19/12/2025
Encerrando mais um ano nesse cantinho que tem gosto de conforto, de casa.
O fim do ano opera como um significante carregado de exigências: fechar, concluir, resolver, agradecer, perdoar, recomeçar. Como se o tempo psíquico obedecesse à mesma lógica do tempo social. Mas o inconsciente, sabemos, não faz viradas de página, ele insiste, repete, retorna.
Há algo de melancólico nesse período porque o fim do ano convoca um balanço. E todo balanço toca a perda. O que não foi dito, o que não se sustentou, o que se perdeu. Para alguns, o fim do ano reativa fantasias de completude: “no próximo, serei outro”. Para outros, escancara a ferida narcísica do tempo que passou sem cumprir promessas.
O supereu se intensifica: cobra alegria, presença, gratidão. Exige felicidade como dever moral. E justamente aí o sofrimento se torna mais silencioso, porque não cabe nas luzes, nos rituais, nas fotos.
Há um trabalho psíquico em curso, mesmo quando não é nomeado: o de aceitar que o tempo passa sem pedir licença e que a vida não se organiza em arcos narrativos tão limpos quanto gostaríamos.
Talvez o mais ético, nesse período, seja permitir-se não saber. Não forçar sentidos. Não exigir sínteses. Sustentar a pergunta em vez da resposta. O ano acaba, mas o sujeito continua em elaboração. E elaborar não é esquecer, é dar lugar.
Que o fim do ano possa ser menos um tribunal e mais um intervalo. Um espaço onde o sujeito descansa da obrigação de ser inteiro e aceita existir em fragmentos.✨✨✨