10/08/2026
A palavra psiquê vem de longe. Muito antes de nomear um campo científico, ela nomeava uma personagem de um mito grego. A trajetória de Psiquê atravessa nascimento, amor, perda, provações e transformação. Não é acaso que a psicologia tenha herdado esse nome. A vida psíquica também se forma como uma narrativa.
Psiquê nasce cercada de admiração, mas sozinha. É desejada, mas não vista. Depois é encontrada por Eros, que a esconde num palácio onde tudo lhe é dado, exceto o direito de ver o amado. Vive um encantamento sem contato pleno. Quando finalmente enxerga Eros, ele foge. Ela cai no desespero, é amparada pela natureza, passa por tarefas duríssimas até que, ao final, é acolhida pelos deuses e se torna imortal.
Cada passagem desse mito guarda um paralelo com o desenvolvimento psíquico. A admiração sem contato do início lembra o narcisismo primário, quando o bebê existe cercado de amor mas ainda não vê claramente quem o cuida. O encantamento que se rompe evoca o desmame, a primeira grande perda. As provações lembram as fases seguintes, em que a criança aprende a lidar com frustração, com regras, com o outro. A imortalidade final é a inscrição do sujeito na cultura e no vínculo.
O que essa narrativa antiga sugere é que ninguém se constitui de uma vez. Somos formados por passagens, cada uma com seus riscos, com suas ajudas, com suas travessias possíveis. Nada do que somos veio pronto. Fomos sendo, ao longo de encontros e perdas, aquilo que hoje reconhecemos como nós mesmos. O mito antecipa, em imagem, o que a psicologia moderna diria depois com outras palavras.
Talvez por isso o mito ainda comova. Além de uma história de amor, é a história de uma alma que atravessa o difícil de existir. E há um alívio em reconhecer que a vida psíquica, mesmo quando parece caótica ou perdida, segue uma estrutura antiga, humana, atravessada por tantos antes de nós.
Referência:
BRANDÃO, Frinéa Souza. A proposta do aparelho psíquico em Reich. Seminário Comemorativo do Centenário de W. Reich, UFRJ, 1997.