23/09/2026
Hoje a roda vira.
E eu não venho celebrar flores.
Venho celebrar aquilo que precisou apodrecer para que outra coisa pudesse nascer.
A primavera não é inocente.
Antes da flor existe a raiz.
Antes da raiz existe a decomposição.
Antes do nascimento existe uma coisa escura, úmida, sem nome, mastigando a própria morte.
É ali que Lilith mora.
Mãe Serpente.
Não a serpente domesticada dos altares, mas aquela que rasteja pelo ventre da terra, entra nas frestas, morde o calcanhar dos deuses e desaparece levando consigo o segredo que eles queriam manter enterrado.
Lilith não carrega uma tocha.
Ela carrega a chama negra.
E chama negra não serve para iluminar caminho.
Serve para incendiar aquilo que foi construído sobre medo, obediência e mentira.
No caminho luciferiano, o fogo não vem para nos salvar.
Vem para nos tornar perigosamente conscientes.
Lúcifer acende a centelha.
Lilith sopra sobre a brasa.
E aquilo que queima não é o corpo.
É a coleira.
A primavera, então, torna-se um rito de passagem.
A roda gira sobre ossos antigos.
O que morreu alimenta o que nasce.
O que foi enterrado retorna em outra forma.
A pele velha se rompe.
E a serpente não olha para trás.
Porque serpente nenhuma pede perdão por deixar para trás aquilo que já não lhe pertence.
Eu gosto dessa primavera.
A primavera que cheira a terra molhada, a sangue antigo, a folhas esmagadas sob os pés.
A primavera que não pergunta se estamos preparados.
Ela simplesmente abre a carne da terra e faz nascer.
Lilith conhece esse movimento.
Morrer.
Apodrecer.
Desejar.
Descer.
Rasgar a pele.
Subir novamente.
Não existe pureza nisso.
Existe potência.
Existe o ventre escuro onde o sagrado e o profano param de fingir que são inimigos.
Hoje a roda gira.
E eu não peço luz.
Eu acendo a minha própria chama no escuro.
Porque algumas verdades só podem ser encontradas depois que os olhos aprendem a enxergar dentro do abismo.
Lilith está lá.
Com a boca cheia de serpentes, as unhas enterradas na terra e a chama negra respirando entre os dentes.
Ela não vem nos ensinar a ser bons.
Ela vem perguntar:
quanto de você ainda está ajoelhado diante daquilo que já deveria ter queimado ?
Então deixe a primavera entrar.
Mas deixe entrar como incêndio.
Que ela arrebente as raízes mortas, rasgue as peles antigas e devolva ao mundo tudo aquilo que você teve coragem de arrancar do submundo.
A roda girou.
A serpente mudou de pele.
O fogo permanece.
E Lilith, Mãe da Noite, Mãe Serpente, Senhora daquilo que não se ajoelha,
continua sorrindo no escuro.
Rita Salvador ✍
22/09/2026