09/10/2026
A política também faz parte dos nossos relacionamentos.
A forma como aprendemos a amar, os lugares que ocupamos nas relações e aquilo que consideramos aceitável são atravessados por discursos sociais sobre o que uma mulher deve ser e suportar.
Isso aparece nas relações abusivas, por exemplo, quando o controle é confundido com cuidado, o ciúme é tratado como prova de amor, a autonomia da mulher é vista como ameaça e a violência é justif**ada como uma reação ao comportamento dela.
Aparece quando uma mulher é responsabilizada pelo fracasso de uma relação, enquanto o homem é autorizado a controlar, decidir e determinar os limites da vida a dois.
Essas ideias não surgem do nada.
São construídas e reproduzidas socialmente, nas famílias, nas instituições, nas leis e nos discursos que dizem o que uma mulher deve ser, como deve se comportar e até quanto deve suportar para manter um relacionamento.
Direitos que hoje parecem básicos nem sempre existiram. O divórcio, por exemplo, só foi instituído no Brasil em 1977.
Essas conquistas foram resultado de lutas e transformações sociais, assim como as possibilidades que temos hoje de escolher os caminhos da nossa vida.
Isso não signif**a que todas as nossas escolhas amorosas sejam determinadas pela política, nem que toda dificuldade em um relacionamento tenha uma explicação social, mas signif**a reconhecer que a nossa história individual também é atravessada por valores coletivos, relações de poder e expectativas de gênero.
Numa análise, por exemplo, podemos nos perguntar sobre o lugar que ocupamos nas nossas relações, sobre aquilo que aceitamos, sobre os limites que conseguimos sustentar e sobre os desejos que deixamos de lado para sermos amadas. Não para culpabilizar uma mulher pelo que vive, mas para que ela possa construir outras possibilidades diante da própria história.
A política não está apenas nas decisões de quem governa, mas também atravessa as condições em que vivemos, os direitos que conquistamos e as possibilidades que temos de existir como sujeitos nas nossas relações.
Thaís Galvão - Psicanalista