Psicóloga Marcela Rocha

Psicóloga Marcela Rocha Sou Psicóloga e Psicanalista, comprometida com a saúde mental da população preta.

Na minha graduação, senti uma ausência real: precisei ir atrás, por conta própria, de autores negros e de discussões sob...
04/08/2026

Na minha graduação, senti uma ausência real: precisei ir atrás, por conta própria, de autores negros e de discussões sobre racismo na constituição subjetiva. Não foi algo que chegou pronto na grade. Não sei dizer como isso acontece em cada curso do Brasil hoje, mas posso falar da minha experiência e do que ouço de quem passa pelos grupos que coordeno.

Um dado que ajuda a dimensionar isso: o CensoPsi 2022, do Conselho Federal de Psicologia, foi a primeira pesquisa nacional sobre a profissão a incluir raça entre os marcadores pesquisados, ouvindo mais de 20 mil psicólogas e psicólogos em todo o país.

Na prática, essa lacuna de formação aparece como insegurança: medo de errar politicamente, de invalidar uma dor que não é sua, de reproduzir, sem perceber, uma escuta que universaliza sofrimento.

Não existe fórmula pronta. Existe estudo, supervisão contínua e disposição de revisar a própria prática.

*Fonte: CensoPsi 2022, Conselho Federal de Psicologia.*

01/08/2026

"Dispositivo de mestiçagem" foi um dos conceitos que mais me marcou na minha pesquisa de graduação, a partir dos estudos de Kabengele Munanga.

A tese: diferente dos Estados Unidos, que criaram uma linha de cor jurídica explícita, o Brasil desenvolveu outro tipo de controle social: o de misturar, apagar diferenças e vender essa mistura como harmonia racial. Munanga mostra, por exemplo, que em 1872, 78% dos chamados "mulatos" já eram juridicamente livres mas, na prática, muitos ocupavam posições estratégicas de controle sobre outros escravizados, numa liberdade condicionada a servir à lógica do senhor.

É esse mito, o da democracia racial, que ainda hoje sustenta a leitura de que desigualdade é falta de esforço individual, quando, como aponta Silvio Almeida, é estrutura.

Referência: MUNANGA, K. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil, 1999.

"Não existe sujeito fora da política."Essa é uma premissa que sustento na minha pesquisa e na minha clínica  não porque ...
29/07/2026

"Não existe sujeito fora da política."

Essa é uma premissa que sustento na minha pesquisa e na minha clínica não porque a política substitua o inconsciente, mas porque todo sujeito se constitui em relação a um outro, a uma linguagem, a uma história que não escolheu. E essa história é sempre atravessada por relações de poder.

Por isso não trabalho com uma ideia de clínica neutra. Escutar alguém sem considerar o lugar social, racial e histórico de onde essa pessoa fala não é neutralidade, é uma forma de deixar parte do sofrimento de fora da escuta.

Isso não signif**a reduzir o sujeito à sua condição social. Signif**a não separar as duas coisas.

27/07/2026

Existe um conceito que atravessa há anos a minha pesquisa: necrosubjetividade.

Desenvolvido por João Ignácio, o termo busca nomear os efeitos subjetivos produzidos por um sistema colonial fundado na dominação, na exploração e no extermínio. Nessa perspectiva, a escravidão não pode ser compreendida apenas como um regime econômico ou político, mas também como um modo de produção de subjetividades.

Por isso, quando falamos sobre escravidão, não estamos tratando apenas de um passado encerrado. Estamos falando de uma experiência histórica que deixou marcas na constituição dos sujeitos e nas formas contemporâneas de sofrimento psíquico.

Frantz Fanon já apontava alguns desses efeitos ao analisar a alienação produzida pela situação colonial. A questão que me orienta parte desse ponto: quase dois séculos após a abolição, de que modo essa herança traumática continua operando na vida psíquica de sujeitos negros?

Essa é uma das perguntas que orientam minhas investigações sobre racismo, subjetividade e clínica psicanalítica.

Os números não mentem: o Brasil lidera os rankings mundiais de ansiedade (OMS) e os afastamentos por transtorno mental q...
23/07/2026

Os números não mentem: o Brasil lidera os rankings mundiais de ansiedade (OMS) e os afastamentos por transtorno mental quase dobraram na última década (Ministério da Previdência Social, 2025).

Esses dados são importantes: orientam política pública, visibilizam sofrimento que era silenciado. Mas eles também me fazem uma pergunta: quando tudo vira diagnóstico, o que f**a de fora?

Um CID não pergunta em que bairro você mora, quantas horas você trabalha, ou o que signif**a, historicamente, pro seu corpo, ter que provar valor o tempo inteiro.

Pensar clínica é sustentar as duas coisas: o sintoma que é seu, e o mal-estar que também é do nosso tempo. Essa é a proposta do Grupo de Supervisão Clínico-Política, pensar caso clínico sem cortar fora o social. Encontros semanais, informações nos destaques.

Fontes: OMS (dado de prevalência de ansiedade no Brasil) e Ministério da Previdência Social, 2025 (dados sobre afastamentos por transtorno mental).

21/07/2026

A pergunta que sustento no artigo não é só histórica, é clínica: essa vitória do "inimigo" permanece intacta? Olhando pras resistências que seguem acontecendo, minha hipótese é que não.

Esse cruzamento entre história, memória e clínica é um dos eixos que discuto nas supervisões do grupo.

*Referências: BENJAMIN, W. O anjo da história, 2012; ADICHIE, C. N. O perigo da história única, TEDGlobal, 2009.*

16/07/2026

Quando a clínica não reconhece os efeitos subjetivos do racismo, o paciente pode acabar ocupando um lugar que não deveria ser seu: o de provar que seu sofrimento existe.

Uma escuta ética exige mais do que técnica. Exige formação para reconhecer como as violências sociais atravessam a constituição do sujeito e seus sintomas.

É dessa perspectiva que parte o grupo de supervisão clínico-política.

Link na bio.

14/07/2026

A depressão tem substrato biológico. Isso é real. Mas se a compreensão parar aí, metade da pergunta f**a sem resposta.

A OMS estima que mais de 280 milhões de pessoas vivem com depressão no mundo (relatório 2023). Esse número cresceu de forma signif**ativa nas últimas décadas e a explicação não cabe apenas na neurobiologia.

A psicanálise propõe que o mal-estar também fala de um tempo. De uma cultura. De relações que produzem sofrimento. Freud já havia intuído isso em 1930, em "O Mal-Estar na Civilização" e a questão segue aberta.

Uma clínica que olha apenas para o indivíduo corre o risco de individualizar um sofrimento que também tem dimensão coletiva. Nomear isso não é negar o biológico. É recusar que ele seja a única resposta possível.

Referências: OMS, fact sheet sobre depressão (março 2023). Freud, S. O Mal-Estar na Civilização (1930).

Como todo mito, o da democracia racial oculta algo para além daquilo que mostra. Numa primeira aproximação, constatamos ...
12/07/2026

Como todo mito, o da democracia racial oculta algo para além daquilo que mostra.
Numa primeira aproximação, constatamos que exerce sua violência simbólica de maneira especial sobre a mulher negra, pois o outro lado do endeusamento carnavalesco ocorre no cotidiano dessa mulher, no momento em que ela se transfigura na empregada doméstica.

Embora saibamos que não se trata apenas de desconstruir a tal hierarquia racial - e, para que isso de fato ocorra, é preciso desconstruir a própria ideia de raça -, estamos sustentando que esse processo exige racializar para desracializar; sendo assim, o devir e o porvir negro, neste tempo histórico, exigem afirmam a raça ou mesmo a identidade, para , em meio a essa ressignif**ação, restituir a história dos povos a partir dos afetos gerados nesse processo.

O dispositivo de racialidade, ao demarcar a humanidade como sinônimo de brancura, irá redefinir as demais dimensões humanas e hierarquizá-las de acordo com a proximidade ou distanciamento desse padrão.

O imperialismo, que hoje luta contra a autêntica libertação dos homens, abandona aqui e ali germes de podridão que implacavelmente temos de detectar e extirpar das nossas terras e das nossas cabeças.

Não é incomum o sentimento que nós, negros, experimentamos de nunca sermos suficientemente bons nas relações ou funções sociais por nós assumidas: não basta sermos bons, temos que ser os melhores e exemplares, depositários que somos do desejo de pais que projetaram em nós o sujeito que foram impedidos de ser.

Uma formação comprometida com o sujeito exige mais do que domínio conceitual. Exige posicionamento crítico diante do sof...
10/07/2026

Uma formação comprometida com o sujeito exige mais do que domínio conceitual. Exige posicionamento crítico diante do sofrimento contemporâneo, como condição fundamental para uma prática clínica ética e responsável.

O grupo de supervisão clínico-política foi construído a partir dessa premissa.

Link na bio.

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