21/04/2026
Na horta do quintal,
não é apenas terra,
é um pequeno mundo
onde o invisível cria raízes.
Os aracuãs chegam
como mensageiros antigos,
filhos do instinto,
portadores de uma lei
que não foi escrita por mãos humanas.
Pisam as folhas largas,
tocam os brotos ainda frágeis,
e algo em nós se inquieta,
não pela perda apenas,
mas pelo abalo silencioso
da ideia de posse.
Não há guerra,
mas tampouco repouso inteiro.
Entre o encanto e o incômodo,
sustentamos o olhar
diante daqueles que vêm
em busca de alimento
num mundo de concreto erguido por nós.
Eles, confiantes, não pedem,
não hesitam, não conhecem o excesso de consciência.
Vivem no centro exato da necessidade, onde o desejo não se separou da vida.
E nós, à margem,
com nossas ferramentas e planos, sentimos vacilar, por instantes, o contorno do que chamamos nosso.
Somos convocados a assistir
a um rito antigo,
o encontro entre cultivo e instinto, entre o eu que organiza e o mundo que simplesmente é.
Os aracuãs comem
como quem reza com o corpo,
como quem recorda à terra
que ela não pertence,
e talvez nunca tenha pertencido.
Em suas asas curtas,
trazem um recado do Self,
aquilo que cresce
não se submete por inteiro.
E assim, na perda miúda dos frutos, algo maior se impõe,
não como co***lo,
mas como verdade difícil,
a de que partilhar não é escolha, é condição.
E que nós, ainda aprendizes,
habitamos apenas uma borda
dessa abundância indomada.
🙏🦋🌹
Rubem Paz, Psicólogo – CRP 07/21661, Analista Junguiano, membro do IJRS e AJB, bem como da International Association for Analytical Psychology (IAAP) – (Zurique/Suíça) e Agricultor Familiar Orgânico
Atendimentos on-line e presencial, consultório sito Av Getúlio Vargas, 1157, Conjunto 1310, Menino Deus, Porto Alegre, RS
watts 051995268858