12/08/2026
Quando é uma paciente pré-cirúrgica, eu pego o prontuário inteiro, com tudo que ela me contou naquela hora, e volto a estudar aquilo em casa. Uso inteligência artificial nessa etapa. Passei meses ajustando o sistema pra raciocinar do jeito que eu raciocino, e hoje ele me devolve o caso destrinchado: o fenótipo daquela paciente, sinais de ativação mastocitária (as células que espalham inflamação pelo corpo inteiro), o que precisa entrar de nutrição, de fisioterapia pélvica, de manejo de dor, quais suplementos fazem sentido pra aquele quadro e não pra qualquer quadro.
Aí eu comparo com a conduta que a equipe já tinha traçado. Na maior parte das vezes bate certinho. Quando não bate, melhor ainda, porque me obriga a olhar de novo.
E nada disso substitui decisão médica. A máquina não examina ninguém, não opera ninguém, não decide nada. Ela me faz pensar mais rápido e por mais ângulos do que eu conseguiria sozinho numa noite.
O que chega pra paciente uma semana depois são oito páginas sobre o caso dela. A reação costuma ser a mesma: “então o senhor levou o meu caso pra casa e estudou”.
Levei. E não fui só eu. Aquele documento carrega o raciocínio do grupo inteiro.
Quem chega até aqui normalmente passou anos ouvindo que era normal, que era cólica, que era da cabeça dela. Ver o próprio caso escrito por inteiro muda alguma coisa. Não é sobre tecnologia. É sobre não ser tratada como mais uma.
Manda pra alguém que ainda está esperando ser levada a sério.