05/08/2019
(Texto do profe Nivaldo Pereira)
(Foto do Rafael Conny)
O dicionário diz que o ego, no jargão psicológico, seria nosso núcleo de personalidade e princípio de realidade, criados a partir das experiências pessoais, mas com um funcionamento em grande parte motivado por pulsões inconscientes. Vale lembrar que o ego costuma ser ilustrado como uma ilha cercada de inconsciente por todos os lados. Aí, nesse mar de conteúdos ocultos, é que moram os perigos. O que será que define e sustenta nossa percepção de nós mesmos?
Há mais de um século, a popularização da psicologia recheou a linguagem de palavras como ego, egocêntrico e egoísta. Sabemos o que elas significam, conhecemos gente com ego inflado e muitos egocêntricos donos da verdade. Até somos certeiros em desconfiar que por detrás de egos exagerados pode haver insegurança e medo.
A também popular disseminação das filosofias orientais nos conta que o ego é o pai de males como prepotência, arrogância e individualismo e que a fundamental iluminação espiritual passa pela renúncia do ego. Sentiram o drama? Precisamos de um ego para ser alguém distinto no mundo, mas ficar preso a essa imagem é sempre uma armadilha a nos enredar nos instintos inconscientes.
Autocentrados, raramente percebemos o quanto a força do próprio ego pode ser traiçoeira. O mito grego associado ao signo de Leão dá conta desse conflito. É o primeiro dos 12 trabalhos de Hércules, quando o herói, em processo de purificação, precisa destruir um leão que espalha o terror na região da Nemeia. Flechas e espadas não adiantam: a pele do animal é invulnerável. Hercules, então, encurrala o leão numa gruta e, no escuro, o sufoca. Morta a fera, o herói faz de sua pele uma armadura, que passa a usar como proteção nos trabalhos seguintes.
O significado desse mito é claro. A consciência humana vence a fúria instintiva e caótica do animal, e a incorpora como força, dirigindo-a. O herói solar domestica sua fera sombria. Eis um ego forte e saudável, que sabe lidar com as tentações do poder brutal, extraindo experiências que servirão de escudo contra outros perigos.
É esse ego sempre atento às próprias sombras que pode criar com sabedoria um caminho original de expressão no mundo. Tornar-se o que se é, tarefa do Leão em nós, supõe superar com força pautas herdadas e imposições sociais em nome da própria verdade. Mas supõe também perceber-se continuamente em aperfeiçoamento, para driblar a possível rigidez autoritária do ego.
Uma última curiosidade: tinha que ser leonino o psicólogo que identificou em toda pessoa, a partir de sua própria experiência pessoal, um impulso de realização que chamou de Processo de Individuação: a jornada para tornar-se o que se é. Foi o suíço Carl Gustav Jung, nascido a 26 de julho de 1875. Bem a propósito, é dele também o conceito de sombra.