26/05/2026
A alquimia da contrição
Custos e ganhos para a Igreja e o Norte Global no pedido de perdão pela escravização
Os pedidos de perdão contemporâneos das potências do Norte operam como mecanismo de "reciclagem moral do capital". Ao transformarem um crime em pendência de narrativa resolvida pela retórica, os Estados modernos buscam a absolvição no presente para proteger os ativos herdados no passado. O verdadeiro reconhecimento não está na capacidade de chorar sobre o passado, mas aceitar que a justiça histórica exige a reconfiguração das diferenças econômicas que o hemisfério Norte ainda opera sobre o Sul global hoje.
Países como Holanda, Bélgica, Dinamarca e Reino Unido evitam a palavra "perdão" para não se comprometerem legalmente com obrigações de ressarcimento, mas pelo menos já lamentaram publicamente a violência sofrida pelos escravizados. Enquanto Portugal e Espanha ocupam uma posição única e altamente complexa nesse debate, sendo as duas potências pioneiras e as maiores responsáveis pelo início do tráfico transatlântico e pela colonização das Américas, a postura de seus governos tem sido resistente a pedidos formais de perdão.
O que existe nesses dois países é uma profunda tensão entre o orgulho nacional de seu passado de "navegações e descobrimentos" e a pressão geopolítica moderna por reparação histórica. Em Portugal houve o reconhecimento e a defesa do pedido de perdão pelo Chefe de Estado (o Presidente), mas isso não se traduziu em uma lei, decreto ou pedido oficial do Governo (o Executivo), permanecendo como uma fratura aberta na política lusitana.
No argumento do anacronismo (Usado por Madrid e Lisboa), a justificativa de que "não se pode julgar o passado com a moral do presente" falha ao ignorar que, mesmo nos séculos XVI e XVII, já existiam vozes teológicas e jurídicas internas (como Bartolomé de las Casas na Espanha ou o Padre Antônio Vieira em Portugal) denunciando a brutalidade da escravidão como um pecado contra a dignidade humana. O Estado sabendo do crime na época optou pelo lucro.
Portugal e Espanha não conseguem pedir perdão porque suas identidades nacionais modernas são psicologicamente dependentes do mito da "Era dos Descobrimentos". Para a Holanda ou o Reino Unido (impérios mercantis pragmáticos), a colônia era um balanço contábil; admitir o erro é apenas recalcular o custo reputacional da marca do Estado. Para a Península Ibérica, a colonização foi uma missão mística e civilizatória. Pedir perdão, para Madrid ou Lisboa, não é apenas um ato jurídico de reparação; é desmontar o próprio espelho onde guardam sua grandeza histórica e admitir que a fundação da sua modernidade foi o sepulcro do outro.
E para a Igreja? Qual o custo e o ganho em pedir perdão e reconhecer o apoio dado à escravidão?
Para a Igreja Católica, o cálculo que envolve o pedido de perdão pela escravidão — consolidado pelo Papa na encíclica Magnifica Humanitas — não se mede pela régua dos Estados-nação. A Igreja não é uma corporação de responsabilidade limitada que teme a falência por processos indenizatórios, nem um país cuja identidade dependa de fronteiras ou de um PIB herdado do período colonial.
O custo e o ganho para a Santa Sé operam em uma dimensão puramente teológica, reputacional e geopolítica, inserida em uma das maiores transformações demográficas da sua história de dois milênios. Embora o Papa não corra o risco de ver o Banco do Vaticano expropriado para pagar reparações aos descendentes de escravizados, o gesto cobra preços simbólicos e institucionais altíssimos.
Para a mentalidade católica mais tradicionalista, um pedido de perdão dessa magnitude arranha a percepção de continuidade e estabilidade da Igreja. No passado, bulas papais como a Dum Diversas (1452) e a Romanus Pontifex (1455) deram explicitamente aos reis de Portugal o direito de "reduzir à servidão perpétua" os povos conquistados.
Admitir que o Magistério legitimou um "crime contra a humanidade" gera um desconforto teológico profundo: se a Igreja errou de forma tão estrutural em sua moral social por séculos, como sustentar sua autoridade espiritual inabalável no presente? O custo aqui é o tensionamento da própria coerência histórica da instituição.
O pedido de perdão alimenta a guerra cultural interna da Igreja. Setores conservadores europeus e norte-americanos enxergam gestos como esse como uma "capitulação à agenda woke" ou ao revisionismo histórico ocidental. O custo político para o Papa é o aprofundamento do abismo entre a ala progressista/pastoral e o clero tradicionalista, que argumenta que a Igreja está sendo julgada de forma injusta e anacrônica.
Se os custos são doutrinários e internos, os ganhos são estratégicos e vitais para o futuro do catolicismo. A Igreja está jogando um xadrez de longo prazo. O catolicismo europeu está em declínio acentuado, envelhecido e esvaziado. O coração pulsante, demográfico e vibrante da Igreja hoje está na África e na América Latina (o Sul Global).
Para um fiel em Angola, na Nigéria ou no Brasil, a cumplicidade histórica da Igreja com o colonialismo e o racismo estrutural não é um debate acadêmico, é uma cicatriz social. Ao pedir perdão, a Santa Sé limpa o terreno espiritual e remove o principal argumento intelectual utilizado por movimentos decoloniais e por religiões concorrentes (como o neopentecostalismo ou o islamismo em expansão na África) que acusam o catolicismo de ser "a religião do colonizador".
Ao contrário de Portugal e Espanha, que estão presos às suas narrativas nacionais, a Igreja é transnacional. Pedir perdão permite à Santa Sé se descolar do imperialismo do hemisfério Norte. A Igreja se posiciona não como cúmplice das potências coloniais, mas como uma instituição que reconhece seus pecados humanos para poder atuar como árbitra moral global nas crises de refugiados, na desigualdade econômica e nas mudanças climáticas.
O ganho supera o custo porque a estrutura eclesial possui uma tecnologia psicológica que os Estados não têm: a teologia do pecado e da redenção. Para a Holanda ou o Reino Unido, admitir a culpa é um perigo jurídico, pois o Estado é a própria continuidade da lei que lucrou com o crime. Para a Igreja, admitir o pecado é a própria premissa da sua existência pois a Igreja se divide teologicamente em duas: a Igreja Santa (divina, mística e infalível) e os seus membros humanos (falhos e pecadores).
O grande "truque" institucional do perdão papal é que ele culpa os homens da Igreja do passado para salvar a instituição da Igreja no presente. A Santa Sé ganha capital moral ao se humilhar, transformando a contrição em uma demonstração de superioridade ética que nenhum Estado do Norte consegue imitar.
Enquanto os Estados do Norte lutam para não pagar suas dívidas históricas e a Península Ibérica se recusa a quebrar seu espelho mítico, a Igreja Católica realiza uma manobra de alquimia institucional perfeita.
A dor é real, mas ela é canalizada para a renovação da própria instituição. Ao pedir perdão, ela não está se desculpando perante a história, ela está reivindicando a propriedade da própria história. Ao transformar a cumplicidade na escravidão em um "pecado superado pela graça", a Igreja consegue a proeza de converter o maior horror da modernidade em combustível para a sua própria renovação espiritual, garantindo que, mesmo quando os impérios europeus colapsarem sob o peso de suas heranças materiais, a cruz permaneça de pé sobre o solo do Sul Global, rebatizada como o símbolo dos oprimidos que ela mesma ajudou a acorrentar.