Psicóloga Bárbara Genari

Psicóloga Bárbara Genari - Psicoterapia online para brasileiros de qualquer lugar do mundo!

Às vezes, a culpa por desejar mais nos faz chamar de palácio aquilo que apenas nos abriga.Um galinheiro pode nos protege...
16/06/2026

Às vezes, a culpa por desejar mais nos faz chamar de palácio aquilo que apenas nos abriga.

Um galinheiro pode nos proteger da chuva. Pode ter sido importante. Pode até ter sido tudo o que era possível naquele momento.

Mas reconhecer isso não exige que a gente transforme abrigo em destino.

Ser grato não é o mesmo que se resignar.

E, se quisermos nos aproximar do verdadeiro palácio, inevitavelmente teremos de nos autorizar a desejá-lo.

Bárbara Genari • CRP 04/66298

Amar não é só apostar em uma relação, mas também na própria capacidade psíquica de sobreviver a uma perda.Em psicanálise...
12/06/2026

Amar não é só apostar em uma relação, mas também na própria capacidade psíquica de sobreviver a uma perda.

Em psicanálise Eros (amor) é também pulsão de vida, é o que nos move e, apesar de não nos garantir felicidade, nos retira do ensimesmamento narcísico.

Freud compreendia o amor como uma das expressões da pulsão de vida, a força que cria laços e nos coloca em relação com o outro.

Em uma cultura que valoriza a autossuficiência, amar pode parecer um risco e talvez poucos de nós ainda se disponham a correr esse risco, a abrir-se para a alteridade.

Byung-Chul Han defende que o amor exige uma saída de si:

“O poder de Eros implica uma im-potência na qual, em vez de me afirmar, me perco no outro ou me perco para o outro.”

Amar nos faz vulneráveis e nos lembra que, apesar do que a contemporaneidade exige como ideal, não somos completos. Afinal, como Lacan nos lembra, é a incompletude que possibilita o nascimento do desejo.

O amor pode nos ajudar a dar um sentido para a falta mas, para tanto, exige que sejamos capazes de reconhecer a sua existência.

Amar não é das tarefas mais fáceis, porque nos convoca a apostar, mesmo sem garantias, na experiência de sermos afetados, transformados pela colisão com um outro mundo.

Não é só uma aposta na relação, mas também na própria capacidade psíquica de sobreviver e elaborar um luto caso, em algum momento, o objeto de amor seja perdido, caso esses mundos tenham de se separar.

Feliz Dia dos Namorados não só para os que namoram de fato, mas para todos os corajosos e dispostos a se abrir ao encontro com a alteridade, a amar e a se perder um pouco.

Um brinde àqueles que ainda topam se aventurar em outros (a)mares.

Bárbara Genari • CRP 04/66298

Quase toda a minha vida adiei minhas reais vontades em prol do planejamento, do dever. Minha insegurança com a falta de ...
10/06/2026

Quase toda a minha vida adiei minhas reais vontades em prol do planejamento, do dever. Minha insegurança com a falta de controle sobre meu desejo era uma máquina de criar impossibilidades para a concretização — ainda que parcial — dele.

Impossibilitei meus quereres por achar que tinha que estar com os deveres todos cumpridos e em ordem mas, uma vez em ordem, eu tratava de arrumar mais um punhado deles.

Já as vontades tinham de ser muito bem planilhadas e contabilizadas. Não dava pra desejar muito algo, por menor que esse algo fosse, nem desejar algo muito grandioso, por menor que o desejo fosse.

No fim, era tanto trabalho pra realizar um desejo que eu acabava voltando pros meus deveres. Até fantasiar com o que eu queria era contabilizado como dívida de tempo.

Tentei tomar decisões que possibilitassem uma vontade insistente de viajar mais, ver mais o mar, mas na mesma medida criava, através dos deveres, impossibilidades pra realização dessa vontade. As condições ideais nunca se apresentavam pra mim (ora, mas que novidade) e, mesmo sabendo que eu almejava algo impossível pra começar a agir, ainda assim esperava.

Em uma sessão de análise me lastimei: “Nos últimos anos tomei tantas decisões em prol de viajar com mais frequência e mesmo assim eu nunca viajo!!”

Nunca tinha ido ao Rio, nunca tinha viajado sozinha — pelo menos não sem planos de encontrar alguém específico no meu destino —, nunca tinha tido a experiência de dividir quarto com pessoas totalmente desconhecidas. Quando soube que Lauryn Hill iria se apresentar no Rio (apenas 15 dias antes do evento), interpretei como um sinal do universo — como uma típica neurótica faria, mas dessa vez usei os “sinais” a meu favor — e decidi: “ready or not, here I come..”

Me preocupei se alguma tragédia aconteceria por eu estar realizando um desejo? Certamente que sim, mas fui. Ainda bem…

Reencontrei uma amizade antiga, conheci pessoas incríveis, gastei meu inglês e garimpei em um brechó — coisa que amo fazer — porque errei nos looks (esperava Rio 40ºC, recebi Rio 15ºC).

Aprendi que viver um pouco no improviso não mata, só reorganiza e que as condições ideais nunca foram um requisito pra viver, só pra adiar a vida

The Boys escancara o que acontece quando um sistema elege como seu representante um sujeito que, além de perverso, detém...
05/06/2026

The Boys escancara o que acontece quando um sistema elege como seu representante um sujeito que, além de perverso, detém super poderes.

No universo fictício — nem tanto — de The Boys, super-heróis (ou seriam somente super-playboys?) existem, foram criados — em cima de muitas promessas de fama, grana e glória — e são controlados pela Vought, um sistema perverso que hora aposta na performance de bom samaritano dos seus “garotos”, hora na espetacularização de suas incontáveis transgressões.

Vought lucra e controla a narrativa política de toda uma nação através de um grande espetáculo em que o mais forte, mais inatingível e mais delirante megalomaníaco é também o mais propenso a subir no pódio, a ganhar os holofotes.

Se o fetiche do Homelander é com o leite materno, o da Vought (sua grande mãe), é a violência. E ela não se acanha em usar da superexposição da violência pra transformar o telespectador em cúmplice. São explicitamente obscenos para (implicitamente) dizer: “Eu sei que é um show de horrores, mas é isso que vocês gostam de assistir”

Homelander goza com a possibilidade de ser temido e quanto mais poder lhe é conferido, mais ele se utiliza dele. Porque para ele não basta não ter um limite sequer que seja capaz de barrar sua busca por prazer, não basta ter poder suficiente para transgredir a lei sem ser penalizado. Ele também quer alterar a lei, inscrever a SUA LEI — à força se preciso (e um tanto melhor se o for) —, quer ser Deus.

The boys choca porque é feito para isso, mas talvez choque menos do que a realidade que se propõe a satirizar.

Bárbara Genari • CRP 04/66298

Há mais de 10 anos desenhei um autorretrato que, em 2025, recomecei em tela. Entre uma versão e outra, muita coisa mudou...
01/06/2026

Há mais de 10 anos desenhei um autorretrato que, em 2025, recomecei em tela. Entre uma versão e outra, muita coisa mudou. Eu também.

Na graduação (Psicologia), mais especif**amente na matéria de iniciação científ**a, há 8 anos, comecei uma pesquisa que não levei adiante por diversas questões. Uma delas por pensar que estaria me expondo demais — afinal a pergunta que guia uma pesquisa quase sempre revela algo sobre o pesquisador — e outra por não encontrar muitas referências sobre o tema no campo da psicanálise.

O tema era Amor e Solidão — não conhecia Ana Suy naquela época (o que é uma pena, pois se conhecesse talvez me sentisse mais encorajada a seguir com a pesquisa).

Em 2026, já no fim da pós-graduação (Psicanálise), após ter passado por um 2025 caótico do qual estava tentando me reescrever e reerguer — inclusive em tela — encontrei meu projeto de pesquisa de 2018 enquanto, pasmem, reformava meu escritório.

O amor voltou por outros caminhos e, como eu já não era a mesma, me permiti voltar a pesquisá-lo a partir de novas perguntas. Porque certas questões insistem até encontrarem lugar em nós.

Tinha a pretensão de terminar o quadro junto com a pós-graduação, quase que em um rito de finalização, mas ela acabou antes. A aprovação do TCC — dessa vez sobre Amor e cultura do narcisismo — veio antes.

A conclusão foi só de um curso, enquanto que a formação de um(a) analista é sempre continuada, e a narrativa de um sujeito sempre pode ser reescrita.

Ainda quero acrescentar elementos ao autorretrato — o que provavelmente vou continuar a fazer até decidir refazê-lo por completo (em uma nova tela) —, assim como quero continuar pesquisando (não só sobre o amor, pois creio ter conseguido reservar a ele a parte que verdadeiramente lhe cabe)

Porque terminar é recomeçar: uma outra história, uma outra pergunta, um outro quadro, um outro amor.

Porque viver é estar em obras, é construir o andar de cima pisando no de baixo, é caminhar pro futuro pisando no chão do passado.

É sobre amar o processo por entender que ele é eterno enquanto a gente dura…

(posto que é chama)

Bárbara Genari • CRP 04/66298

28/05/2026

O que marca não é só o que aconteceu, é também o modo como aquilo foi recebido depois.

Quando uma dor encontra negação, dúvida ou minimização, ela pode f**ar sem lugar.

Sobre trauma, desmentido e a importância de uma escuta que não negue a realidade psíquica do sujeito.

Bárbara Genari • CRP 04/66298

Na clínica, tem coisa que a gente não sustenta sozinho.Análise pessoal, supervisão e estudo de caso não são enfeite de f...
27/05/2026

Na clínica, tem coisa que a gente não sustenta sozinho.

Análise pessoal, supervisão e estudo de caso não são enfeite de formação. São parte do trabalho ético de quem escuta.

E aqui, “caso difícil” não é sobre um sujeito “difícil de lidar”. É sobre aqueles atendimentos que atravessam a gente, que deixam perguntas, incômodos...

25/05/2026

Quando o psi chora durante uma sessão, o que acontece com o lugar do paciente?

Já aconteceu com você? Como isso afetou seu processo?

Bárbara Genari • CRP 04/66298

21/05/2026

Enquanto vocês acreditam que só vocês pensam no que falar (ou no que deixaram de falar) durante a sessão... a gente segue tendo insights aleatórios sobre a condução do caso no meio da louça, do banho ou antes de dormir pensando:

“como eu deixei isso passar?”

Mas, de certa forma, é justamente isso que sustenta a continuidade de uma análise.

Em psicanálise a compreensão nunca é total.
Alguma coisa sempre escapa. Sempre falta. Sempre f**a um resto.

E normalmente é daí que surge a possibilidade de criar algo novo.

Lost in Translation/Encontros e Desencontros (2003 dir. Sofia Coppola) acompanha dois estrangeiros em Tóquio: Bob e Char...
17/05/2026

Lost in Translation/Encontros e Desencontros (2003 dir. Sofia Coppola) acompanha dois estrangeiros em Tóquio: Bob e Charlotte.

No filme, Charlotte, jovem de 20 e poucos anos e casada há pouco tempo, está acompanhando o marido em uma viagem a trabalho. Enquanto Bob, na casa dos 40 anos, possui uma vida já estabelecida e está em Tóquio para fazer um comercial de Whisky.

Ainda que ambos estejam cercados de pessoas quase o tempo inteiro, existe no filme uma sensação constante de desencontro. Como se nada ao redor realmente pudesse alcançá-los, compreendê-los. Algo inevitavelmente se perde na tradução (lost in translation) quando os demais não compartilham a mesma língua, os mesmos códigos, os mesmos referenciais.

Apesar de estarem em fases de vida bem diferentes, Bob e Charlotte parecem atravessar uma espécie de solidão compartilhada que, de algum modo, os aproxima. Não por falarem o mesmo idioma, ainda que isso ajude, mas por reconhecerem, um no outro, um vazio que também lhes atravessa e que, por isso mesmo, dispensa tradução.

Às vezes, o encontro entre duas pessoas não acontece só por falarem a mesma língua, mas porque, entre si, parecem precisar se traduzir menos.

Bárbara Genari — CRP 04/66298

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