08/07/2020
O que sobra, quando a rotina do “ir e vir” é "substituída" pelo isolamento social? Após quase 4 meses de pandemia e quarentena, vejo as mais variadas sobras, destinos e possibilidades. Mas, algo se repete (quase que unanimemente): novos significados para a palavra tempo.
Quando minha filha nasceu, meu analista da época me disse que era bonito de ver o respeito ao tempo das coisas. Nunca mais esqueci dessas palavras e uso essa expressão, “o tempo das coisas”, quando quero dizer que vou deixar as coisas fluírem. É meio redundante, até. Mas, pleonasmos a parte, ele tinha razão. Naquela altura, no meio de um puerpério - surpreendentemente - me sentia desacelerada, sem pressa, aproveitando o que era de aproveitar, surtando com o que era de surtar, cuidando de quem era para cuidar. Tinha, sim, uma beleza naquele caos.
Em 2020, cinco anos depois, eu já estava “funcionando” no modelo “mulher moderna”. Aquela divisão - (im) possível - entre trabalho, carreira, maternidade, autocuidado, lazer, relacionamentos e etc. Talvez, não mais “respeitando” o tempo das coisas. Eis que um vírus, com alto potencial de propagação, acomete meu país. A medida mais eficaz para contenção da propagação do vírus? Isolamento social.
Não, não estamos em um puerpério coletivo. Não citei aquele tempo, para fazer esse tipo de analogia. Estamos em uma pandemia, mesmo. Com milhares de mortes (minha solidariedade a todos que perderam pessoas queridas), com a desigualdade social gritando, e com o pior cenário político que poderíamos ter.
Mas, sim, estamos todos precisando lidar com o isolamento. Quem pode fazê lo , e quem não pode. Quem o valida e quem o invalida. Todos, de alguma forma, com algo em suspenso. Com novas noções de tempo, de intervalos, de pausas. Com novas noções de intimidade, de relação, de solidão e de solitude. Alguns se havendo com seus vazios, outros querendo espaço para o vazio. Cada um a seu tempo, e do seu jeito, apostando tentativas de sobrevivência e sentido para esse tempo fora do tempo.
Que marcas serão deixadas por essa experiência que é coletiva, mas é vivida e sentida singularmente por cada sujeito? Só o tempo, dirá.
Por Gabriela Oliveira
Psicóloga
Crp 05/50112