20/05/2026
A lista da Seleção saiu e o nome dele está lá. De novo. O debate se repete, as críticas são as mesmas, a esperança é a de sempre. Mas o que me interessa aqui não é o futebol, é o vício na repetição.
Neymar tornou-se o espelho de uma ferida aberta no adulto funcional contemporâneo: a síndrome da eterna promessa. Aos 30 e poucos anos, ele ainda é tratado — e muitas vezes se comporta — como o “menino” que vai nos salvar. E nós, como público, aceitamos o papel de pais decepcionados que, no fundo, ainda esperam o milagre.
Mas essa dinâmica esconde uma tensão cruel.
De um lado, existe a solidão da alta performance. Deve ser aterrorizante perceber que o mundo só te aceita se você for extraordinário, enquanto o peso da coroa esmaga o seu pescoço. É a crueldade de não ter o direito ao declínio humano, de não poder simplesmente dizer: “eu não dou mais conta de ser quem vocês inventaram”.
Do outro lado, existe a conveniência da imaturidade. Manter-se no lugar do “menino prodígio” é uma forma de fugir da sobriedade que a vida adulta exige. Se eu sou apenas uma promessa, eu nunca preciso ser, de fato, um resultado. Se eu não cresço, eu não respondo pelas minhas falhas; eu sou apenas “incompreendido”.
Neymar nos incomoda porque ele escancara a nossa própria dificuldade de encerrar ciclos e assumir o leme. Ele é o talento que se recusa a amadurecer, e nós somos o público que prefere a fantasia do ídolo à realidade do homem.
Quando olhamos para essa convocação e sentimos esse incômodo, talvez seja porque também estamos tentando sustentar versões nossas que já não cabem mais na realidade. Estamos presos entre o medo de não sermos mais “os melhores” e a preguiça de sermos, finalmente, adultos.
A pergunta não é se ele vai ganhar a Copa. A pergunta é: como a gente lida com o silêncio que f**a quando a nossa “melhor versão” se despede, mas a nossa “versão criança” se recusa a ir embora?
O que em você você ainda está tentando convocar, mesmo sabendo que o tempo de ser apenas uma promessa já passou?