16/08/2026
Medianeras: Buenos Aires na Era do Amor Virtual, filme de Gustavo Taretto, acompanha Martín e Mariana, dois sujeitos solitários que vivem em Buenos Aires, próximos geograficamente, mas separados por uma série de desencontros. Eles compartilham a mesma cidade, frequentam espaços semelhantes e chegam a estar muito próximos sem se reconhecer.
Medianeras é uma palavra espanhola que na Arquitetura, representa as paredes laterais de um edifício que ficam coladas aos limites do terreno ou ao prédio vizinho, geralmente não possuindo janelas, aberturas ou acabamentos decorativos.
A tecnologia oferece uma quantidade quase ilimitada de possibilidades de contato, mas quanto maior a possibilidade de escolha, maior é a crença na realização de sua fantasia e a dificuldade de sustentar um encontro real.Procuram, selecionam, imaginam e projetam.
O outro pode ser substituído antes mesmo que um vínculo se constitua. O encontro amoroso passa a competir com uma infinidade de outros possíveis. A fantasia de completude existe e é mantida exatamente por que o encontro com o outro não se realiza de fato em suas possibilidades reais.
É interessante observar que a internet não cria a estrutura do desejo, mas modifica a maneira como o sujeito contemporâneo lida com ela. A tela permite estar próximo mantendo certa distância. Pode-se olhar sem ser necessariamente olhado, desejar sem se expor inteiramente, fantasiar o outro sem enfrentar imediatamente sua alteridade. A imagem pode ser controlada; o encontro, não.
As medianeras,essas paredes cegas dos edifícios, que não são propriamente interiores nem fachadas, tornam-se em uma poderosa metáfora .Assim como os sujeitos do filme, os edifícios estão lado a lado, mas não necessariamente em relação.
Na atualidade, podemos estar permanentemente diante do olhar do outro e, paradoxalmente, cada vez mais protegidos do encontro com ele. Fotografamos, expomos, teclamos, visualizamos, curtimos, bloqueamos, desaparecemos. Há uma intensa circulação de imagens e uma possível pobreza de presença.
O verdadeiro desencontro contemporâneo muitas vezes está na impossibilidade de atravessar as medianeras que nos separam.
Rosângela Martins Psicóloga