26/04/2025
Na Psicologia Analítica, Jung nos propõe que o verdadeiro entendimento de Deus não se dá apenas nas doutrinas e dogmas religiosos, mas na experiência direta do sagrado, que habita no mais profundo da alma — o Self, arquétipo da totalidade. O Papa Francisco foi um símbolo vivo desse sagrado como proposta psicológica. Seu chamado não foi à obediência cega, mas à abertura do coração. Seu maior gesto foi a ternura. Como disse em sua primeira fala ao Brasil, ecoando o apóstolo Pedro: “Eu não tenho prata nem ouro para vos dar, mas o que tenho, eu vos dou: a ternura que Jesus Cristo me deu.”
E foi isso que doou ao mundo: ternura. Um amor que não domina, mas acolhe. Um cuidado que não julga, mas abraça. Em cada gesto, ele convidava o mundo ao reencontro com sua própria alma — ao silêncio interior onde habita o divino, onde o ego se curva diante do Self, onde o Cristo interior pode reacender. Sua liderança foi menos sobre poder e mais sobre amor.
Como ele mesmo disse: “Quem é da luz não mostra a sua religião, e sim o seu amor.”
A individuação não cessa com a morte; ela se perpetua nos símbolos, nas memórias e nas sementes plantadas. Que o mundo tenha mais Franciscos — mais jardineiros do amor, mais peregrinos da paz, mais servidores do sagrado interior.
E que a morte do Papa Francisco não seja apenas lamento, mas rito de passagem. Que ela nos convide ao mais profundo: a viver como ele viveu — em simplicidade, em ternura, em comunhão com o divino que pulsa dentro de cada ser.
Pois o verdadeiro templo de Deus está em nós. E Francisco, com mãos de jardineiro e coração de Cristo, jamais deixou de nos lembrar disso.
Curadoria de conteúdo para o Núcleo de Espiritualidade do IJRS, por Mário Grivicich - analista em formação.