14/02/2026
Não há como não me pronunciar diante da tragédia do pai que matou os dois filhos e depois se matou, após saber que, supostamente, a esposa o estaria traindo.
Meu Deus. Que loucura. Pensei muito e fiquei estarrecida.
Eu não o conhecia.
Não sei quem ele era no cotidiano.
E, justamente por isso, hoje, tento não escrever a partir do julgamento fácil.
O que sei, e isso me assusta, é que ninguém chega a esse ponto sem estar profundamente adoecido emocionalmente.
Isso não surge do nada.
Isso não nasce em um dia.
É construção de dor.
É construção de uma sociedade machista e adoecida.
De um modelo que ensina homens a serem fortes o tempo todo, a não chorar, a não falhar, a não pedir ajuda.
Uma cultura que ridiculariza a terapia, que trata cuidado emocional como fraqueza e que empurra emoções para debaixo do tapete, até que elas explodam.
Ainda assim, a crueldade do que aconteceu é inegável.
Porque há atos que deixam marcas irreparáveis.
E, no centro dessa tragédia, está uma mulher que perdeu os filhos e seguirá viva carregando uma morte emocional que nenhuma mãe deveria experimentar.
E é aqui que minha reflexão se amplia.
Cresci em uma sociedade em que ouvi a vida inteira que homens traíam suas esposas, e essas mulheres perdoavam, aceitavam, se calavam, aprendiam a ignorar o óbvio para continuar vivendo.
Muitas criavam, e ainda criam, filhos fruto da traição de seus cônjuges.
Aceitam o inaceitável.
Sofriam em silêncio. Criavam filhos em meio à dor.
E a sociedade seguia adiante, quase indiferente.
Mas quando o movimento é inverso, o julgamento é imediato, público e cruel.
Não escrevo para defender a infidelidade. Jamais.
Escrevo para questionar a facilidade com que julgamos mulheres e a dificuldade que temos de olhar para o adoecimento emocional masculino antes que ele se transforme em violência.
Como sociedade, falhamos.
Falhamos quando normalizamos o machismo.
Falhamos quando ensinamos homens a não sentir.
Falhamos quando tratamos saúde mental como frescura.
Falhamos quando trocamos valores, princípios e humanidade por ego, posse e status.
⬇️ Continuação no primeiro comentário.