06/06/2026
Existe um peso que nenhuma balança da Justiça consegue medir: o corpo de uma criança de 4 anos.
Convivo profissionalmente com a linha tênue entre salvar e perder uma vida. Talvez por isso a sentença do caso Henry Borel tenha me tocado tanto. Ele, ainda por cima, tem o mesmo nome do meu filho.
A toga falou: décadas de prisão para o homem que transformou um lar em câmara de tortura. Justo. Necessário. Mas a mesma sentença que condenou a mão que bateu absolveu os olhos que assistiram.
Pensei nos meus filhos dormindo, na confiança absoluta com que uma criança entrega a mão a um adulto, certa de que aquela mão jamais será punho. Henry entregou a dele. E ninguém o segurou. Como pai, não consigo ler “perdão” sem ouvir o choro de um menino que pediu socorro e encontrou silêncio.
A mãe, que conviveu com os hematomas, que ouviu os choros, que escolheu o silêncio, saiu pela porta da frente. Não por inocência. Por “contexto”. Porque, segundo a decisão, teria sido vítima de uma “cobrança desproporcional”, de “expectativas culturalmente atribuídas ao papel materno”.
Traduzindo: mataram Henry duas vezes. A primeira, no apartamento. A segunda, no tribunal, onde a dor de uma criança real foi sacrif**ada no altar de uma tese.
Que país é este, em que a maternidade vira atenuante e a omissão vira vítima?
Não confundamos compaixão com covardia. Henry não precisava de um veredito perfeito. Precisava de alguém que o protegesse. Teve a omissão de quem devia amá-lo. E, agora, o perdão de quem devia julgá-lo.
E, como se um absurdo não bastasse, o mesmo Judiciário que perdoa quem viu um filho morrer encontra forças para condenar quem dedica a vida a educar os seus.
Um casal foi condenado por “abandono intelectual”. O crime? Ensinar as próprias filhas em casa. Meninas que lêem 30 livros por ano, que estudam línguas, música e arte. Pesou contra os pais o fato de uma das meninas não gostar de funk. Pesou a “falta de convivência”. Pesou, no fundo, a ousadia de formar pessoas em vez de terceirizar consciências.
Eis o Brasil de cabeça para baixo: absolve-se a omissão e criminaliza-se a dedicação. Perdoa-se quem calou diante do sofrimento e processa-se quem se debruçou sobre o futuro.