17/01/2022
Antes da existência do Uber e bem antes de surgirem os apps para celular, umas das formas mais fácil de se locomover dentro das cidades era chamando um táxi. E táxi é um meio de transporte muito variado no seu colorido. Em Porto Alegre, são vermelhos. Em SP, são brancos. Já, em Londres, os carrinhos são pretos e existe toda uma burocracia para que alguém se habilite a prestar esse serviço. O motorista precisa ter um modelo específico de carro e passa por um teste que avalia sua capacidade de guardar os nomes das ruas e de se localizar entre elas. O básico, né? Ah, bem que poderia ser assim em Buenos Aires também.
:
No início dos anos 2000, eu estava a trabalho na capital da Argentina. Na época, ainda escutávamos música em CDs e entre pernadas no Caminito - bairro muito característico do país hermano - decidi comprar alguns discos. Eles estavam muito baratos e aproveitei a oportunidade, como se não houvesse amanhã. O Caminito é cheio de detalhes, sendo muito fácil perder a hora e a concentração em meio a casas, lojinhas e sobrados coloridos. Entre-os-cds-com-preço-justo-&-as-casinhas-em-forma-de arco-íris, me dei conta do adiantado da hora. E, nesse dia, uma das coisas que não poderia perder era a hora. Eu tinha que voltar ao porto até às 18h.
:
O navio em que estava empregada sairia pontualmente nesse horário. Não existia a possibilidade de atraso, pois o barco zarparia exatamente às seis da tarde, sem trégua, sem atraso. A multa pela demora na partida é altíssima e nunca se paga para ver. Quando olhei no relógio, já eram 17h 20min. Como acreditava que o cais f**ava próximo, nem me preocupei tanto. Mas, para não perder tempo, fui acenando para um táxi. Eles também são pretos, como em Londres, mas com o teto amarelo. Um carro parou, prefixo 1315. Entrei no carro e cumprimentei um senhor de bigode largo e com uma cara amiga.
:
O meu espanhol era bem precário. Entre palavras e gestos, o motorista disse ter entendido o nosso destino. Perguntei se daria tempo, ao que ele confirmou com segurança e veemência. 'Vos quedate tranquila...' - disse ele. Ufa! - pensei eu. O homem tentou puxar conversa, e o papo fluía com certo enrosco num portuñol cheio de sinais de 'las manos'. Quando estávamos quase chegando, ele começou a falar sobre o porto Madero. Sobre suas diversões e atrativos turísticos. Sobre os passeios e restaurantes. Sobre a paisagem. Sobre estar logo ali na frente. Nesse momento, exatamente às 17h45min, minha barriga gelou. Eu não queria descer no porto Madero, não tinha mais tempo livre e não queria turistar. O meu porto era num outro canto da cidade, e ali nenhum de nós sabia ao certo o caminho. O carro parou. Voltamos a debater o percurso. Ele não deu o braço a torcer, saindo como se soubesse aonde ir. Cinco minutos de voltas e mais voltas, sem nem sombra do invisível porto. Outro inimigo da situação era o taxímetro. O aparelho já marcava um valor bem maior do que as minhas possibilidades financeiras. O senhor de bigode longo seguia em frente, como se fosse um instrutor de meditação. Só me dizia para respirar fundo, pensar positivo, porque já estávamos na direção correta.
:
Nesse instante, eu comecei a rezar para os padroeiros e padroeiras dos funcionários e das funcionárias de primeira viagem. Parei totalmente de conferir o relógio. Numa avenida, seguiamos reto, quando o semáforo fechou. Tudo que não precisava naquele momento. Um outro táxi parou ao nosso lado. O condutor do meu veículo olhou, olhou de novo e decidiu perguntar ao colega o caminho até a zona portuária. O homem do outro carro franziu a testa e indicou a rota com minúcia. Antes de ir embora, não deixou de repreender o companheiro de profissão, por não saber o básico. Eu nem sentia mais a ponta dos dedos, gelados de tanto nervoso. O sinal abriu. Meu táxi arrancou rápido. Guiava ainda dentro da lei, mas sem a calma de até então. Fizemos o trajeto indicado e, como uma miragem, o fatídico estacionamento de barcos surgiu no horizonte.
:
Chegamos faltando cinco minutos para às 18h. Como desculpa pelos transtornos, recebi um desconto grande na corrida. A sorte! O senhor de bigode me pediu "muchos perdones". Me despedi correndo. Entrei no porto balançando os CDs. No fim, achei o navio com segundos de antecedência e quase sem fôlego. O que poderia ter sido evitado, caso a 'autoconfiança' do taxista não fosse tão grande. Às vezes é importante perguntar e assumir as nossas fragilidades. Dessa viagem, fiquei devendo muitos agradecimentos a um argentino desconhecido, que nos norteou e de quem não sei o nome, mas que me livrou de uma grande dor de cabeça. Viajar é encontrar caminhos, e espero que, nesse novo ano, encontremos os nossos, com auxílios e autoconhecimento.
:
Simplif**ando sua vida com reflexões sobre autoconhecimento e autocuidado. A psicologia faz a diferença na sua vida.
:
Flora Fraga
CRP072536
Atendimentos on-line
Especialização em Neurociência do Desenvolvimento Humano e psicologia analítica junguiana📚
:
Fone: +55 51 99589.2993 📱
Acesse www.desconstruindoodiva.com 💻
Instagram:
Fanpage facebook: fb/desconstruindoodiva ⭐
E-mail e Skype: [email protected] 📩
: