06/01/2022
O PESO DE UMA HERANÇA
Tem um texto de Peer Gynt onde Peer pede ao marinheiro para distribuir toda sua fortuna em partes iguais entre os escravos libertos e marinheiros da tripulação. O marinheiro pergunta-lhe a Peer: não tens medo de que eu fique com o ouro todo só para mim? Eis que Peer responde: Não, mas você deveria ter medo, muito medo- de ficar com todo esse ouro só pra você.
O autor me faz lembrar do lado nefasto do que é simplesmente recebido, onde não há trabalho e esforço próprio daquele que receberá. Não raro o que se recebe sem esforço, se gasta também sem esforços. Gastar também exige esforço, preciso planejar, priorizar, me equilibrar nessa contabilidade pessoal.
O que muda receber uma herança? Ou mesmo, saber que se receberá uma herança. Conheço pessoas que o ‘peso’ dessa notícia e a vivência paralisou seus dotes profissionais. É bem sabida a história de alguns netos que passaram suas vidas simplesmente gastando a herança e bens de seus avós, (é como um gráfico que sobe e desce), avós que sofreram economicamente muito, acumularam bens, tiveram filhos que ‘herdaram’ toda esta história, e assumiram um desejo inconsciente já dos pais, gostam de ‘gastar’ (seus pais já desejavam, mas não faziam). Até que os pais estejam vivos vivem à sombra da rigidez dos pais, algumas vezes basta a morte de algum deles, para que este desejo fique mais claro.
Interessante também o discurso de alguns pais: ‘Construi tudo isso para você, é tudo seu, você que cuidará.” Há subjacente uma ideia de que se precisa construir algo pelo filho, passa-se a ideia de um filho fraco, que só teria agora que continuar o que o Pai escolheu. Não a toa, que alguns de fato, não desenvolvem a força necessária para manter os negócios familiares.
Mas o que gostaria de resumir, é que uma herança MUITO esperada, é uma herança daninha, pois soa como, ‘já tenho, posso relaxar’, garantia de um futuro fracassado, já que é justamente a consciência do incerto que nos movimenta a colocar o pão de cada dia na mesa. Nesse sentido a herança é um peso. Pode não sê-la, e pode-se inclusive contar com ela, mas não como algo que substitua minha necessidade de construir todo tipo de riquezas (não falo só de bens materiais) pelo mundo afora.
Para pensar:
- Quaisquer coisas que recebemos, é importante retroalimentar, virar outra coisa, enquanto nossa construção.
- Pago um preço por tudo que usufruo, até de uma herança, não espere nada gratuito.
- Quem só quer receber, logo terá que pagar muito! Você tem ‘caixa emocional e financeiro’ para isso?
- Se sua vida estiver muito em paz (já tenho a herança que sempre quis) desconfie! Algo está errado.
- Lembre do que Peer disse: não guarde toda sua riqueza para você, ainda mais diante de uma miséria. Compartilhe sua maior riqueza, é a maneira mais certeira de não empobrecer! (Juliane Varaschin)