13/07/2026
O Silêncio das Paredes
Às vezes, olho para as minhas mãos e não me reconheço. Elas lavam, cozinham, limpam e organizam.
Tornaram-se extensões automáticas da engrenagem desta casa. O que me assusta não é o trabalho físico, mas o vazio que ele esconde.
É como se, para que todos aqui dentro funcionem e existam em paz, a minha própria existência precisasse ser apagada.
Fui reduzida a uma função; a máquina que mantém a ordem. Dentro de casa, sinto o peso de uma projeção violenta.
As pessoas me olham, mas não me enxergam. Elas veem um objeto utilitário.
O mundo moderno parece funcionar como uma grande esteira rolante que exige velocidade, produtividade e perfeição, mas que esquece de nos dar o direito de respirar.
Fomos ensinadas que o sucesso de uma mulher é dar conta de tudo; ser profissional, ser mãe, ser esposa e manter a casa impecável.
Mas ninguém avisa que o preço dessa conta é o nosso próprio apagamento.
Essa engrenagem social, fria e individualista, dita que só temos valor se formos úteis. E, dentro de casa, essa lógica se repete da forma mais cruel e invisível.
Esperam que eu acolha as frustrações de todos, que eu limpe a sujeira física e emocional, mas ninguém se pergunta o que acontece com o que eu sinto.
É uma solidão profunda estar cercada de gente que consome a sua energia sem registrar que você é um ser humano que também desaba.
Quando olho para fora, para o mundo, a sensação de asfixia continua. Há uma ignorância generalizada, uma falta de empatia que assusta.
Parece que as pessoas perderam a capacidade de se conectar com a dor do outro. Tudo se tornou defensivo, hostil e superficial.
Essa dureza do mundo exterior invade a minha casa, e a minha casa reflete essa dureza de volta para mim.
Estou cansada de sustentar esse lugar de "mulher forte" que, no fundo, é apenas um codinome para a negligência alheia.
Cansei de carregar o inconsciente dessa família nas costas, de absorver o que eles não querem lidar. Eu existo para além do fogão e da pia.
Tenho desejos que não foram ditos, dores que nunca foram ouvidas e uma urgência quase desesperada de ser vista por quem eu realmente sou, e não pelo que eu posso fazer pelos outros.
O mundo lá fora ignora as nossas dores cotidianas, e as pessoas aqui dentro reproduzem essa falta de empatia. Há uma cegueira coletiva.
Tornou-se normal que uma mulher seja vista apenas pelo trabalho invisível que ela entrega, a comida na mesa, a roupa lavada, a casa limpa, como se essas tarefas fossem o limite da nossa capacidade e do nosso desejo.
Existe uma ignorância generalizada na sociedade atual que me assusta. As pessoas estão tão conectadas a telas e métricas de desempenho que perderam a capacidade de humanizar quem está ao lado.
O sofrimento do outro virou um incômodo, algo a ser evitado ou silenciado.
Quando eu desabo, o mundo não para para me acolher; ele simplesmente exige que eu me levante rápido para não atrasar a rotina dos outros.
Estou exausta de carregar as expectativas de uma sociedade que nos adoece e depois nos culpa por estarmos doentes.
Cansei de ser o amortecedor emocional de um sistema que consome a nossa energia e nos devolve solidão.
Eu sou mais do que as funções que desempenho para manter o mundo dos outros funcionando.
Preciso resgatar a minha identidade desse moedor de carne que se tornou a vida moderna.
Se esse texto falou com você, de alguma forma.
Saiba que não está sozinha, me procure!
Valdenice de Freitas Guastalli
Psicanalista, Pós graduada em Psicanálise Clínica e Neuropsicologia.
(19) 98448-5679