05/03/2026
Dia 8 de março. Aquele gosto amargo do dia da mulher que se aproxima.
Não vou te dar os parabéns.
Não que vocês não mereçam, meramente por estar viva no país que mais mata mulheres no mundo.
Vou falar da gente.
Muito cedo na minha vida eu entendi uma coisa: sendo mulher, não bastava fazer tudo direitinho. Era preciso performar.
Precisava ser competente, mas sem incomodar.
Precisava ser firme, mas sem ameaçar.
Precisava ser inteligente, mas gentil o suficiente para que ninguém se sentisse diminuído pela minha presença.
Negociar com homens, pessoas mais velhas e em posições de poder.
Gerenciar expectativas emocionais que não são minhas.
Cuidar para que o meu crescimento ou as minhas idéias não fossem interpretadas como afronta.
Precisava ter uma carreira, mas não poderia perder muito tempo investindo nela, se quisesse ter filhos.
E foi assim que ”fazer a minha carreira acontecer” se tornou urgente.
O ano de 2023, foi ano do meu primeiro esgotamento mental.
Além de tudo ser responsável por cuidar da casa, da família e outras "mil"coisas.
E de repente, a carga emocional da organização da vida, da casa, das expectativas caiu inteiramente sobre mim.
Isso sem falar na cobrança para ser mãe...já imagino a carga emocional que maternar exige!
Você precisa de estabilidade financeira.
Mas passa a querer tempo.
Presença.
Estar na festinha da escola.
Dar colo quando eles machucam o joelho.
Ouvir as histórias do dia quando eles chegam em casa.
E tomara que você queira, porque vai ter que fazer, de um jeito ou de outro.
E, ao mesmo tempo, continuar sendo excelente no que faz.
A pandemia deixou isso escancarado.
A expatriação só confirmou: o cuidado, quase sempre, recai sobre a mulher.
E o mundo acha isso perfeitamente normal.
Quem não acha são as feministas, que acham que são loucas, mas que de loucas não tem nada!
Essas mesmas que vão se irritar quando receberem uma “homenagem” brega no domingo.
E foi aí que eu entendi que flexibilidade não é luxo.
É estratégia de sobrevivência para as mulheres, sejam elas mães ou não.
Pelo menos para nós, mulheres.
Ter competências.
Ter repertório.
Ter autonomia financeira
Ter uma carreira que te permita se reinventar.
É proteção contra o trator que está prontinho pra passar por cima de você, se você resolver parar para respirar.
Ser “nômade digital” não é glamour, é um jeito de se virar, enquanto faz escolhas que são “o melhor para todos”.
É sobre não sucumbir a um sistema onde ser mulher, ser mãe, ter dinheiro e ainda ser bem-sucedida não podem existir na mesma frase.
Quando eu olho para as minhas pacientes eu vejo exatamente isso.
Mulheres batalhadoras. Éticas. Comprometidas. Em sua maioria, mães.
Que querem respeito, reconhecimento profissional.
Querem fazer diferença na vida das pessoas.
Querem estabilidade, conforto financeiro.
Mas também querem estar presentes na própria vida.
Mulheres que estão construindo carreiras sólidas, ajudando outras mulheres, cuidando de famílias, formando novas gerações de profissionais.
Tudo ao mesmo tempo, enquanto assistem aulas no final de semana, na esteira da academia ou enquanto levam os filhos ao dentista.
Ser uma mulher feliz, realizada, que trabalha, que constrói e que melhora a vida de outras pessoas é um ato de resistência.
E o que eu desejo para você, para mim, para minhas pacientes e todas as mulheres do mundo, é que um dia a gente possa apenas ser. E descansar.
Confesso que tenho pouca esperança de viver para ver.
Apesar de tudo, seguimos.
Estudando.
Trabalhando.
Criando filhos conscientes.
Fazendo ciência.
Cuidando.
Pelo menos, seguimos juntas.
Tira uns 5 minutinhos pra tomar seu café bem quentinho. Pelo menos hoje.
Um abraço apertado,
Keli