07/03/2019
A ansiedade é uma bênção ou uma armadilha?
Uma zebra está à beira de um rio. Ela está com sede, mas hesita baixar-se para beber a água. Ela está hipervigilante, seus vasos sanguíneos dilataram-se, seu coração acelerou, há adrenalina e noradrenalina percorrendo seu corpo; a zebra entrou num estado de luta ou fuga. Após alguns momentos de espera ela dá-se conta de que há um crocodilo nesta parte do rio e isto confirma que suas suspeitas estavam corretas. O medo salvou a sua vida. Agora, imagine-se numa situação na qual você tenha que apresentar um trabalho ou projeto para um grande público. Muita gente vai ter as mesmas reações da zebra, ainda que não haja ameaça iminente alguma. Você vai tentar falar e as palavras saem da sua boca de forma desconexa, você pensa que todos lhe estão julgando, entra num espiral de emoções desconcertantes e não consegue apresentar suas ideias. Neste caso, houve medo, mas o que lhe sabotou foi a ansiedade.
A ansiedade é um estado mental de hipervigilância que está associado com incertezas. Quando estamos ansiosos temos dificuldade em controlar pensamentos de preocupação e nos focamos nos aspectos negativos ou perigosos de uma situação. Mas se você acha que este é um texto anti-ansiedade, se enganou!
Imagine-se entrando numa floresta cheia de folhas secas caídas no chão. Para atravessar a tal floresta e não ser picado por uma cobra escondida entre as folhas, qual é a melhor opção: focar a atenção onde pisa e estar hipervigilante ou correr feliz e despreocupado? Certamente o estado mais agradável é o segundo, mas se você e eu estamos aqui hoje é porque nossos antepassados que viviam em florestas foram cautelosos e sobreviveram graças ao desprazeroso (mas útil) estado de ansiedade.
Mas eu não tenho que atravessar florestas infestadas de cobras e estou sofrendo por estar ansioso! Ok, ok, é verdade que as cobras não são a preocupação do meio urbano, porém, há inúmeros perigos que nos rondam, como assaltos e acidentes de trânsito. Então, não temos saída? O nosso destino é sofrer de ansiedade até o final da vida? Sentir ansiedade frente ao possível perigo é saudável, porém, na maior parte das vezes que padecemos dela estamos confortáveis e seguros. Apenas pensar no fato que podemos estar doentes já pode ser um gatilho para despertar a ansiedade de muita gente (quem nunca?). A nossa mente subverte a realidade e transforma a preocupação de algo que possa vir a acontecer como algo iminente ou já concretizado. Desta forma, o pensamento é o gatilho, não a realidade.
Conhecer-se é crucial para lidar com os próprios medos, com a ansiedade. Apenas entendendo melhor a dinâmica de seus pensamentos você será capaz de antecipar-se às armadilhas que a mente pode pregar. Frente a situações conflituosas e incertas o centro emocional do cérebro tende a sequestrar o raciocínio e a suposta ameaça torna-se um labirinto mental sem saída. Moldamos todo o universo, criamos muros, celas e catástrofes antes mesmo de conhecer a realidade e o mundo torna-se um lugar medonho por causa das próprias sombras que cultivamos em nossas mentes. A ansiedade é inevitável, ela virá, mas podemos reconhecer a sua validade, desde que questionemos a veracidade e a magnitude de nossas preocupações ou podemos perder-nos nos labirintos intermináveis que a mente pode criar.
Psicólogo Pietro Olivetti