ser humano merece.

Precisei levar meu carro na oficina hoje. Naquele momento, pensei na analogia do psiquiatra com o mecânico.Quando alguém...
07/03/2026

Precisei levar meu carro na oficina hoje. Naquele momento, pensei na analogia do psiquiatra com o mecânico.

Quando alguém procura um psiquiatra, muita gente pensa que o problema está sempre no “motor”, como se tudo se resolvesse apenas com remédio. Mas a vida funciona mais ou menos como um carro em movimento: existem pelo menos três coisas que precisam funcionar bem.
Primeiro, a máquina.
Se o motor do carro está com defeito, não importa se o motorista é excelente ou se a estrada é perfeita. O carro não vai render. Pode falhar, perder potência ou até parar.
Na saúde mental acontece algo parecido. Uma depressão, uma ansiedade grave ou outro transtorno pode comprometer o funcionamento da pessoa, mesmo que ela seja inteligente, dedicada e esteja tentando fazer tudo certo. Nesses casos, o tratamento psiquiátrico funciona como uma oficina que ajuda a ajustar a máquina.
Mas o carro também tem um piloto.
Um carro excelente nas mãos de alguém que não sabe dirigir pode não chegar ao destino. No ser humano, esse piloto é a personalidade, a forma de lidar com emoções, conflitos e decisões. Muitas vezes o trabalho envolve desenvolver habilidades emocionais, autoconhecimento e novas formas de conduzir a própria vida.
E existe ainda a estrada.
Um carro de Fórmula 1 tem um motor extraordinário e um piloto altamente treinado. Mas tente usar esse carro para deixar os filhos na escola numa rua cheia de buracos ou lombadas. Ele não foi feito para esse tipo de trajeto. Vai raspar, vai ter dificuldade e talvez nem consiga chegar.
Na vida também é assim.
Existem pessoas muito capazes que estão em ambientes que exigem habilidades completamente diferentes das que elas têm. E acabam sofrendo achando que o problema é nelas, quando às vezes é o contexto que não encaixa.
Cuidar da saúde mental é olhar para o conjunto.
Às vezes precisamos ajustar o motor.
Às vezes precisamos treinar melhor o piloto.
E às vezes precisamos mudar a estrada.
Às vezes precisamos mudar as 3 coisas.

05/03/2026

As cartas que eu recebo sempre me emocionam muito.

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