27/08/2026
no caminho pro hospital me peguei pensando de como já tem uns anos que passo a maior parte dos meus dias ouvindo histórias daqueles que me endereçam seu mal-estar. As escuto no corredor do hospital, a beira leito, no consultório presencial ou online, e até na casa do analisante quando o corpo se impõe marcando uma fragilidade que o impossibilita chegar ao consultório, mas que não cede frente ao anseio por falar.
Meu instrumento de trabalho é minha escuta, encarnada numa presença ativa e em um setting amplo, mas com muito cuidado em não enfraquecer a ética que guia o meu fazer. Cuidado esse movido também pela luta por uma psicologia que ainda segue sendo mostrada em caricatura assistencialista/caridosa, diminuindo toda uma classe de trabalhadores que precisam de condições dignas e valorização para seguir sua atuação. Desde a graduação uso do dia 27 de agosto como ato político, mas hoje, ou pelo menos nesse instante-já, experimento a beleza que mora na realização e satisfação por fazer o que amo. Puxa! Como é gostoso poder parar pra contemplar isso! Desde adolescente me preocupava em trabalhar com o que gosto pq via os meus familiares mais tempo fora de casa, trabalhando, do que desfrutando da companhia dos seus, afinal, se paga caro pra viver com qualidade e dignidade.
É um privilégio tremendo poder trabalhar com o que faz sentido pra si e nos movimenta na vida. Carrego uma responsabilidade enorme em prol de seguir atuando de forma ética e sem abrir mão do rigor técnico-teórico, que são inegociáveis pra mim. Mas sou conduzida pelo afeto também, sabe?
Não tem IA que substitua uma escuta encarnada em corpo, alma e *amorosidade*. Não tem! O afeto encanta, mobiliza, atravessa, faz a diferença, fortalece uma coletivo.
Com tanto carinho que recebi hoje, me sinto abastecida. Sigamos!