19/06/2026
O uso de livros em sessão terapêutica (ou em contextos clínicos e educativos) pode ser muito rico, especialmente quando falamos de biblioterapia. A ideia é usar histórias como mediadoras: o paciente se reconhece em personagens, conflitos e soluções, o que facilita falar de emoções difíceis sem precisar começar diretamente de si.
Com crianças e adolescentes, isso costuma funcionar bem porque:
* cria identificação (“isso acontece comigo”);
* dá linguagem para sentimentos que às vezes eles não conseguem nomear;
* abre espaço simbólico para trabalhar conflitos;
* reduz resistência, porque falar do personagem é menos ameaçador do que falar de si.
No caso de O enigma do tédio, de Adriana Zanonato e Luiz Carlos Prado, a proposta é especialmente interessante porque ele aborda o tédio em crianças e adolescentes como um sintoma contemporâneo importante, algo que os próprios autores destacam como cada vez mais frequente na clínica infantojuvenil. O livro conecta tédio com vazio de sentido, excesso de estímulos e dificuldade de sustentar frustração e espera.
Em sessão, esse livro pode ser usado para explorar:
1. A função do tédio
Nem sempre o tédio é “ruim”. Muitas vezes ele aponta falta de conexão com desejo, criatividade ou sentido.
2. Relação com telas e gratificação imediata
O livro parece tocar nesse ponto: a dificuldade de tolerar o vazio sem recorrer a estímulos rápidos.
3. Construção de desejo
Perguntas como:
* “O que te interessa de verdade?”
* “O que você faz quando não tem nada para fazer?”
* “O que é divertido para você?”
4. Frustração e espera
O tédio pode aparecer quando a pessoa não consegue sustentar o intervalo entre querer algo e conseguir.
Se você está usando esse livro em clínica, ele parece ser um ótimo disparador para investigar se o tédio do paciente é mais ligado a:
* ansiedade,
* apatia,
* excesso de estímulo,
* vazio existencial,
* dificuldade de simbolização,
* ou até traços depressivos.