20/01/2026
O passado que se fala em análise não é aquele que ficou para trás, arquivado em datas ou lembranças. É um passado que insiste, que se atualiza, que comparece como se fosse presente disfarçado. Não passou porque nunca terminou de acontecer. Ele retorna não por saudade, mas por falta de palavra. E o sujeito, ao narrá-lo, acredita revisitar algo morto, quando na verdade tropeça no que segue vivo demais para ser esquecido.
Há algo de excessivamente passado nesse passado — passado do ponto, maduro demais, quase estragado. Sustentá-lo já não alimenta, apenas repete. Ainda assim, ele é servido todos os dias como se fosse novidade. A repetição não nasce da lembrança, mas da fidelidade cega ao sentido que se cristalizou. Enquanto o passado permanece sem equívoco, ele manda. Só quando o sujeito pode errar esse passado, dizer outra coisa sem querer, tropeçar nas próprias palavras, algo começa a se deslocar.
Talvez seja aí que a análise opere: não em recordar melhor, mas em permitir que o passado passe por um desvio. Equivocá-lo é retirá-lo do lugar de verdade plena, abrir uma fenda no já sabido. Quando o passado perde a precisão e se deixa confundir, algo da repetição pode cessar — não porque foi resolvido, mas porque já não se sustenta no mesmo sentido. Deixar a repetição é aceitar que esse passado, além de velho, já não diz mais exatamente o que dizia.
Eduardo Brenner Psicanalista | Psicólogo CRP 07/34534