01/03/2022
Assisti ontem ao filme do momento, Mães Paralelas (Madres Paralelas, Netflix) de Pedro Almodóvar. Confesso que tinha uma grande expectativa. Pela temática, pelo peso que tem o nome do diretor, por ser - supostamente - o tema da maternidade e da relação de mães com suas filhas e este ser algo muito caro para mim e sobre o qual tenho estudado cada vez mais. O feminino, a feminilidade, as mulheres, a Psicanálise.
Sim, A psicanálise é do campo do feminino.
O filme, se fosse apenas pelo entretenimento, não teria me agradado. Não agradou, na verdade. Causou estranheza, desconhecimento, incompletude, angústia.
Mas então pensei: e não é assim com a psicanálise? Não é disso que se trata, seja nos estudos e, principalmente, nas nossas análises? Não é neste campo que nós, seres tocados pelo feminino, atravessamos nossas histórias? No não saber, não entender, na busca pelas origens, pelo desconhecido. Suportar não saber é pré-condição no terreno da Psicanálise. Pois a verdade é que não há um saber todo. Mas, ainda assim, é preciso escavar. Revelar o que está enterrado, não para recuperar o que supostamente foi perdido, mas sim, para tomar como parte da nossa história e então, não precisar repetir o passado.
Na cena em que a personagem Janis (Penélope Cruz), conta a Arturo (Israel Elejalde) que está grávida e ele deixa claro que não assumirá a criança e pede que ela não tenha o bebê, ela diz:
"Eu te libero de toda a responsabilidade. Vou seguir a tradição familiar. Vou ser mãe solteira como minha mãe e minha avó."
Ele diz: "Vamos deixar isso para o futuro", ao que Janis responde: "O futuro é isso."
O que é da ordem do inconsciente é isso, o passado que se presentif**a no futuro. É o silêncio que insiste em ser revelado, atuado, vivif**ado.
Não darei (mais) spoilers, mas convido vocês assistirem e a serem tocados e tocadas por este filme que é uma obra de arte. E como todas elas, assim como a psicanálise e as mulheres, a interpretação é sempre singular e sempre atravessada pelas nossas marcas. Não é sobre fazer sentido, e sim sobre o que nos faz sentir.
*Luana Francisco*