12/08/2025
A redução de danos é uma estratégia de cuidado que parte do princípio de que a abstinência total nem sempre é possível — e nem sempre é desejada. Isso significa reconhecer que há ali uma história, um desejo, um sofrimento e, sobretudo, alguém que precisa ser escutado, não punido.
Não se trata de impor a abstinência como única meta, mas de diminuir os riscos e os sofrimentos associados ao uso — sejam eles físicos, psíquicos ou sociais.
Na lógica abolicionista, que insiste na ideia de uma sociedade “livre das dr**as”, o sujeito é frequentemente apagado. Muitas vezes ignora-se a pergunta mais importante: “o que esse uso significa para esse sujeito?”
A substância vira o inimigo a ser combatido, enquanto a pessoa usuária é tratada como um corpo a ser higienizado e silenciado. Essa abordagem tende a criminalizar, internar compulsoriamente e desresponsabilizar os serviços de saúde, transferindo o problema para o sistema penal ou manicomial.
Mas o uso de álcool e outras dr**as nunca é apenas químico — é também simbólico.
Na psicanálise, entendemos que o sujeito se constitui em falta, e que o uso pode operar como uma tentativa de tamponar essa falta, aliviar o sofrimento, sustentar um modo de gozo. Romper com esse laço exige mais do que proibição: exige presença, escuta, construção de outras vias de laço e de prazer possíveis
Reduzir danos, então, é escutar a função que a substância cumpre naquela vida. É sustentar um laço que permita, aos poucos, que outros modos de existir sejam possíveis. É construir cuidado possível, sem julgamento moral, sem medicalização excessiva, sem internação compulsória.
Na prática, isso pode significar:
– orientar sobre formas mais seguras de uso;
– disponibilizar insumos de proteção, como seringas ou camisinhas;
– oferecer espaços de escuta e vínculo, mesmo quando a pessoa ainda faz uso;
– respeitar o tempo e o desejo do sujeito, sem coação, sem punição, sem moralismo.
É construir um cuidado possível, em vez de um ideal impossível.