14/11/2023
Bruna Surfistinha conta a história de Raquel Pacheco e como ela se tornou a garota de programa mais famosa do Brasil. Com a brilhante atuação de Déborah Secco e uma narração que nos aproxima da subjetividade da personagem, o filme começa com Raquel, após fugir de casa com 17 anos, andando desolada por uma fria São Paulo em busca de um refúgio para sua solidão, que ela encontra no privê.
Raquel foi adotada, e seus olhares vazios e distantes diante das refeições com a família indicam que ela não se sentia amada nem pertencente àquela família, o que é reforçado pelos comentários maldosos do seu irmão adotivo.
Também não se sentia pertecente ao colégio, não tinha amigos e vivia sozinha nos intervalos. Foi forçada a fazer s**o oral e após esse episódio passou a sofre bullying.
Da mesma forma, Raquel também não se sentia pertencente ao privê, por ser vista como "patricinha" pelas outras garotas de programa. Tudo mudou quando ela fez seu primeiro programa com o homem que mais tarde iria se apaixonar por ela: "ali nascia a Bruna". Com isso, ela cria para si uma nova identidade, não mais a Raquel, a garota "feia", "sem graça" do colégio, mas a Bruna, a pr******ta mais desejada do privê. Somente assim ela pôde se ver como uma mulher desejável. "Eu tava adorando ser a garota mais popular do colégio".
Por isso, Bruna era diferente das outras: enquanto elas se prostituíam por questões financeiras, Bruna se prostituía porque gostava de estar naquela posição.
Em uma noite de diversão, Bruna conhece Carol, que apresenta clientes mais influentes, e após a saída do privê Bruna cria um blog para falar sobre seu cotidiano como garota de programa, que faz um grande sucesso. Porém, Carol lhe apresenta também a co***na. A carreira de Bruna vai crescendo junto com seu vício. A droga comparece como mais um anestésico diante de tanta dor psíquica. Segundo Freud em "O mal-estar na civilização", a droga é o meio mais potente para lidar com o mal-estar, pois altera diretamente a química do organismo. Na minha análise, a maior dor que Raquel tentava esquecer foi esse não-pertencimento à família. Para Lacan, o sujeito se tenta encontrar um lugar em que ele acredita ser amado pelo Outro. Na impossibilidade e ser amada pelos pais, ela se contenta em ser amada pelos homens. O caminho que ela encontrou para "lidar" com essa dor foi excluindo-os totalmente de sua vida e colocando o s**o e a droga no lugar.
A droga fez Bruna ir se desinteressando pela carreira de garota de programa, e ir se interessando apenas por carreiras de pó. Ela é levada pela dependência e chega ao fundo do poço, fazendo programas apenas para manter seu vício, para lidar com os sintomas de abstinência, que no caso da co***na são muito severos. Após o susto da overdose, Bruna entende que sua vida como garota de programa não pode durar muito. Ela finaliza o filme com uma interessante narrativa que retrata essas vivências como um processo de autoconhecimento, responsabilizando-se e implicando-se como sujeito nas escolhas que ela fez: "fiz muitas coisas erradas, mas se não fosse desse jeito eu não teria aprendido a gostar de mim como eu sou, foi como Garota de programa que eu me conheci de verdade (...) Talvez se tivesse ficado na casa dos meus pais a Bruna nem teria existido, só a Raquel, mas só a Bruna poderia chegar a essa conclusão. (...) E quando eu sair dessa vida, eu vou sair como eu entrei: sabendo que foi uma escolha que eu fiz".
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Psicóloga Jamily Borges
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