21/08/2026
Nem toda lacuna precisa ser imediatamente preenchida.
Nem todo silêncio precisa virar conversa.
Nem todo horário livre precisa ganhar tarefa.
Nem toda incerteza precisa receber uma resposta instantânea.
Há uma inquietação contemporânea diante dos espaços vazios. Como se aquilo que ainda não foi preenchido estivesse incompleto. Como se o silêncio denunciasse alguma coisa, o tempo livre precisasse ser justificado e a ausência de uma resposta significasse que estamos atrasados em relação à própria vida.
E então ocupamos.
Pegamos o celular enquanto esperamos. Ligamos alguma coisa enquanto fazemos outra. Encaixamos compromissos nos intervalos. Procuramos explicações para sentimentos que mal começaram a aparecer. Tentamos decidir rapidamente aquilo que ainda precisaria amadurecer dentro de nós.
Pouco a pouco, podemos perder a experiência de permanecer diante do que ainda não tem forma.
Porque existem coisas que só aparecem quando não corremos para preenchê-las.
Um pensamento que surge depois de alguns minutos de silêncio. Uma vontade que finalmente conseguimos distinguir das expectativas dos outros. Um cansaço que só percebemos quando paramos. Uma pergunta que começa a se transformar quando desistimos de arrancar dela uma resposta.
Há momentos em que a lacuna não é ausência. É espaço.
O silêncio pode ser habitado.
O tempo livre pode ser justamente o pedaço do dia em que nada precisa ser demonstrado, entregue ou concluído.
E a incerteza pode ser o tempo necessário para que alguma coisa encontre forma.
Na Gestalt-terapia, confiamos também nesse movimento: nem tudo precisa ser nomeado ou compreendido imediatamente. Às vezes, permanecer presente diante do que ainda não se definiu é justamente o que permite que uma nova figura emerja.🌻
Há coisas que só se revelam quando encontram espaço para aparecer.