26/01/2026
O EJÓ
Ejò, em iorubá, é cobra. Não é fofoca. A tradução moral veio depois, colada como rótulo injusto, desses que a humanidade inventa para aliviar a própria culpa. Porque, convenhamos, que tipo de fofoca uma cobra faria? Cobra não tem tempo. Cobra vive escondida, em estado permanente de alerta, fugindo de humanos, de predadores, da ignorância alheia. Cobra sobrevive. Não intriga.
Mesmo quando se fala em veneno, a injustiça permanece. Nem toda cobra é peçonhenta. Mas toda fofoca, essa sim, carrega algum tipo de toxina.
Nos terreiros — e fora deles também — Ejò virou sinônimo de fofoca. E fofoca ali não é coisa pequena. Às vezes começa inocente, mas quase nunca termina assim. Cresce, incha, ganha pernas, braços, intenções que nunca existiram. Vira bola de neve, dessas que descem a montanha esmagando reputações, histórias, corpos.
O mais curioso é que a fofoca raramente é confrontada. Nem toda pessoa vítima de Ejò chega e diz: “Olha, eu soube que você disse isso de mim. Que história é essa?” Porque a fofoca também produz medo, constrangimento, isolamento. Ela age no silêncio.
Já vi situações verdadeiramente esdrúxulas. Alguém jurar que outra pessoa estava dançando em outro terreiro, quando essa mesma pessoa estava de muletas havia uma semana. Não podia andar, quanto mais dançar. Mas a fofoca não precisa de coerência. Ela só precisa de circulação.
E quem começa nunca é tão inocente assim. Nunca. A fofoca sempre vem precedida de um rito bem conhecido: “Não conta pra ninguém, hein? Só você sabe.” Nesse exato momento, o estádio inteiro do Maracanã já está sabendo. A torcida organizada, os camarotes, a geral.
Às vezes, a fofoca não mata. Mas maltrata. E às vezes mata, sim — simbolicamente, socialmente, economicamente.
Há muitos anos disseram que eu era bailarina do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Não sou bailarina. Nunca fui. E, se fosse, talvez fosse mais fácil dizer isso em São Paulo. Ou em Salvador. Depois virei “a moça sueca do Opô Afonjá”. Tenho profundo respeito pela Escandinávia, mas nenhuma ancestralidade próxima que eu saiba.
Essas são fofocas quase risíveis. Outras não são. O pior é atribuirem a você gestos indignos: jogar comida na cara de alguém, estar no alto do morro às três da manhã com outra pessoa, fazer o que não fez, ser o que não é. Aí o Ejò deixa de ser anedota e vira arma.
Não é à toa que a fofoca atravessa as grandes tragédias da humanidade. Está em Sófocles, em Ésquilo, em Shakespeare. Quantos crimes foram motivados por palavras sopradas, distorcidas, maldosamente repetidas? Quantas vidas foram atravessadas por algo que jamais aconteceu?
Em Terra Nostra, uma personagem teve a reputação destruída porque lhe atribuíram ser anarquista. Resultado: não conseguia mais emprego. Uma palavra bastou. Uma mentira organizada como verdade.
Por isso, que o Ejò — o da fofoca, não a cobra — vá para a tonga da mironga do cabuletê, junto com seus fofoqueiros de plantão.
A cobra que rasteja merece respeito. A língua que rasteja, não. O verdadeiro veneno não está nos dentes da cobra. Está na boca de quem fala sem ética.
Crédito
Iyá Cleo Agbeni Martins