Ana Beatriz S Moura Siqueira

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Ana Beatriz S Moura Siqueira Psicóloga Clinica e Psicanálise

no caminho pro hospital me peguei pensando de como já tem uns anos que passo a maior parte dos meus dias ouvindo históri...
27/08/2026

no caminho pro hospital me peguei pensando de como já tem uns anos que passo a maior parte dos meus dias ouvindo histórias daqueles que me endereçam seu mal-estar. As escuto no corredor do hospital, a beira leito, no consultório presencial ou online, e até na casa do analisante quando o corpo se impõe marcando uma fragilidade que o impossibilita chegar ao consultório, mas que não cede frente ao anseio por falar.

Meu instrumento de trabalho é minha escuta, encarnada numa presença ativa e em um setting amplo, mas com muito cuidado em não enfraquecer a ética que guia o meu fazer. Cuidado esse movido também pela luta por uma psicologia que ainda segue sendo mostrada em caricatura assistencialista/caridosa, diminuindo toda uma classe de trabalhadores que precisam de condições dignas e valorização para seguir sua atuação. Desde a graduação uso do dia 27 de agosto como ato político, mas hoje, ou pelo menos nesse instante-já, experimento a beleza que mora na realização e satisfação por fazer o que amo. Puxa! Como é gostoso poder parar pra contemplar isso! Desde adolescente me preocupava em trabalhar com o que gosto pq via os meus familiares mais tempo fora de casa, trabalhando, do que desfrutando da companhia dos seus, afinal, se paga caro pra viver com qualidade e dignidade.

É um privilégio tremendo poder trabalhar com o que faz sentido pra si e nos movimenta na vida. Carrego uma responsabilidade enorme em prol de seguir atuando de forma ética e sem abrir mão do rigor técnico-teórico, que são inegociáveis pra mim. Mas sou conduzida pelo afeto também, sabe?

Não tem IA que substitua uma escuta encarnada em corpo, alma e *amorosidade*. Não tem! O afeto encanta, mobiliza, atravessa, faz a diferença, fortalece uma coletivo.

Com tanto carinho que recebi hoje, me sinto abastecida. Sigamos!

Olá! Estou com novos horários disponíveis para atendimento a partir do segundo semestre, tanto no formato online quanto ...
27/05/2026

Olá! Estou com novos horários disponíveis para atendimento a partir do segundo semestre, tanto no formato online quanto presencial. Para maiores informações, é só entrar em contato.

25/05/2026
O luto tornou-se um vizinho inconveniente na era da hipermodernidade. Como descreve Gilles Lipovetsky, vivemos tempos de...
25/05/2026

O luto tornou-se um vizinho inconveniente na era da hipermodernidade. Como descreve Gilles Lipovetsky, vivemos tempos de aceleração extrema, onde o "parar" é lido como uma falha sistêmica. O enlutado, ao retirar seu investimento do mundo externo para processar a perda, torna-se um péssimo consumidor, um entrave para a engrenagem da produção ininterrupta.

A clínica recebe hoje analisantes que não pedem apenas escuta, mas autorização para parar de sentir. A demanda pela medicalização imediata muitas vezes esconde o imperativo
social de "voltar ao normal" o quanto antes. Mas o que é o "normal" diante da finitude e
do desamparo?

Sustentar a escuta analítica é um ato subversivo e não de hoje, mas ainda mais hoje. É recusar a pressa, validar o vazio e permitir que seja possível habitar a própria dor sem o peso de ter que "superá-la" para a próxima segunda-feira. Afinal, a serviço de que/quem está a nossa pressa em curar?

A morte acontece.
No hospital, o corpo precisa sair rápido:
o leito precisa girar.
"Time is money"
Cobre-se com um s**o preto. A morte é feia. Esconde-se.
O funeral dura duas horas. Há trânsito. Há pressa.
No trabalho, dois dias de afastamento - no máximo.

É tempo suficiente para a ruptura de um laço?

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Palavras-chave: psicanálise, psicanálise clínica, psicanálise lacaniana, freud, cansaço, saúde mental

Há sofrimento que não é desordem individual — é efeito direto de um contexto social violento e desigual.Como não sentir ...
21/05/2026

Há sofrimento que não é desordem individual — é efeito direto de um contexto social violento e desigual.

Como não sentir fadiga e preocupação excessiva em um sistema neoliberal que nos impõe o dever de produzir 24 horas por dia, 7 dias por semana?

Somos seres coletivos, relacionais. Acontece que a intensificação de diagnósticos individualiza questões que por vezes são estruturais.

No jogo da vida, não estamos livres das regras (quem as ditam?) que determinam o quê e o como deve ser feito em cada partida.

Patologizar e medicalizar a vida: a quem interessa esse jogo?

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Palavras-chave: psicanálise, psicanálise clínica, lacan, diagnóstico, neoliberalismo, freud, capitalismo, cansaço, esgotamento mental

Entro no quarto junto com a médica para atender uma paciente. CA de pulmão com metástase óssea recém-diagnosticada. Ela,...
01/08/2025

Entro no quarto junto com a médica para atender uma paciente. CA de pulmão com metástase óssea recém-diagnosticada. Ela, muito confortável após o controle de sintomas - feito por uma equipe atenta à pessoa que sente e não só ao câncer que a habita -, me conta sobre si e sua vida antes da chegada do "troço", forma como nomeia a doença oncológica. Nesse meio tempo, enquanto a médica examinava, a paciente pergunta:

- Dra, metástase tem cura?

O silêncio adentra.

Imagino que a médica possa ter ficado pensando em como responder de prontidão algo delicado de ser dito. Assim, pergunto o que a paciente quer dizer com cura.

- Ah, cura é ter tratado essa metástase... me livrar da m0rte.

- Mas, *, é possível nos livrar da m0rte?

A partir daí, outro silêncio. Dessa vez um diferente do primeiro. Esse, o silêncio de quando se esbarra no Real, que escapa de representações e aparece em forma de uma profunda angústia. Esse silêncio que rasga o véu de imortalidade que comumente criamos para dar uma camuflada nesse fato castrador tão difícil de digerir: a finitude da vida.

Depois de um tempo, sua voz ressurge:

- É... não tem como se livrar, né?

Respondo que não. Mas que é possível construirmos formas de viver com conforto, dignidade e qualidade de vida até que o "inlivravél" (se me permitem o neologismo) chegue. É isso o que o acesso aos cuidados paliativos oferece - e não só.

Por aqui, desejo que possamos convidar nossos pacientes a pensarem não só na quantidade, mas na qualidade dos dias de vida. E digo qualidade não no sentido idealizado de uma satisfação plena, mas de um conceito que englobe na conta os preços que pagamos pela vida, tendo em vista o custo altíssimo de sofrimentoS que pacientes no Brasil pagam em seus últimos momentos.

Que possamos trabalhar no como tecer esse plano de cuidados — particular a cada caso, construído a partir de um sentido de vida subjetivo, ambíguo, contraditório, criado e recriado até o encontro com o inlivrável.

E que seja nessa costura de caminho que possamos alcançar, então, não apenas uma boa vida, mas também uma boa m*rte.

Você já pensou em como gostaria de ser cuidado no fim da sua vida?

Quem trabalha na análise é o analista ou o analisante?Já adianto que essa é uma pergunta capciosa.Ainda movida pela pass...
13/03/2025

Quem trabalha na análise é o analista ou o analisante?

Já adianto que essa é uma pergunta capciosa.

Ainda movida pela passagem de Lacan na Conferência de Genebra sobre o Sintoma, em 1975 (trecho mencionado no post anterior), comecei a pensar em alguns cenários que às vezes entramos quando estamos atendendo. Trarei exemplo de um.
Em trocas com colegas, percebi como no início da clínica pode ocorrer de nos preocuparmos demasiadamente em como fazer interpretações e intervenções dignas de um tweet ou no estilo de Selton Mello na série Sessão de Terapia. Inclusive, às vezes ficamos com alguns barulhos nos inquietando - “estou sendo psicanalista?”, “meu paciente não t**a algumas subversões, será que estou manejando errado?”, “talvez outro analista estaria conduzindo melhor esse caso” - o que nos deixa um tanto presos em querer saber como está sendo nosso desempenho, digamos assim, ou até achando que temos alguma autoridade na sessão e que, portanto, devemos deter de um saber maior sobre aquela pessoa que chega até o nosso consultório. Acontece que isso pode fazer com que apaguemos o analisante de cena, que não levemos em consideração que o processo analítico não é feito só pelo psicanalista, e sim que há um trabalho que cabe ao analisante e um tempo em jogo que não é o cronológico.
É crucial que construamos um setting que possibilite a entrada de uma análise, que propicie uma associação livre, mesmo que ela não seja tão livre assim, e que seja instaurada uma incitação ao saber, que o paciente se implique no processo, que passe a se perguntar e a trazer questões para análise. E escrevo implicação não no sentido de uma dita responsabilização subjetiva (que aliás pode trazer sofrimento ao falante), mas do candidato a análise t**ar o processo, apesar do incômodo que isso traz, afinal, não é um docinho se ouvir dizer coisas que tentamos esquecer. Mas é um caminho. E é um caminho costurado entre analista e analisante, com os dois tecendo juntos esse percurso.

Esse trecho me chama muitíssima atenção em como, na contramão de uma pós modernidade em que há a proclamação de um jeito...
12/03/2025

Esse trecho me chama muitíssima atenção em como, na contramão de uma pós modernidade em que há a proclamação de um jeito certo de se viver, a nossa atuação não deve ser a de moldar um saber e passar um script da novela Como-se-deve-viver, que nada mais é do que um roteiro moralizante nosso e do que julgamos ser o jeito certo. - E atenção ao plot twist: não tem certo ou errado, quiçá um jeito.

Se a pessoa deitada no divã que faz a demanda de análise é quem trabalha e se não cabe ao analista a função de moldar alguém, o que nos cabe? O que fazemos com o que ouvimos e lemos de um texto clínico? O que esperamos que aconteça com o analisante em seu processo analítico? Como imaginamos que seja o analisante ao final de uma análise? Como vai se entrelaçando os efeitos desses nossos atravessamentos no jogo analítico?

Por aqui, tenho me feito essas perguntas. E por aí?

Olá!Estou com novos horários disponíveis para atendimentos online e/ou presencial na cidade do Rio de Janeiro!
30/10/2024

Olá!

Estou com novos horários disponíveis para atendimentos online e/ou presencial na cidade do Rio de Janeiro!

Hoje fui para a análise com uma pedra no sapato. Não, não é no sentido figurado. Bom, é sim também, mas de fato tinha um...
29/10/2024

Hoje fui para a análise com uma pedra no sapato.

Não, não é no sentido figurado. Bom, é sim também, mas de fato tinha uma pedrinha no meu tênis.

Achei interessante ter uma pedra no sapato enquanto estava a caminho da minha sessão de análise.

Deitada no divã, falei sobre essa dualidade, em como para a psicanálise realmente uma pedra no sapato não é (só) uma pedra no sapato.

Lá pelas tantas, já estava em outro assunto (será?) quando minha analista me perguntou "você não vai tirar a pedra?". Eita! Eu nem havia me tocado que não tinha tirado. Depois, respondi algo que, me ouvindo dizer, fez com que toda a justificativa criada na minha cabeça para não ter tirado a m* da pedra do meu sapato já me parecia tipo "mona???? nada a ver isso aí 🤨🤦🏽‍♀️".

Ahh, os efeitos do se ouvir...Falamos sobre.

E é isso.

Nessa sessão de análise tirei uma pedra do sapato (e não só do sapato)

E detalhe: quando tirei, vi que o negócio era minúsculo!Como pode um trocinho desse incomodar tanto??

Agora já nem sei de qual pedra tô falando.

Enfim... haja pedraS, sapatos e análise.

Endereço

Rio De Janeiro, RJ

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