Relatos de um Médico Plantonista

Relatos de um Médico Plantonista Histórias de um médico plantonista que relata o que vive com seus pacientes dentro e fora de uma sala de emergência.

"Deixo a imagem de um profissional da saúde reanimando um paciente enquanto era transferido para uma unidade. Alguém hoj...
11/01/2023

"Deixo a imagem de um profissional da saúde reanimando um paciente enquanto era transferido para uma unidade. Alguém hoje me disse que somos os grandes tomadores de café dos hospitais. Quem fala isso nunca viveu uma reanimação, com todas as roupas que aos dois minutos te faz suar como se você
corresse uma maratona.

Às vezes toma-se café e coca-cola, procura-se f**ar alerta em turnos de 12 ou 24 horas para conseguir cumprir com a responsabilidade de cada um de nós, mas você que nunca viveu uma reanimação, se nunca brigou pela vida de uma pessoa que está prestes a "ir embora" pare de reclamar por um café que nos vê tomar.

Somente os funcionários da saúde, enfermeiros, técnicos de Enfermagem, médicos, fisioterapeutas, radiologistas, auxiliares de serviço… voltam para casa e para suas famílias, depois de se despedir de outros seres humanos, tentando continuar com sua vida, enquanto você toma café olhando para o noticiário."

Créditos: Texto de uma equipe de Enfermagem

19/02/2021
14/05/2020

O Perigo do COVID-19
Falam de respiração ou ventilação artificial, mas tem muita gente que não tem a mínima ideia do que se trata.
Não é uma máscara de oxigênio posta na boca enquanto você f**a deitado pensando em sua vida.
A ventilação é invasiva para o COVID19, é uma entubação que é feita sob anestesia geral e que consiste em f**ar 2 a 3 semanas sem se movimentar, muitas vezes de cabeça para baixo (decubitus ventral) com um tubo enterrado na boca até a traquéia e que lhe permite respirar ao ritmo da máquina a que está conectado.
Você não pode falar nem comer nem fazer nada de forma natural.
O incômodo e a dor que sente precisam da administração de sedativos e analgésicos para garantir a tolerância ao tubo durante o tempo que o paciente precisar da máquina para respirar, tudo isso durante um coma artificial.
Em 20 dias deste "tratamento suave" em um paciente jovem a perda de massa muscular é de 40 % e a reabilitação será de 6 a 12 meses, associado a traumatismos da boca ou até mesmo das Cordas vocais, uma dor sem tamanho.
Isso se o tempo de internação não for longo demais e o tubo tiver que ser retirado para fazer uma traqueostomia.
É por isso que as pessoas idosas ou já frágeis não aguentam.
Então, não saia de casa pra bater ponto na casa dos pais, dos irmãos, dos amigos.
Seja responsável!

07/05/2020

! No dia 15 de maio será anunciado outro isolamento social, e será prorrogado até 30 de Maio. Sabe por quê? Porque a cada dia aumenta o número de infectados e mortos. Sabe quem é o culpado dessa curva não diminuir? VOCÊ!
Você que f**a nos bares, no portão de casa batendo papo com vizinhos, fazendo festa com amigos e saídas desnecessárias.
Vocês estão sendo IRRESPONSÁVEIS!
Não tem vacina, não tem leito e não tem respirador.
Por favor, não brinquem com a sua vida e nem coloque a vida dos outros em risco.
!

 : Fiocruz alerta para urgência de medidas rígidas de isolamento social.Com base em análises técnico-científ**as, a   co...
07/05/2020

: Fiocruz alerta para urgência de medidas rígidas de isolamento social.
Com base em análises técnico-científ**as, a considera urgente a adoção de medidas mais severas de distanciamento social e ações de lockdown no estado do Rio de Janeiro.
Leia a nota completa: bit.ly/2YDHKm4

Fundação encaminhou (6/5) relatório ao Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro que consolida um posicionamento a respeito da adoção de medidas rígidas de isolamento social no âmbito territorial do estado

06/05/2020

Morte por Covid-19.

Morte rápida e sofrida.
Saturação caindo...
Pressão arterial diminuindo, mesmo com doses altíssimas de dr**as vasoativas.
Várias sedações para melhor adaptação ao respirador mecânico, conforto e diminuição de dores.
Febre... Muita febre.
Os que estão lúcidos relatam cansaço, dor nas costas ao respirar, deprimem pelo isolamento, uma tosse desesperadora, não aceitam bem a dieta oferecida pela dispnéia e falta de paladar e olfato (relato de ontem dos nossos pacientes lúcidos).
Medicamentos diversos e antibióticos e no fim o vírus venceu.

De nada adiantou tantos investimentos e cuidados intensivos.
No final olhei para os olhos do paciente e vi lágrimas saindo de seus olhos, já em óbito.
Existem explicações científ**as para tal fato, me doeu ver aquilo.
Passei a mão no seu rosto em forma de carinho, fiz uma breve oração, passei algodão em seus olhos para secar aquele líquido que me pareciam lágrimas.

Ali acabou meu trabalho, mas e a família?

Será que vc está preparado pra perder um dos seus e passar por tudo isso?

Se cuida! Cuide dos seus.

Não é só politicagem, não é uma conspiração mundial.
É um vírus que mata e leva quem vc ama.

Aproveite cada minuto dessa vida.
Ame mais, sorria mais, beije e abrace mais, dê valor a sua família e amigos, reveja suas prioridades, brigue pelo certo, não seja isento diante do mal.

Sei que estou ali por escolha minha e pq preciso aprender mais.
Preciso ser um ser humano melhor.

É preciso se conscientizar, e f**ar em casa...
Preciso cuidar!!Acreditem que essa doença mata e mata muito rápido.

06/05/2020

Tentarei atualizar aqui todo dia entre 20:00 e 21:00.

até mais.

06/05/2020

Ontem no meu plantão vi 2 filhas chorando a morte de sua mãe. As 2 desoladas, viram o corpo de sua mãe de longe e não puderam se despedir com um simples abraço. Fiquei ao lado das 2, que estavam desesperadas querendo abraçar sua mãe e eu ali, não permitindo esse abraço, tendo que segurar minhas lágrimas e cronometrando o tempo da despedida que não poderia passar os 5 minutos. Tirei as duas da sala e elas me fizeram a seguinte pergunta: O que ela falou pela última vez? Isso me desestabilizou, segurei mais uma o choro e respondi à pergunta: Ela estava chamando por vocês e disse que sentia saudade!! Fechei a porta da sala de isolamento e tive que continuar o meu plantão e enfrentar outras histórias...
Sabe quando consegui chorar??
Em casa, quando vi minha mãe, com saúde e bem
Já pensou não poder se despedir do seu familiar?

04/12/2019

O despertador tocou e eu levantei da cama no modo automático e cumpri todas as etapas antes de pegar o caminho do trabalho. Banho, roupa, café, escovar os dentes. Sai de casa ainda com pensamentos que mal gastam energia. Vim com a cabeça no mundo da lua, pensando que hoje é daqueles dias em que as 24 horas serão bem trabalhadas. Aí cheguei, peguei os prontuários, pontualmente, abri a sala, ajeitei as coisas e fui atendendo os pacientes. A primeira traz uma lembrancinha de Páscoa, grata por ter melhorado da insônia. O automatismo, essa hora, cedeu lugar à gratidão e reflexão. Continuo atendendo. Não é mais automático. Agora, o sorriso já tomou conta de um rosto cansado de uma semana inteira de trabalho. Chamo a quarta paciente, no fim da consulta me olha e diz:

- A gente, paciente, percebe quando quem atende a gente está aqui por amor. A gente vem aqui, tem nossa hora marcada, isso é tão bom, me sinto importante porque vou chegar e o senhor vai estar me esperando.

Aí você para. Pensa. Não sabe o que responde. Percebe que coisas tão comuns e cotidianas, que você nem se toca, fazem a diferença na vida das pessoas. Eu vi uma pessoa se sentindo importante por ter um espaço de escuta e de tratamento e alguém que irá lhe ouvir. As pessoas querem ser ouvidas. E é fantástico poder ser esse ouvido para elas.

02/12/2019

Quando acho que já vivi de tudo no pronto socorro, surge um senhor de 50 anos, nervoso, com dor torácica. Pergunto:

- O que houve?

Ele estava na maca e sua esposa ao lado. Ela que me responde:

- Descobriu que a nossa menina de 14 anos está namorando um rapaz de cor.
- Oi? Não entendi. - fiz-me de desentendido, tamanho absurdo que acabara de ouvir.

Ela continua:

- Sim, ele é moreninho. Pele escura, sabe? Ele não aceita.

Engoli minha indignação, atendi o senhor. Pedi que se levantasse da maca e que entrasse no consultório. Entrou, transtornado. E disse:

- O meu nome é trabalho, criei todos lá em casa pra ser gente, não pra namorar com vagabundo. Se ela continuar, mato ela ou ele. Mas não aceito! Não aceito!

Sem palavras, vim aqui escrever pra tentar digerir. Jantei às 21 horas e nesse momento sinto um embrulho no estômago, que rejeita a comida e esse tipo de gente que eu não entendo como insiste em existir.

29/11/2019

Despedida:

- Tive uma vida difícil, sofrida. Lembra quando cheguei aqui? Lembra como eu estava?
- Lembro, claro que lembro.
- Eu usava roupas escuras, largas, não tinha vontade de nada, mal falava, mal sorria. Lembra o que você me disse, doutor?
- O que eu lhe disse?
- Que queria me vê sorrindo um dia, com roupas mais alegres, que queria me vê cantando?
- Foi mesmo? Eu disse isso? Perguntei sorrindo.
- Eu nunca me esqueci disso não! Me agarrei nisso! E olhe como eu estou hoje? Estou bem! Só falto cantar! - me disse ela, dois anos depois, com roupas leves, coloridas, sorriso no rosto, de volta ao trabalho e à sua vida. -Você vai embora? Soube que vai embora.
- Vou. Minha residência está terminando.
- Nunca mais vou te ver?
- Costumo pensar que quando lembramos com carinho de alguém, é uma maneira desse alguém existir em nós. Isso não acaba. Permanece.
- Isso não acaba. Não acaba, você tem razão, doutor. Permanece.

Endereço

Rio De Janeiro
Rio De Janeiro, RJ

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