04/09/2026
O filme “O Drama” do diretor Kristoffer Borgli nos coloca a refletir sobre o que de fato vem a ser uma relação.
O amor tem inúmeras significações e uma deles é ser um dispositivo de aglomeração dos destinos humanos e tem a potência de ser um convite à convivência com o diferente no outro e ao germe da diferença no Eu.
Lacan no seminário XVI faz todo um tratado do percurso existente de ‘’um Outro ao outro’’, para ele tudo o que nos acontece na vida está dentro de uma relação que se configura a partir dos dramas do inconsciente.
O Charlie (Robert Pattinson) conquista Emma (Zendaya) e juntos formam uma parceria. Há algo curioso nessa palavra conquista, pode se entendê-la a partir de um território já estabelecido por ter sido conquistado, tanto o da relação, quanto do que se é nela mesma, a partir do que se vê no outro e no apoio narcísico de si que pode surgir desse lugar.
O drama passa a tomar novos rumos e intensidades a partir do momento em que ‘’a verdade’’ de um dos pares passa a ser questionada.
Esse é um outro tema levantado no filme, o lugar de uma mulher atravessada pelo racismo a fez viver os perigos da possibilidade de desintegração a partir das variadas experiências de racismo sofrida na adolescência, isso a fez fantasiar uma violência, mas não a levou a praticar o ato em si, outro ponto de questionamento do filme que nos leva a pensar sobre o modo como pessoas negras são questionadas em seu lugar na presunção de inocência.
Sobre a verdade em uma relação, tende a ser baseada em um sedentarismo da parceria que leva ao tão sonhado alívio sem levar em consideração a impossibilidade lógica desse desejo de estabilidade inerente a todo ser humano que porta vulnerabilidade e errância.
Para Edouard Glissant a errância é uma vocação que surge a partir dos desvios, um chamado, para a relação propriamente dita, e que não se trata de uma escolha pessoal, o dito que dita os rumos dos amantes é o da relação e não a vontade de cada um, e isso, não é negar a parceria, mas renunciar a linearidade positivada e compreender o que é possível produzir a partir da verificação do abismo que habita todo tipo de encontro humano.