Eduardo Kives

Eduardo Kives Psicólogo. Mestrado e Especialização pela Universidade Paris-Diderot Sorbonne Paris Cité
Atendimentos online e presencial (agenda aberta)

Achei muito interessante esta descoberta, de que, no caractere chinês que signif**a ‘bom’, estão contidos os caracteres ...
09/05/2026

Achei muito interessante esta descoberta, de que, no caractere chinês que signif**a ‘bom’, estão contidos os caracteres ‘mulher’ e ‘filho’.

Principalmente, porque retira a relação mãe-filho do terreno do Bem e do Mal.
Coloca-a no terreno do “bom” e do “ruim”, e, assim fazendo, liberta-a de uma transcendência e de um peso que podem ser sufocantes.

O “bom” e o “ruim”, ao não serem categorias Absolutas, ao que me parece fornecem condições melhores para se pensar a escrita e reescrita da relação mãe-filho ao longo de uma vida.

‘Mulher’ e ‘filho’, esses caracteres precisam dançar… girar, contorcer, se inverter, tremer, se apagar, aumentar ou diminuir de tamanho (Andrade, p. 186).

Dançar para suportar o Amor, e também o Horror, por mais que este fique excluído das “versões oficiais”.

“Horror” pode ser uma palavra que, para além de seu signif**ado, ela própria assuste, dê medo. Mas queria que ela constasse em minha homenagem do dia das mães.

“Horror” conta como tudo aquilo que não é um conto de fadas, mas que representa uma dimensão importante a ser suportada, de alguma maneira, nesta relação fundamental.

Concebamos duas abordagens possíveis.Poderia haver um analista que se orientasse pela ideia da responsabilidade individu...
07/05/2026

Concebamos duas abordagens possíveis.

Poderia haver um analista que se orientasse pela ideia da responsabilidade individual: “Não me fale tanto de Deus, de Eva - e muito menos da serpente -, o que me interessa é você, e a sua responsabilidade na falta que cometeste”

Outro analista deixaria Adão falar, tanto de Eva como de Deus.

Por quê?

Quem sabe, falando dos outros, ele pudesse lançar alguma luz sobre suas questões, digamos, com a figura feminina (ele desdenha as mulheres, ou gostaria de fazer como elas?) ou com a autoridade de Deus-pai (esse todo-poderoso pai que não estaria impedido de comer a maçã).

Aqui, a responsabilidade não é um fim a ser buscado. Ela é, no máximo, um efeito possível, uma das figuras da “implicação”, porém não é a única chave de leitura para o ato de comer a maçã.

Quantos outros participam do ato enigmático de comer a maçã, para além do Eu individual de Adão?

Ao falar dos outros, Adão poderia situar sua posição simbólica em meio aos vários personagens de sua história. Assim, ele avançaria alguma resposta para o buraco no saber anunciado em seu “Ora bolas, por que fiz isto !?”.

Talvez o sentido do ato não se fixasse mais tanto na culpa, talvez seus sintomas cessassem, ou pelo menos se transformassem em algo mais “feliz”, talvez seu sofrimento diminuísse, talvez ele fizesse a aposta, se autorizasse a ser - um pouco - outro. Efeitos de uma análise…

(Obs: tudo isto não seria possível se ele fosse impedido de falar livremente dos outros, como se, ao fazê-lo, ele estivesse fugindo de sua responsabilidade, e fugindo de si).

Chegar em si através de si é algo rotineiro.
Chegar em si através dos outros: não seria isto algo que se busque em uma análise?

Um discurso que é só sobre si tem a secura do ar do deserto. Outro alguém, ali, poderia ser um oásis.

05/05/2026
Algumas passagens de Kafka valem mais como imagem. E se se trata de uma imagem de composição difícil, paradoxal, e, às v...
30/04/2026

Algumas passagens de Kafka valem mais como imagem.
E se se trata de uma imagem de composição difícil, paradoxal, e, às vezes, impossível, isto se dá porque ela traz em si algo capaz de se colocar como enigma.

Um sujeito cujo caminhar se apóia exclusivamente em sua própria imagem, em seu Eu, não guardaria um parentesco com aquele sujeito que se coloca em relação aos outros de tal maneira a sustentar o mundo inteiro com seus pés (com seu Eu)?

Eu não gostaria de esgotar a leitura desta imagem de Kafka nessa ideia de um sujeito que se sacrif**a (apesar de, na “versão oficial”, isto se dar pelos outros, ou por uma Causa…) em um altar que adora sua própria imagem.

A figura de Kafka me parece mais “universal” do que esta leitura específ**a.

Um caminhar que se apóia exclusivamente sobre o reflexo da própria imagem do sujeito é a condição de um tipo de sofrimento, é aquilo que cria a tarefa devastadora de sustentar o mundo todo com os seus pés.

Outra coisa seria pensar em como criar um mundo, e em como criar modos de se apoiar nesse mundo, modos que ultrapassem o fascínio pelo próprio reflexo, e que impeçam o sujeito de fazer como Narciso, que, no mito, mergulhou - para não voltar - nas águas densas de sua própria imagem.

Beatlemania, uma mania, uma efervescência, um feitiço. Quantos os Beatles não enfeitiçaram?Será que já estamos falando d...
20/04/2026

Beatlemania, uma mania, uma efervescência, um feitiço. Quantos os Beatles não enfeitiçaram?

Será que já estamos falando de um outro mundo?
Todavia, ainda há muitos que provaram deste néctar.

Eu achava até engraçado, eu gostar de Beatles quando criança, quando não entendia inglês.
Depois vim a pensar: “esta é a magia dos Beatles, pois mesmo quem não entende inglês, se apaixona”.
Uma crítica materialista a esta ideia seria: “certo, mas desde que ‘magia’ não se refira apenas à música, ‘magia’ quer dizer também que a língua inglesa domina o mundo”.
Está bem, mas mesmo assim. Não basta compreender o sucesso dos Beatles apenas a partir do fato de que falavam a língua de Roma. E que aqueles que não entendiam inglês estão em um simples caso de fazer “em Roma, como os romanos”.

Faço a hipótese de que, para muitas pessoas que não entendiam inglês, a coisa não funcionou simplesmente assim: a magia dos Beatles era tão forte, que enfeitiçava até quem não falava inglês.
Não. Minha hipótese é o contrário: Para quem não entendia inglês, a música dos Beatles poderia se colocar em um registro muito mais afetivo, sonoro, profundo.
É como se, em um nível cultural, os Beatles possam ter nos oferecido uma segunda língua materna, ou, até, de certa maneira, um retorno à língua materna.
Talvez, por cantarem em inglês isso tenha ajudado. Ajudado na tarefa universal da música de ser uma linguagem que ultrapasse a letra morta da comunicação ordinária. Nessa tarefa, a não compreensão da língua poderia funcionar como já ter uma barreira vencida.

A não compreensão do inglês teria favorecido a que a música dos Beatles pudesse ter se preservado neste espaço sonoro de uma língua que não se compreende, mas que, no entanto, nos toca profundamente. E que nos tocou, marcou, inclusive em uma condição anterior, quando ainda éramos crianças, bebês.

Seria muito estranho que alguém encontrasse, em uma língua estrangeira, algo que o embalasse, um novo familiar, algo que remetesse às profundezas de sua condição inicial na linguagem?

(A música do post, “We Are The World”, é uma homenagem ao nacionalmente famoso “Iarnuou”, de Solange no BBB4).

Eu escutei essa palavra, ‘dono’, “quem é o dono deste cão?”, um cachorro que ia pela praia, talvez, se não me engano, e ...
14/04/2026

Eu escutei essa palavra, ‘dono’, “quem é o dono deste cão?”, um cachorro que ia pela praia, talvez, se não me engano, e me deparei com um novo estranhamento frente a uma palavra antiga.

“Um cão se parece com seu dono”. Será?
No passado, acho que eu tinha um viés “projetista”: o dono projeta algo de si em seu animal. O animal é, de certa forma, a loucura de seu dono, o que me fazia pensar no estado de impotência e dependência daqueles pequenos seres humanos que ainda não falam. Com isso, eu me distanciava.

Aí, com o tempo, e a este respeito, o social mudou. Eu também.

Mudou. Assim como o pai deixou de ser dono dos filhos, e o homem, ser dono da mulher. O que não foi desde sempre absurdo.

O cão, o gato, dito de forma mais geral, o “pet”, foi incluído no conceito de família.

E se a família segue sendo, em nossa cultura, uma importante unidade produtora de sentido, nessa reconstituição da história particular de alguém que é a terapia haverá tendencialmente cada vez mais “pets”.

Tanto se cogitou que o que lançaria a psicologia para além do humano poderia ser algo como a algoritmização da vida, a transposição da consciência para além do corpo biológico, ou nossa fusão com as máquinas… O transumanismo alçou altos vôos para conjecturar sobre esta fronteira.

Porém ninguém viu virem os “pets”, pioneiros em reconfigurar a família humana para além do humano.

A pista definitivamente não estava nas máquinas.
Um grande filósofo, Descartes, considerava os animais como mecanismos autômatos - e não viu nada!

Nada da riqueza que pode ser encontrada na convivência com formas de vida não-humanas.

“Sobretudo elaEla que me faz um navegador”- Gil
06/04/2026

“Sobretudo ela
Ela que me faz um navegador”
- Gil

Há algum tempo eu vinha tempo refletindo sobre a importância de ajudar o paciente a se sensibilizar em relação a sua pró...
01/04/2026

Há algum tempo eu vinha tempo refletindo sobre a importância de ajudar o paciente a se sensibilizar em relação a sua própria história.
Em alguns casos, esta sensibilização me pareceu fundamental.
Hierarquicamente mais importante.
Às vezes, a única maneira de se abrir uma porta, através da qual um sentido pudesse ser sentido.
“Um sentido sentido”: outra fórmula do encontro?

E então hoje, para os judeus, é Pessach, que celebra a libertação da escravidão no Egito. Me dou conta de que uma das características principais de Pessach é, justamente, a sensibilização.

Sensibilização é algo distinto do mero lembrar, do mero relatar. A saída do Egito é lembrada, por exemplo, na benção semanal do vinho, feita todo Shabat. Mas Pessach dá um passo a mais: mobiliza potências mais profundas.

Cito, a respeito, Moacir Sclyar (“Um Seder para os nossos dias”):

“(…) a narrativa do Êxodo. Dela, o que é lenda? O que é História?
Impossível saber. Na poeira do tempo confunde-se fantasia e realidade, fato e imaginação.
Não importa, porém. Não é o fato histórico que conta, mas sim a lição que dele se extrai.
Como diz o Seder: “Em toda geração deve o homem considerar como se tivesse saído do Egito”. Neste, como está sintetizada toda a gama de possibilidades que a tradição, mais que o frio relato dos acontecimentos, proporciona aos seres humanos.
A possibilidade de evocarmos, por uma noite que seja, o terror da escravidão.
A possibilidade de vivermos, por uma noite que seja, a glória da libertação.”

Li este texto de Scliar apenas depois de seu falecimento, e também anos depois de outro episódio, quando, em minha juventude, fui, em Porto Alegre, assistir a uma palestra do grande escritor.

Eu esperava uma lição de literatura, só que Sclyar deixou a literatura de lado naquele dia, e, por duas horas, mostrou imagens e falou, daquela maneira que só ele, sobre a fome, uma entre tantas outras formas modernas de escravidão.

Me toca esta capacidade de Scliar, de não apenas ministrar lições como um professor qualquer, mas, ao invés disso, encontrar uma forma de habilitar, instigar e até autorizar seu interlocutor a extrai-las. Obrigado.

“Psicanálise demora demais”.Pode ser. Principalmente se a psicanálise se fundamenta em uma renúncia em vender a felicida...
18/03/2026

“Psicanálise demora demais”.

Pode ser. Principalmente se a psicanálise se fundamenta em uma renúncia em vender a felicidade, e em vendê-la de forma rápida.

Outra possibilidade explicativa é esta: a psicanálise “respeita” o sintoma. É o mesmo que dizer que o trabalho com os sintomas de alguém exige cuidado. Porque, se vivemos através dos sintomas, e não apesar deles, pode ser imprudente sair apressadamente chutando o pau da barraca, chutando aquilo que, apesar de não estar funcionando muito bem, é provavelmente o melhor que o sujeito pôde fazer até então, é aquilo com que ele conseguiu chegar até ali – ao invés de entregar os pontos.
..

Mas a duração dos tratamentos não está escrita nas estrelas.

Por exemplo, pode ser que alguém decida encerrar o tratamento após se perceber menos angustiado.

Digamos que esta pessoa estava sofrendo, buscou uma análise, e a coisa foi até aí, tratou sua angústia e pronto. Alguns pensarão que isto não é muito, em termos de análise. Mas será que é pouco?

Para além disso, há o vínculo. E para aquém também.

Quer dizer, o vínculo está na base de qualquer tratamento, curto ou longo, ele é sua condição necessária. Mas há um outro sentido do vínculo que é relativo ao vínculo que permanece após a resolução do sofrimento maior que trouxe o paciente à análise.

Para além da dissipação deste sofrimento, o sujeito f**a em análise talvez porque resta nele uma questão, e um desejo de saber mais, um desejo de ainda produzir um saber, endereçando-se àquele analista, um saber que possa alterar, limitar, operar sobre os efeitos daquilo que, no passado, no presente, ou no horizonte futuro, ainda, de alguma maneira, o arrasa e o mortif**a.

E quanto demora isto?

Endereço

Porto Alegre, RS
90035-141

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